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Este é um ambiente dedicado ao estudo da consciência em seus mais variados estágios de evolução e, principalmente, no estágio em que adquirimos a possibilidade de nos manifestar na forma humana. Por isso, decidimos dedicar nossa atual reencarnação para aprofundarmos o nosso autoconhecimento e ajudarmos outros irmãos que também necessitam de esclarecimento, e assim nos tornarmos cada vez mais conscientes de nós mesmos, de nossa bagagem evolutiva, adquirindo mais conhecimentos e experiências através dos quais possamos construir as “sinapses” capazes de nos “revelar” novas realidades, ou melhor, de nos revelar a verdadeira realidade, abandonando as ilusões a que estamos fixados por tanto tempo.

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quinta-feira, 23 de março de 2017

Deus na Natureza, Camille Flammarion, A Vida - Circulação da Matéria

DEUS NA NATUREZA

CAMILLE FLAMMARION

A VIDA – CIRCULAÇÃO DA MATÉRIA

SUMÁRIO – Viagens Incessantes dos átomos através dos organismos; fraternidade universal dos seres vivos; solidariedade indissolúvel entre as plantas, os animais e o homem. – Vida aparente e vida invisível. O ar, a respiração, a alimentação, a desassimilação. – O corpo, transformação perpétua. – O equilíbrio das funções vitais prova uma força diretora. – A decomposição cadavérica prova que a vida é uma força e que essa força não é uma quimera. – Homúnculos. – Fatos e atitudes da Química orgânica. – Essa química não cria seres nem órgãos. – A Matéria circula, a Força governa.

O poder que rege os astros e desata os esplendores de sua riqueza na imensidão dos céus; a força que regula a construção de minerais e plantas, na Terra; a ordem que espalha a harmonia no mundo, vão apresentar-se-nos agora sob um outro aspecto, dando-nos testemunho não menos irresistível do princípio inteligente que preside os nossos destinos.

Enquanto o olhar penetrante do telescópio vara os espaços infinitos, a visão analítica do microscópio visita os habitáculos minudentes da vida na superfície da Terra.

Aqui, já não é apenas a grandeza e o caráter formidando da energia que nos vão falar, mas, antes, o engenho, a beleza do plano, a delicadeza de sua execução e, sobretudo, a sabedoria sobre-humana que domina a matéria e a molda às leis de uma vontade onipotente.

Quando penetramos com os olhos da Ciência o espetáculo do mundo, toda a Natureza nos aparece à feição de imenso dinamismo, em cujo seio se associam ou se transformam as forças extraordinárias da Física e da Química.

Fenômenos efêmeros, que ao vulgo parecem isolados, apresentam-se-nos entramados numa rede única, cujos fios são mantidos por uma força misteriosa.

O mundo envolve-se em grande unidade, nenhum elemento está isolado, nem na extensão presente, nem na História.

São irmãos a luz e o calor, quer se nos mostrem juntos, numa união indefectível, quer mutuamente se façam o sacrifício de sua própria existência. A afinidade e o magnetismo casam-se nos mistérios do mundo mineral. A ponta inquieta do imã procura incessantemente o pólo. A planta eleva-se apaixonada para a luz. A Terra volta para o Sol o seu rosto matinal. Estende o crepúsculo o seu manto sobre a noite e os tépidos perfumes dos vales aquecem os pés gelados da noite. Em aproximando-se a aurora, o beijo do orvalho deixa o seu traço na corola entreaberta das flores. Átomos e mundos são levados por um só impulso universal. Na atmosfera mil ondulações se entrecruzam, mil variedades de força se combinam. Noite e dia, tarde e manhã, em todas as estações, o mesmo movimento simultaneamente insensível e grandioso, que a nossa vista não apreende e que, aberrante de qualquer avaliação numérica, se vai exercendo no laboratório do cosmos. Pois o resultado desse movimento é a Vida.

Fora deste resultado, o mundo só oferece uma atração medíocre aos espíritos curiosos. É pelos aspectos ou pelas sensações da vida que o ser pensante se liga à Natureza. Se a contemplação dos céus, por noites silenciosas, nos causa uma tristeza indefinível; se o aspecto de vastos desertos calcinados por um sol ardente nos deixa impassíveis; se o estudo das mais extraordinárias combinações químicas, operadas numa retorta, nos impressiona menos intimamente do que a visão de um pássaro em seu ninho, ou ainda a de uma violeta vicejando humildemente ao pé de um tronco, é porque essas manifestações não revelam uma vida imediata. Nossa alma é sobretudo acessível às impressões provindas de seres viventes como nós e, de entre estes, os que mais se aproximam da nossa natureza. O timbre de uma voz amada tem maior ressonância em nosso coração do que o ribombo de um trovão. Um raio do olhar eleito nos penetra mais fundo do que um raio de Sol. Um sorriso adorado tem sempre maior encanto que a mais encantadora das paisagens. No colo, nos braços, nos cabelos da mulher idolatrada, não há diamantes nem safiras, esmeraldas e pérolas, cujo brilho se não degrade ao de simples pedrarias decorativas. É que neste caso, sobretudo, a vida nos aparece sob a sua mais bela e mais esquisita manifestação terrestre, pois que ela – a vida – é bem verdadeiramente a grande atração da Natureza.

Mas, a característica que mais vivamente impressiona o observador, no conjunto da vida terrestre, é a lei geral que preside à vida do Universo. À primeira vista, afigura-se-nos que todos os seres estão isolados. O abeto que colma os cimos alpestres parece nada ter de comum com a lebre que corre nas planuras. Certo que a rosa dos nossos jardins não conhece o leão dos desertos. Águia e condor dos altiplanos asiáticos jamais provaram o fruto dos nossos pomares. Trigo e vinha, em nada parece ligarem-se à vida dos peixes. E se nos cingirmos a divisões menos marcantes, ninguém suspeitará qualquer relação imediata entre a vida do homem e a do vegetal que matiza os campos e as florestas.

E contudo, a verdadeira realidade é que a vida de todos os seres terrícolas – homens, animais, plantas - é uma e única, sujeita a um mesmo sistema, tendo por ambiente o ar e por base o solo. E essa vida universal outra coisa não é senão uma permuta constante de matéria. Todos os seres se formam das mesmas moléculas, a passarem sucessiva e indiferentemente de uns a outros, de sorte que nenhum ser dispõe de um corpo propriamente seu. Pela respiração e pela alimentação, nós absorvemos, cada dia, uma certa porção de alimentos. Pela digestão, pelas secreções e excreções, perdemos outra determinada porção de alimentos. Assim, renova-se o corpo e, depois de algum tempo, já não possuímos um só grama do corpo material de antes. Sua renovação foi total, completa. Mediante essa permuta é que se entretém a vida. Enquanto o movimento renovador se opera em nós, a mesma coisa se dá com animais e plantas. Os milhões e bilhões de seres viventes na superfície do globo mantêm-se, portanto, em permuta constante de seus organismos. O átomo de oxigênio, que ora estais respirando, foi ontem, possivelmente, expirado por alguma das árvores que orlam o bosque, além. O átomo de hidrogênio que, neste momento, umedece a pupila vigilante do leão do deserto, será o mesmo que, não há muito, molhava os lábios da mais pudica donzela da austera Albion. O átomo de carbono que neste instante arde em meu pulmão, ardeu talvez na candeia que serviu a Newton para as suas experiências de ótica; e as fibras mais preciosas do cérebro de Newton talvez se encontrem, agora, na concha de uma ostra ou numa dessas miríades de animálculos microscópicos, que povoam os mares fosforescentes. O átomo de carbono que se escapa, no momento, da combustão do vosso charuto, terá talvez saído, há alguns anos, do túmulo de Cristóvão Colombo, que demora, como sabeis, na catedral de Havana. Toda a vida não passa de uma constante permuta de elementos materiais. Fisicamente falando, nós nada possuímos de nós mesmos. Só o ser pensante é o nosso eu. Só ele é que nos constitui verdadeira, imutavelmente. Quanto à substância que nos forma o cérebro, os nervos, os músculos, ossos, membros, carne, essa não a retemos; vai, vem, passa de um ser a outro. Sem metáfora, podemos dizer que as plantas são nossas raízes, que por elas extraímos dos campos a albumina do sangue, o cal dos ossos. O oxigênio de sua respiração nos dá vigor e beleza, assim como, reciprocamente, o ácido carbônico que restituímos à atmosfera vai cobrir de verdura os vales e as colinas.

Quando se tem a convicção profunda dessa permuta universal da matéria, que irmana, do ponto de vista da composição orgânica, a fronde e o pássaro, o peixe e a plaga, o homem e a fera, considera-se a Natureza sob a impressão da grande unidade que preside à marcha das coisas. Ela, a Natureza, se nos apresenta, então, completamente transfigurada e não deixa de ser com um interesse mais íntimo que encaramos o sistema geral da vida planetária. A. de Humboldt traçou a sua fisionomia num esboço amplo, que tem o mérito de reivindicar considerações especiais a respeito. “Quando o homem interroga com argúcia penetrante a Natureza – diz ele – ou quando mede, na sua imaginação, os vastos espaços da criação orgânica, de todas as emoções experimentadas a mais poderosa e profunda é a da plenitude da vida, universalmente difundida. Por toda a parte, até nos pólos congelados, o ar repercute o canto das aves e o zumbido dos insetos.

“A vida transpira, não somente nas camadas inferiores da atmosfera, onde flutuam pesados vapores, mas, também, nas regiões serenas, eterizadas. Todos quantos remontaram, quer as cumeadas da cordilheira Andina, quer os píncaros do Monte Branco debruçados sobre o lago de Genebra, jamais deixaram de aí encontrar seres animados. No Chimborazo, e numa altitude excedente de 2600 metros ao pináculo do Etna, vimos borboletas e outros insetos alados. Mesmo supondo que houvessem sido levados por correntes aéreas, e que lá errassem como estrangeiros, naquelas paragens a que só o ardente desejo de conhecer conduz os homens, a sua presença atesta, todavia, que, mais flexível, a organização animal resiste além dos limites traçados à vida vegetal. Muitas vezes vimos o rei dos abutres – o condor – planar acima de vossa cabeça, em altitudes excedentes aos picos nevados dos Pireneus, e mesmo dos indianos. O possante carnívoro alado era, naturalmente, atraído pelos sedosos vigonhos, que às manadas procuram aquelas pastagens coalhadas de neve.”

Esta vida que vemos difundida, em todas as camadas atmosféricas, não é mais que pálida imagem da vida mais compacta, que o microscópio nos revela, Os ventos arrebatam, à superfície das águas em evaporação, turbilhões de animálculos invisíveis, imóveis e com todas as aparências de morte; seres que flutuam no ar, até que as orvalhadas os devolvam ao solo nutriz, que lhes dissolve o invólucro e, graças provavelmente ao oxigênio sempre contido na água, comunica-lhes aos órgãos uma nova irritabilidade. Nuvens de microrganismos cruzam as regiões aéreas do Atlântico e carreiam a vida de um a outro continente.

Com o autor de Cosmos, podemos acrescentar que, independentemente dessas existências, a atmosfera também contém inumeráveis germes de vida futura, óvulos de insetos e de plantas, que, sustentados por coroas de pêlos ou de plumas, garram para as longas peregrinações do Outono. O pólen fecundante que as flores masculinas semeiam nas espécies de sexo extremado, é também, ele próprio, levado pelos ventos e por insetos alados através de continentes e mares, às plantas femininas que vivem em solidão. Onde quer que o observador da Natureza mergulhe os olhos, aí encontrará vidas, ou um germe pronto a recebê-la.

As formas orgânicas penetram no seio da Terra a grandes profundidades, por toda a parte as águas se espalham e infiltram, seja em interstícios formados pela Natureza, ou feitos pela mão do homem.

Ninguém poderia dizer com segurança qual o ambiente em que a vida se difundiu com maior profusão. De fato, ela repleta os oceanos, das zonas tropicais aos gelos polares; o ar povoa-se de germes invisíveis e o solo é sulcado por miríades de espécies, quer animais, quer vegetais. Estes incessantemente procuram dispor, mediante combinações harmoniosas, da matéria bruta do solo, como que tendo a função de preparar e misturar, por virtude de sua energia vital, as substâncias que, após inumeráveis modificações, hão de ser elevadas ao estado de fibras nervosas.

Abrangendo no mesmo olhar a camada vegetal que reveste o solo, depara-se-nos em plenitude a vida animal, nutrida e conservada pelas plantas.

Por intermédio do ar é que se operam essas transformações incessantes, universais, e não por outro meio que não esse, os elementos podem transitar de um corpo a outro. Proposição é esta, tão exata, que os fisiologistas há muito repetem que todo ser vivo é produto do ar organizado. Como se opera essa organização? A partir de Lavoisier, sabemos que a respiração do homem e dos animais é ato análogo às combustões mediante as quais nos aquecemos e aclaramos. Insistamos um tanto neste ponto. A respiração estabelece uma solidariedade universal entre os homens, animais e plantas. Ela é resultante da união do oxigênio com o carbono e o hidrogênio dos alimentos, tanto quanto a combustão resulta da união desse mesmo oxigênio com o hidrogênio e o carbono da vela, da madeira, ou combustível qualquer. A respiração verifica-se sob a influência da vida, enquanto a combustão, propriamente dita, se opera sob a influência de um calor intenso. Um e outro ato têm por fim produzir calor. É o calor desprendido da nossa respiração que entretém no corpo a temperatura de 37 graus, necessária à mantença da vida.

Lavoisier e Lieb demonstraram, há muito tempo, que todo animal é um foco e todo alimento um combustível. Se a respiração não se acompanha, como a combustão, de claridades incandescentes, é por ser uma combustão lenta, menos ativa. Mas, por muito lenta que seja equivale, contudo, à de uma dose assaz forte de carbono. Um homem queima 10 a 12 gramas de carbono por hora, ou 250 por dia, mais ou menos, além de uma certa quantidade de hidrogênio.

Combustão e respiração viciam o ar destruindo-lhe o elemento salutífero – o oxigênio, substituindo-o por um gás mefítico – o ácido carbônico. Esta e outras causas espalham na atmosfera, de maneira constante, esse elemento insalubre. Experiências feitas com o vapor d'água condensada em janelas dos teatros de Paris, patentearam uma combinação particularmente letífera.

A raça humana retira do ar, anualmente, 160 bilhões de metros cúbicos de oxigênio e os permuta por igual volume de ácido carbônico. A respiração dos animais quadruplica o resultado. Só a hulha que se extrai do solo fornece mais ou menos 100 bilhões de metros cúbicos de ácido carbônico, ao mesmo passo que outros combustíveis aumentam consideravelmente essa cifra. Junte-se-lhe ainda o produto das decomposições e considere-se que, a despeito, esse gás não se encontra no ar atmosférico senão na proporção diminuta de 4 a 5 litros por 100 hectolitros. O ácido carbônico é solúvel n'água, a chuva o dissolve e carreia em suas bátegas, o transporta aos rios, leva-o enfim aos oceanos. Aí, ele une-se à cal e temos o carbonato de cal, as pedras calcáreas, mármore, alabastro, ônix, polipeiros, etc.

Os vegetais, a seu turno, preenchem, em escala imensa, função inversa à respiração dos animais, essencialíssima à harmonia da Natureza, pois não somente fixa o hidrogênio da água e subtrai da atmosfera o ácido carbônico, como lhe restitui o oxigênio. (Uma folha de nenúfar dá, em 10 horas, 15 unidades de oxigênio, proporcionais ao seu volume.)

A que transformações submetem os vegetais o carbono, o hidrogênio, o azoto, que eles absorvem do ar? É toda uma produção multifária. Conjugando cinco moléculas de carbono e quatro de hidrogênio, a Natureza forma, no citrão e no salgueiro, duas essências que, diversas radicalmente em odorância, provêm da mesma composição. Frequentemente, a Natureza junta a estes dois elementos o oxigênio. Assim é que solda doze moléculas de carbono e dez de hidrogênio e oxigênio, formando, a seu talante, seja a madeira, seja a batata. Outras vezes, seu trabalho é mais complexo e reúne os quatro elementos: carbono, hidrogênio, oxigênio e azoto, originando os mais diferentes produtos, tais como o trigo – precioso alimento – e a estricnina – ativíssimo tóxico.

Como explicar, por exemplo, juntando um equivalente de água à substância característica da madeira, a celulose (C12H10O10), a Natureza nos dê o açúcar? Sínteses maravilhosas, a Natureza as produz silenciosamente, ao influxo da vida!

O reino vegetal é uma usina imensa. Sob a ação do calor solar, todas as roldanas entram a movimentar-se. A exemplo do mecânico que nutre a sua máquina, a Natureza renova o combustível e os princípios do ar, e estes se transformam em madeira ou amido, em açúcar ou veneno, que constituem a polpa saborosa do fruto, o perfume sutil das flores, o rendilhado das folhas, a coriácea tessitura dos troncos.

Os animais nutrem-se dos vegetais, gaseificam, por assim dizer, o ar solidificado e o devolvem à atmosfera, onde ele recomeça o ciclo das transformações que, graças a ele – o ar – agente primaz da vida, elo universal, jamais se interrompem.

A comparação que Liebig foi o primeiro a fazer, da combustão respiratória do animal com a dos combustíveis de uma fornalha, só é exata se fizermos uma ideia material do fogo nesse aparelho. No animal, todo o corpo arde lentamente, o que não se dá com a fornalha, que não arde. Na retorta humana, continente e conteúdo queimam juntos e, assim, é mais justo tomarmos a vela como elemento comparativo.

O calor é o regulador da vida. Descartes antecipara-se aos progressos da experimentação escrevendo este significativo conceito: “Importa não conceber nas máquinas humanas outra alma vegetativa nem sensitiva, nem princípio algum de movimento e vida, além do sangue e seus espíritos, agitados pelo calor do fogo que arde continuamente no seu coração e cuja natureza é idêntica à que inflama os corpos inanimados.” (Sabemos que Descartes, como Platão, considerava a alma humana como retirada num santuário, no âmago de nós mesmos, numa espécie de oposição à matéria. A vida e as funções orgânicas dependiam inteiramente do corpo e só o pensamento era atributo do espírito.)

Tal, sumariamente, o papel do ar na Natureza. Assim são os vegetais, habilíssimos físico-químicos, a nos prepararem ao mesmo tempo a alimentação, a respiração, a indumentária, o combustível e os elementos materiais da nossa existência terrestre. Importa, de conseguinte, deixarmos de considerar a Natureza sob um prisma vulgar, para fazê-lo, doravante, com olhos atentos e apercebidos. Quando fixarmos a ervilha tenra que reponta nos jardins, não admiraremos apenas o risonho tapete de verdura e a gracilidade das flores que o esmaltam. Elevaremos mais alto o pensamento, imaginaremos que cada um desses rebentos, que vamos pisando, é um benfeitor silencioso, pois, se de um lado contribuímos para embelezá-lo fornecendo-lhe ácido carbônico, sem o qual se estiolaria, por outro lado ele nos dá benevolamente todo o necessário à nossa vida material: imaginaremos que essa harmonia é de uma perfeição sublime, visto que, se umas regiões mergulham, longos meses, nos rigores do Inverno, os ventos não deixam de estabelecer entre esses países deserdados e o nosso uma permuta constante, que reconduz aos nossos bosques e prados o ácido carbônico expirado pelo lapônio e o esquimó, levando-lhes o oxigênio exalado dos milhões de bocas dos nossos vegetais.

Se acompanharmos a elevação gradativa da matéria, haveremos de reconhecer com os fisiologistas em geral, e com Moleschott em particular, o seguinte processo das permutas materiais: o amoníaco, o ácido carbônico, a água e alguns sais, eis toda a série das matérias com as quais a planta constrói o próprio corpo. Albumina e dextrina formam-se à custa destas combinações simples, por efeito de constante dispêndio de oxigênio. Essas duas substâncias dissolvem-se nos sucos da planta, que se tornam por isso mesmo capazes de transportar-se às mais diversas regiões, através das hastes, das folhas, ou dos frutos. Mercê da albumina, engendram-se corpos outros albuminosos, quais a legumina, o glúten e a albumina vegetal coagulada. Estas duas últimas substâncias se depositam, indissolúveis, na semente. Albumina, açúcar e gordura são os materiais construtivos do animal, cujo sangue é um soluto de albumina, gordura, açúcar e sais. Uma absorção mais forte de oxigênio transforma a albumina em fibrina muscular, em elementos redutíveis, cola de cartilagens e ossos, substância dérmica ou pilosa. Estas substâncias aliadas à gordura, aos sais e à água, constituem a totalidade do organismo animal. Tanto quanto a recomposição progressiva, a desassimilação é fenômeno de evolução gradativa.

Na planta a albumina, o açúcar e a gordura se decompõem em alcalóides, ácidos, matérias corantes, óleos voláteis, resina, azoto, ácido carbônico e água. No animal as mesmas substâncias se resolvem em leucina, sirosina, criatina, hipoxantina, ácido úrico, fórmico, oxálico, ureia, amoníaco, ácido carbônico e água. Fora do corpo a ureia decompõe-se em ácido carbônico e amoníaco.

Assim, graças à vida em si, plantas e animais revertem às suas fontes. Após a morte, a desassimilação é ainda uma evolução, não menos regular que durante a vida. O que se dá, apenas, é que percorre outros graus, até que chegue ao termo da decomposição.

A putrefação não é mais que uma combustão lenta das matérias orgânicas, a operar-se fora do corpo vivo. Ela representa uma espécie de respiração depois da morte e cada átomo vai conformar ou entreter outros corpos.

Tal o esboço químico da permuta vital nos dois reinos orgânicos. Agora, abordemos o assunto particular da vida no reino animal. Nestes novos fatos observados, tanto como nos precedentes, estamos de acordo com os adversários. Entretanto, vamos ver as consequências.

Aqui temos, segundo o próprio autor de A Circulação da Vida, baseado em recentes trabalhos de fisiologistas alemães, o processo geral de desassimilação no animal, ou, para falar mais claramente, os principais fenômenos de permuta das matérias que constituem a vida. Tratemos aqui, particularmente, do corpo humano, por ser o que mais nos interessa.
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Sabemos hoje que a história da evolução dos alimentos e das matérias rejeitadas depois de servirem à assimilação é a essência mesma da fisiologia da permuta material.

A digestão e formação dos tecidos estão compreendidas entre dois limites: as substâncias alimentícias e as partes constitutivas das secreções.

Assim é que todos os elementos anatômicos do corpo se decompõem para se rejuvenescerem sem cessar. O oxigênio aspirado passa da boca pela traqueia arterial, esta se ramifica e seus últimos ramúnculos desligados são providos de vesículas laterais e terminais, que só se intercomunicam pelo ramúnculo do tubo aéreo que as contém.

Deste tubo, o oxigênio passa às vesículas pulmonares e destas ao sangue, através da parede dupla de vesículas e vasos capilares, até que entra, com o sangue, no coração. Em seguida, o coração impele o sangue oxigenado a todos os territórios orgânicos, através das artérias da grande circulação, que mantém todo o corpo sob sua dependência.

Finalmente, o oxigênio penetra os tecidos através das paredes de vasos capilares, que rematam as artérias.

Enquanto isso, um fenômeno inverso se verifica, O ácido carbônico proveniente do sangue e o ar atmosférico aspirado se transformam, segundo a lei das permutas de gases, ao penetrarem as cavernas pulmonares, os brônquios e a própria traqueia.

Depois, o ritmo respiratório, produzindo a retração do peito, expele uma coluna de ar carregado de ácido carbônico. Uma curta pausa e a essa expiração sucede a aspiração, dilata-se o peito, um ar rico de oxigênio substitui o ar expirado, que perdera uma parte desse oxigênio, e o fenômeno prossegue.

Podemos comparar os pulmões a um banco: o ácido carbônico é entregue à circulação externa, para alimento das plantas, em troca do oxigênio recebido. O sangue provido de oxigênio escoasse dos pulmões para o ventrículo esquerdo do coração, daí derivando-se para todos os setores do organismo. Começa, então, aí, a combustão geral que, sob a forma de nutrição aqui, de eliminação acolá, vai acionando as primeiras funções.

É possível medir a intensidade de permuta das matérias de um organismo humano pela quantidade de ácido carbônico, água e ureia eliminados em dado tempo. A rapidez das permutas dá a medida da vida. Sua maior atividade verifica-se dos 30 aos 40 anos. Termo médio, é nessa fase que as energias criadoras do homem atingem o apogeu.

Pulmões e rins não são os únicos órgãos eliminadores; a eles devemos juntar a pele e o reto. Os cabelos que caem, a epiderme que se escama no interior como no exterior, as unhas que aparamos, multiplicam os pontos de eliminação dos princípios azotados.

A atividade eliminatória dos pulmões e dos rins atinge a um quinze avos do peso total das excreções e ultrapassa de muito a dos intestinos. Quanto maior atividade, mais rápida a eliminação.

Os homens entregues a trabalhos de movimento ativo eliminam pela epiderme, em 9 horas, tanto ácido carbônico quanto o correspondente a 24 horas de repouso. Num cavalo a trote, a eliminação é 117 vezes mais copiosa do que em repouso. Um parelheiro inglês, que percorrera em 100 horas uma extensão correspondente a 500 horas de marcha ordinária, não perdeu menos de 14 quilos depois do feito.

O trabalho mental fatiga tanto ou mais que o corporal. A expressão que utilizamos, referindo-nos a criaturas de pensamento ardente, é justa. Qualquer acréscimo de trabalho espiritual produz aumento de apetite, qual se dá com o intenso trabalho muscular. O apetite não é mais que o sinal de empobrecimento do sangue e dos tecidos, manifestando-se por meio de uma sensação. A atividade cerebral, assim como a dos membros do corpo, aumenta a eliminação da pele, dos pulmões, dos rins.

O sangue, por sua vez, abandona constantemente aos órgãos do corpo os seus componentes, que a atividade dos tecidos vai decompondo em ácido carbônico, ureia e água.

Por fim, as matérias excrementícias atravessam continuamente a corrente circulatória para atingir os pulmões, os rins, a pele e o reto, de onde se eliminam. Preciso se faz, pois, que os tecidos e o sangue experimentem, no curso regular da vida, uma perda de substância só compensada pelo processo alimentar.

Notável a rapidez com que se opera esse intercâmbio de matéria.

A duração média da vida dos que sucumbem de inanição atinge a duas semanas. Mas, desde que um vertebrado, seja qual for, morra de inanição, o seu corpo terá perdido quatro dez avos do peso normal.

Nos indivíduos alimentados convenientemente, a permuta se opera mais rápida que nos esgotados pela abstinência. Moleschott e fisiologistas outros acreditaram poder concluir de certos fatos que o corpo renova a maior parte de sua substância num período de 20 a 30 dias.

Impondo-se um regime regular, diversos observadores verificaram uma perda, em média, de um vinte avos do seu peso, em 24 horas.

O alimento ingerido e o oxigênio aspirado contrabalançam essa perda. O sangue, com efeito, não provém apenas das substâncias alimentares, mas, simultaneamente, da alimentação e da respiração. É uma verdade que mais avulta no concernente aos tecidos orgânicos.

Perdendo o corpo diariamente um doze avos e no Estio um quatorze avos do seu peso, todo o corpo estaria renovado dentro de 12 ou 14 dias. Pelos resultados obtidos com o último observador, seriam precisos vinte e dois dias.

Liebig deduziu dessa rapidez de permutas uma outra consideração. Pode-se, sem maior dúvida, atribuir a um homem idoso 24 libras de sangue. O oxigênio por nós absorvido em 4 ou 5 dias basta para transformar pela combustão todo o carbono e hidrogênio dessas 24 libras de sangue em ácido carbônico e água. Mas o sangue corresponde mais ou menos a um quinze avos do peso do corpo: se, pois, 5 dias bastam para substituir o sangue, com a troca dos elementos, pode inferir-se que o corpo inteiro se renova em 25 dias.

Moleschott e Malerf verificaram que corpúsculos de carneiro, profusamente injetados na circulação de rãs, desapareciam completamente ao fim de 17 dias. Ora, como a permuta nas rãs se opera mais lenta que nos animais de sangue quente, somos levados a crer que os glóbulos vermelhos do sangue humano se renovam totalmente em menos de 17 dias.

O autor de A Circulação da Vida declara, portanto, que a concordância dos resultados obtidos, partindo de três pontos de vista diferentes, é uma garantia positiva de veridicidade da hipótese dos 30 dias necessários à renovação completa do organismo. Os sete anos que a crença popular fixava a essa operação, seriam um exagero colossal. “Por surpreendente que possa parecer, à primeira vista, essa rapidez – diz – concorda com a experiência em todos os pontos. Para Stahl, as andorinhas perdem num dia a gordura aprovisionada durante a noite. O desenvolvimento das células opera-se, no sangue, em 7 ou 8 horas, à expensas das matérias fornecidas pelo quilo. De resto, quem ignora bastarem poucos dias para que um homem emagreça a ponto de tornar-se irreconhecível?

“A rapidez da permuta das matérias, demonstrada em todas as experiências, é o que há de mais próprio para diminuir nossa admiração.

“Essas experiências nos ensinam que um adulto, pesando 128 libras, elimina em 24 horas cerca de 3 libras de saliva, duas e meia de bílis, no mínimo, e mais de 28 de suco gástrico; de sorte que um fumante, com o mau veso de escarrar seguidamente, pode, durante o dia, expelir 85 partes do seu peso. No período de 24 horas, corre em nosso corpo perto de um quarto do seu peso, de suco gástrico a circular do sangue para o estômago e vice-versa.

“A celeridade das permutas difere de indivíduo para indivíduo.

“O homem, a mulher, a criança, o velho, manifestam aptidões diferentes: assim, o homem tem a propriedade de permutar maior quantidade que a mulher, e o adulto mais que os velhos e as crianças. O operário e o pensador recompõem o corpo em tempo mais curto que o necessário aos ociosos e inativos.

“Há criaturas de vida acelerada: nelas a esperança, a paixão e o temor, que se transformam rapidamente em confiança e alegria, precipitam a circulação do sangue. Vivem apressadas, porque depressa se executa o seu metabolismo. Enquanto se mantém equilibrado o regime de permutas, o corpo não padece alteração no seu aprovisionamento. É, ordinariamente, esse, o ritmo do adulto, que se altera com os anos, para romper-se na velhice.

Também a digestão vigorosa é privilégio da criança. A absorção de sólidos e líquidos igualmente se regula, mui rapidamente, no trabalho digestivo. A ação do oxigênio e a desassimilação dos tecidos, a ela consequente, nunca se interrompem. Daí resulta, imediata, uma diminuição do suco nutritivo, que se pode verificar não só pelo peso, como por inspeção direta. Na idade avançada, sofrem tal ou qual depressão, retraem-se. A córnea achata-se, a miopia atenua-se e pode mesmo chegar ao efeito contrário – à presbiopia. Os ossos, com a velhice, perdem a elasticidade, de vez que menos ricos d'água, como na mocidade.

“Uma vez rompido o equilíbrio, o desgaste dos tecidos se processa inevitavelmente. O maxilar inferior diminui de volume, o mento se torna considerável, a pele das mãos e do rosto torna-se mais flácida, enruga-se, e aos músculos adelgaçados míngua contratilidade. Não podem os velhos fletir a medula espinal e a fronte lhes pende para adiante.

“Também as cordas vocais, como que se tornam mais secas, perdem em flexibilidade e elastério; a voz é rouca, surda, ou metálica e áspera. Depois dos 50 anos o peso do cérebro também começa a diminuir.

“Tudo deve contribuir, na velhice, para avolumar a desproporção entre a sanguificação e a desassimilação. Com a matéria, a força decresce. Suavemente, aproxima-se o fim; a morte é um esgotamento resultante do empobrecimento material.”

Estas alegações são contestáveis. Ainda não está provado que o corpo humano se renova completamente no período de um mês. Tecidos há que só se renovam assaz lentamente, dado que todos eles se renovem.

Em todas as idades se têm encontrado células embrionárias que, no entanto, se destinam a desaparecer no próprio feto. Os humores da pálpebra, sequentes a pequenas inflamações (terçóis), em regra não são reabsorvidos antes de um ano. As unhas não se renovam em menos de seis meses. No estado de saúde, seu crescimento é de 2 milímetros por mês, de sorte que, se guardássemos a unha do indicador num estojo cilíndrico, durante sessenta anos – tal como fazemos para conservar plantas raras – não teríamos afinal uma garra excedente de um metro e meio. Assim, poderíamos contraditar os 25 dias e solicitar lapso um pouco mais longo para a renovação do organismo. Não é, porém, de mês ou de ano que se trata. O tempo não vem ao caso, como diz a sátira francesa, e, muito pelo contrário, quanto mais rápida e vultosa se faça a renovação da matéria corporal, mais aproveita à nossa teoria.

Os materiólatras deduzem dos fatos aqui exarados a sua famosa assertiva, declarando provada a inexistência da alma, mediante essas transformações químicas. Para nós, ao invés (note-se o contraste), essas mesmas transformações induzem a declarar demonstrada, doravante, a existência da alma. Antes, porém, de argumentar, apraz-nos contrapor um simples reparo a tão categórica afirmativa adversa, que proclama com tamanha segurança e com verdade inconteste a só existência das moléculas materiais e que só elas constituem o ser vivente, do berço ao túmulo.

Por um lado, afirmais que o corpo vivo não passa de um conjunto de moléculas e, por outro, dizeis que todo esse corpo se rejuvenesce mensalmente... Ao nosso ver, são duas proposições difíceis de conciliar. Como explicar o envelhecimento, se esse corpo material, na sua qualidade de moléculas químicas, nunca teve mais que um mês de idade? O turbilhão vital, na frase de Cuvier, o qual se sucede constante sob e sobre a nossa pele, nossa própria carne, sangue, ossos, cabelos, todo o corpo, é qual vestimenta que se renova de si mesma. O corpo do sexagenário, ou do octogenário, não tem mais que um mês, assim como o da criança que apenas começa a andar. São, assim, sempre novos, os corpos e, certo, não podemos deixar de admirar essa engenhosa lei da Natureza. Entretanto, é também indubitável haver no mundo pessoas de todas as idades, na escala dos anos. O Sr. Moleschott conta, ao que presumo, 45 e o Sr. A. Comte deveria orçar pelos seus 79. Vós, Sr. Vogt, nascestes no ano da graça de 1817. Temos assim, cada qual, a nossa idade. Cá por mim, sei que carrego menos de 20 lustros, que o Sr. Schopenhauer registraria muito breve. Ora, se é verdade que nosso corpo se renova mensalmente, ou anualmente – se assim o preferirem – que é que envelhece em nós?

Digamo-los ainda uma vez: não serão essas moléculas constitutivas do corpo, que ainda há pouco não nos pertenciam e integravam-se num frango ou numa perdiz, num grão de trigo ou de sal, numa gota de vinho ou de café, por nós absorvidos, e que, ao demais, são imutáveis e, como coisa morta, não podem envelhecer. Logo, existe em nós alguma coisa além dessas moléculas. Nosso organismo tem envelhecido.

Prossigamos e entremos agora no âmago da questão. Permiti, antes de tudo, assinalar que a todo instante a fraqueza do vosso sistema se traduz pela inconsequência forçada das expressões.

Sois os primeiros a conceituar a velhice como uma falta de equilíbrio entre a recomposição e a eliminação. À vida, plena, normal, chamais equilíbrio funcional. Ensinais que, havendo equilíbrio de sanguificação e eliminação, o corpo não se altera em sua provisão geral de matéria. Esse equilíbrio mantém-se na idade adulta. É possível pesar um homem de 30 a 40 anos, a longos intervalos, sem constatar qualquer alteração de peso que se não explique por ganho ou perda imediatamente precedente.

Pois, muito bem: mas, pergunto eu, quem organiza esse equilíbrio?

Pretendeis, bem sei, que não há força alguma interior a presidir a essa renovação molecular, mas tenho essa vossa pretensão como vanidade insustentável. A hipótese puramente materialista, da vida, a assimilação circulatória das moléculas ao movimento do vapor no alambique ou da eletricidade nos tubos de Geissier, não explica o crescimento nem a vida, nem a decadência, a senectude, a morte.

Para que haja equilíbrio, para que haja organização no agenciamento das moléculas, é preciso que haja direção. De resto, tanto como Cuvier e Geoffroy Saint-Hilaire, não negais essa direção. Mas, como conceber direção sem força motriz? Ousareis negá-lo? Essa força diretriz não é um amálgama de propriedades confusas, antes é soberana, necessária, pois é quem rege o turbilhão vital, assim como a atração rege o turbilhão de esferas planetárias.

Se não houvesse em nós uma força diretora, como explicar a formação e o desenvolvimento do corpo, nos moldes do tipo orgânico, do berço ao túmulo? Porque, depois dos 20 anos, esse corpo que absorve tanto ar e tanto alimento, como dantes, para de crescer?

Quem distribui harmonicamente todas as substâncias assimiladas? Após o crescimento em altura, quem limita a espessura? Quem dá força ao homem maduro, quem repara de contínuo as peças da máquina animada?

Sem admitir uma força orgânica, típica, vital (não nos atenhamos à palavra), como explicar a construção do corpo? O Sr. Scheffer diz que são as forças química e física. “Cada qual – dilo ele – exerce sobre as outras uma influência que dá ao organismo, em todas as suas peças, uma certa uniformidade de ordem mais elevada. As ações especiais das forças individuais se conjugam, a seguir, num efeito total e formam uma resistência coordenadora da multiplicidade das partes num todo unitário, em que se desenha o tipo fundamental de toda a propriedade individual.” Eis o que se pode chamar uma luminosa explicação. Somente resta explicar como se produziriam todas essas maravilhosas combinações, à revelia de uma unidade virtual, organizadora. Quem constrói esse organismo? Como podem as propriedades da matéria operar sobre um plano, em conformidade com uma ideia que, por si, não podem ter? Como sabe o organismo, tão seguramente, escolher os alimentos que lhe convêm? Quem determina a reprodução fiel da espécie? É, portanto, mais fácil admitir todos os acasos, como diz Tissot, do que supor um princípio essencialmente ativo, dotado de potência organizadora e com faculdades de exercê-la no sentido de tal ou tal tipo específico? “No homem, respondem, no seu conteúdo material e nas substituições de substância que nele se operam, a função química tem o seu papel, produz as partículas corporais capacitadas a servirem de suporte, ou substrato, de todo o edifício. Organiza-o a força vital, resultante de todas as combinações e desta organização é que resulta a força espiritual.” Aí temos, patente, mero palavreado que nada explica.

Vários materialistas, e com eles Mulder, riem-se da doutrina da força vital e comparam essa força a “uma batalha travada por milhares de combatentes, como se não estivesse em jogo apenas uma força que dispara os canhões, maneja os sabres, etc. O conjunto dos resultados, acrescenta Mulder, não é mais o resultado de uma única força, de uma força de batalha, mas a soma das forças e combinações inúmeras, em atividade num tal acontecimento.” Concluem, assim, que a força vital não é causa, mas efeito.

À comparação não falta justeza e tem, ao demais, a inapreciável virtude de aproveitar mais a nós do que aos seus próprios imaginadores. De fato, é evidente, o que constitui a força de um exército e ganha a peleja não é tão só o esforço particular de cada combatente, mas, sobretudo, a direção global, a inteligência do generalíssimo, o plano da batalha, a ordem soberana que, do cérebro do organizador, se irradia aos subchefes e vai, através dos batalhões, até aos soldados, molas arregimentadas.

Convencer-se-á alguém que não foi Napoleão quem venceu em Austerlitz? Perguntem a Thiers (que sabe mais do que o próprio Napoleão) se essas batalhas inolvidáveis, tanto quanto as ganhas e empenhadas de surpresa não revelam, acima do valor pessoal de cada combatente, o gênio lugubremente célebre que vingava atirar ao túmulo, num relance de olhos, milhares de criaturas em apogeu de força e atividade.

Se a um exército se impõe, imprescindível, o governo de um chefe e que uma severa disciplina o abranja na unidade de milhares de soldados, com maior soma de razão importa que uma força governe a matéria, reduzindo à unidade harmônica os milhões de moléculas que sucessivamente a conformam.

Só mediante essa força é que existe o corpo, tal como se dá com o regimento, que, não sendo mais que uma entidade abstrata, existe por virtude de lei, antes que pelo valor de cada soldado. Chegam os conscritos novos, dá-se baixa aos velhos e de sete em sete anos está o regimento renovado. Nesse período, há licenças temporárias, engajamentos particulares e uma que outra modificação nas moléculas componentes do exército. Desculpem: cada oficial ou soldado não é mais que um número, sua personalidade não entra em linha de conta. Podem os oficiais ser comparados aos zeros da ordem decimal, ou, por falar com mais elegância – chefes de dezenas ou centenas; mas, singularmente considerada, sua personalidade pouco mais vale que um caçador. Os próprios coronéis mudam, sem que o regimento deixe de existir na sua forma idêntica. Sofrem os generais, igualmente, essas transições, que em nada prejudicam a existência das respectivas brigadas e divisões. A hierarquia militar é uma unidade e é nisso que reside a sua eficiência. Quanto às partes componentes da unidade, não são conhecidas. Indubitável, que um coronel à testa do seu regimento, ou um general na ativa, têm mais importância, do ponto de vista do serviço, do que um simples granadeiro; da mesma forma que um átomo de gordura cerebral tem maior importância do que um folículo de unha.

Mas, o que constitui o tronco, ou o nó, de uma fonte de galhos extensos não é por si mesmo a fonte integral. Logo, a comparação dos adversos aproveita mais à nossa do que à sua tese.

Qual o homem culto, o observador de boa fé, que ousará negar seja o nosso organismo engendrado por uma força especial? Qual a diferença de um cadáver para um corpo vivo? Há duas horas que o coração de tal homem deixou de bater; ei-lo estendido no leito funerário, a vida escapou-se-lhe independente de qualquer lesão, sem que houvesse distúrbio orgânico. Seu estado desafia autópsia minuciosa. Quimicamente falando, não há diferença alguma entre este e o corpo que vivia esta manhã. Em que diferem, repito, o corpo vivo e o cadavérico? Pela vossa teoria, eles não diferem, têm o mesmo peso, tamanho, forma. São os mesmos átomos, as mesmas moléculas, as mesmas propriedades físico-químicas. Chegais mesmo a ensinar que essas propriedades estão inviolavelmente ligadas aos átomos. Aí temos, portanto, o mesmo ser!

Mas, não vedes que uma tal consequência vale por condenação formal do vosso sistema?

Porque a verdade é que um ser vivo difere, evidentemente, de um morto. Isso é coisa tão vulgarmente sabida, que não podeis contestar. Confessai, pois, que uma hipótese que ensina não ser a vida senão um conjunto de propriedades químico-atômicas, cai pela base e pela cúpula, de vez que, nascimento e morte, alfa e ômega de toda a existência, protestam vitoriosamente contra as conclusões dessa hipótese.

Chega a ser quase ultrajante para a inteligência humana a obrigação de sustentar que um corpo vivo difere de um morto e que neste já não existe força anímica. Afirmar que a vida é algo é assim como afirmar que há luz em pleno dia. Devemos, porém, ensejar a que os antagonistas de além-Reno venham pôr os pontos nos is.

Preciso se faz que seja a força constitutiva da vida uma força muito especial, visto que, frente a ela, as moléculas corporais se distribuem harmônicas, numa unidade fecunda, ao passo que em sua ausência essas mesmas moléculas se separam, se desconhecem, se combatem e deixam logo cair em total dissolução esse organismo que se faz pó.

Preciso, também, se faz que essa mesma força exista de uma forma particularíssima, pois que, de um lado, não sendo vivos todos os corpos da Natureza e, de outro lado, sendo os corpos vivos compostos com o mesmo material dos inorgânicos, diferem, contudo, dos primeiros, pelas especiais e admiráveis propriedades da vida.

Preciso, ainda, seja a vida uma força soberana, visto não passar o corpo de um turbilhão de elementos transitórios, em mutação constante de todas as suas partes, persistindo ela, enquanto que a matéria passa.

Concluir-se-á, daí, com Buffon, que haja no mundo duas espécies de moléculas, isto é: orgânicas e inorgânicas?

Que as primeiras sejam células vivas, dotadas de sensibilidade e irritabilidade, a passarem-se de um a outro ser vivo sem se imiscuírem nos corpos inorgânicos, enquanto que as segundas não entram na constituição geral da vida?

Mas a Química orgânica demonstrou, à saciedade, que os elementos da matéria vivificada são os mesmos que os do mundo mineral, ou aéreo, o que vale por dizer elementarmente oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, ferro, cal, etc.

Dir-se-á, então, com o botânico Dutrochet e com o anatomista Bichat, que a vida seja uma exceção temporária às leis gerais da matéria, uma suspensão acidental das leis físico-químicas, que acabam sempre imolando o ser ao governo da matéria? Mas é uma ideia que não vacilamos em proclamar errônea, de vez que a vida é o alvo mais elevado e mais fulgurante da Criação, a perpetuar-se através das espécies, desde os primórdios do mundo.

De resto, digam e pensem como entenderem, a vida não deixará de ser uma força, superior às afinidades elementares da matéria.

O que caracteriza os seres vivos é a força orgânica que aglutina essas moléculas, segundo a conformação específica dos indivíduos e conforme o seu tipo específico. “As verdadeiras molas de nosso organismo – dizia Buffon – não são estes músculos, artérias e veias, mas forças interiores, que não obedecem de modo algum às leis da grosseira mecânica por nós imaginada e às quais tudo desejaríamos subordinar.” Em vez de procurarem conhecer as forças por seus efeitos, trataram de as afastar e até banir da Filosofia. Elas reapareceram, contudo, e mais imponentes que nunca.

Cuvier, mais explícito, o declara, de vez que observara diretamente não passar a matéria de simples “depositária da força, por esta constrangida, de antemão, a marchar no mesmo sentido que ela, bem como que a forma dos corpos lhe é mais essencial que a matéria, visto que esta transmuda, enquanto que aquela se conserva”.

As experiências de Flourens, sobretudo, evidenciaram a mutabilidade da matéria, a contrastar com a permanência da força, que, a bem dizer, é o que tem de essencial o ser. Uma dessas experiências consiste em submeter um animal, durante trinta dias, ao regime da granza, que, sabemo-lo, é uma substância que tinge de vermelho os objetos dela impregnados. No fim de um mês o animal apresenta um esqueleto de cor vermelha. Em se lhe dando, a seguir, o alimento usual, os ossos entram a branquear, começando pelo centro, de vez que a renovação incessante, dos ossos como da carne, opera-se do interior para o exterior. Outra experiência consiste em descarnar um osso e rodeá-lo de um fio de platina. Pouco a pouco, o anel de platina se recobre de camadas sucessivamente formadas e acaba ficando no interior do osso. Eis que assim se renovam os ossos. A carne e os tecidos moles sofrem uma ação mais rápida.

Com Quatrefages verificamos “duas correntes contrárias a circularem nas profundezas do ser: uma extraindo incessante, molécula por molécula, alguma coisa do organismo, e outra reparando, relativamente, todas as brechas que, por mais extensas, acarretariam a morte”. A força orgânica, que constitui o nosso ser, oculta-se sob a vestimenta variável da carne, mas nós sentimo-la palpitante em seu ardente vigor. Ela nos conforma, dirige, governa. Atentai nesses representantes primitivos da escala zoológica, nesses crustáceos protegidos de uma couraça contra as subversões da crosta terrena; detende-vos nesses anelídeos, nesses vermes que, seccionados, continuam a viver. Arrancai à lagosta uma pata e esta lhe renascerá com todos os seus caracteres. Cortai-a de uma salamandra e vê-la-eis integralmente reconstituída. Esmagai a cauda de um lagarto, ela lhe renascerá. Seccionai a minhoca em muitos pedaços e cada qual recuperará o que lhe falte. A flor de coral, destacada de sua matriz, vai, através das ondas, constituir nova árvore. Será a matéria, só por si, que opera tais coisas? Será que coisas tais não revelam a ação constante da força típica que modela os seres segundo a espécie, e que, sem dúvida, lhe é mais essencial do que as moléculas orgânicas com as suas propriedades químicas?

E, que haveremos de concluir da metamorfose dos insetos, essas formas transitórias, nas quais só a força persiste, através das fases de letargia e ressurreição? A falena que adeja, no ar luminoso, não será o mesmo ser há pouco existente na larva ou na lagarta?

Diante de fatos que tais é claro, incontroverso, que uma força, seja qual for (o nome pouco importa), organiza a matéria, segundo a forma típica das espécies, animais vegetais.

Ora, nossos contraditores não vacilam em afirmar que nada existe, absolutamente, e que tudo se pode explicar com as propriedades químicas das moléculas. Pretende, Moleschott, que “o conjunto das circunstâncias, esse estado mediante o qual a afinidade material engendra as mesmas formas persistentes, recebeu de Henle, a exemplo de Scheiling, o nome de força típica. Esta força típica é um pequeno passo precedente à força vital, visto comportar tantos estados de matéria quantos sejam os órgãos e as espécies. Mas, a força padronizadora de plantas e animais é uma ideia tão oca, tão pueril quanto à da força vital a que se radica.”

O Sr. Wirchow chama-lhe pura superstição, incapaz de negar parentesco com a crença demoníaca e com a pesquisa da pedra filosofal.

Quanto ao autor do Estudo de Filosofia Positiva, esse fecha os olhos e clama: – “de real só há corpos”.

Bois-Reymond, a seu turno, declara, em uma obra sobre a eletricidade animal, que a pretensa força vital não passa de quimera.

Se os nossos antagonistas se obstinam em sustentar que os organismos estão submetidos a forças intrínsecas, não têm mais do que afirmar o seguinte: – “a molécula material, entrando no turbilhão da vida, recebe por algum tempo o dom de novas forças e torna a perdê-las quando o turbilhão da vida, agastado, a rejeite definitivamente nas plagas da Natureza inanimada”.

É um raciocínio falso, o desses senhores, de vez que basta à molécula a só entrada no turbilhão da vida para que se comporte de conformidade com o tipo individual que momentaneamente a retém. Para conservar o cepticismo, são obrigados, qual já o vimos, a fazer vista grossa à diferença que distingue o corpo vivo do cadavérico. Não se pode haver mais por duvidosa, na opinião de Du Bois-Reymond, a questão de saber “se a diferença – única cuja possibilidade admitimos – entre os fenômenos da Natureza viva e morta, existe realmente. Uma diferença dessa espécie não existe. Nos organismos, forças novas não se agregam às moléculas materiais, nem força alguma que não esteja em atividade fora dos organismos. Portanto, não há forças que se possam chamar vitais. A separação entre supostas naturezas, orgânica e inorgânica, é absolutamente arbitrária. Os que teimam em mantê-la, os que pregam a heresia da força vital, seja com que rótulo for, fiquem certos de haver jamais atingido as lindes do próprio raciocínio”.

Note-se, de passagem, esta firmeza e mais este leve tom de arrogância com que se referem aos que divergem das suas teorias. Veja-se como emitem as mais contestáveis proposições.

“As propriedades do azoto, do carbono, do hidrogênio, do oxigênio, do enxofre, do fósforo – afirmam – existem de toda a eternidade. Provem-nos o contrário... Calam-se? É que não têm razão? E com isso, está ganha a partida. As propriedades da matéria não podem mudar, quando entra na composição de vegetais e animais. Logo, é evidente que a hipótese de uma força peculiar à vida é absolutamente quimérica!” Objetam, enfim, que essa força não existe, porque “força sem substrato material é ideia abstrata, desprovida de senso”.

Por nós, não vemos a necessidade de admitir que não exista uma força típica, ou que essa força seja extrínseca à matéria. Os nossos negativistas incidem, aqui, no mesmo erro de quando se trata da existência de Deus, que declaram só possível de conceber fora do mundo. É sempre o mesmo princípio que está em jogo. Ao demais, nos seria fácil demonstrar que todos os conhecimentos humanos se reduzem, última ratio, à noção da força e da extensão; poderíamos invocar o testemunho da Matemática, da Física, da Química, da História Natural em seus três reinos: Mineralogia, Botânica, Zoologia; a ciência do homem: Psicologia, Estética, Moral, Teologia natural, Filosofia; ciências que, todas, iriam esbarrar no mesmo nó substancial, isto é, a força e a extensão. Não cabe, entretanto, fazer aqui um dicionário. Baste-nos considerar do ponto de vista da vida esta dupla questão e notar, igualmente, o predomínio da força sobre a extensão.

Bichat definia a vida como conjunto de funções que resistem à morte. Sem tomarmos puerilmente, ao pé da letra, essa definição, perguntamos: qual a primeira imagem que nos oferece o exame da estrutura de um vegetal ou de um animal? Certo, é a coordenação das funções orgânicas que constituem o ser vivente. E que será essa coordenação, senão um sistema de forças destinadas a movimentar a máquina animada?

Deste ponto de vista, o que a tudo sobreleva é a ideia dinâmica. Banida ela, o que nos fica é nada mais que um cadáver.

Se, da descrição do órgão apropriado ao seu funcionamento e desse conceito de forças particulares remontarmos ao conjunto do seu e à sua conservação, desde o começo ao fim da vida, concluiremos com Cuvier que “a vida é um turbilhão contínuo, cuja diretiva, por mais complexa que seja, permanece constante, tal como a espécie de moléculas que consigo arrasta, mas não as moléculas individuais em si mesmas”. Aqui, ainda há reconhecer a presença da força, que, através da incessante mutação dos corpos, lhes assegura e conserva a identidade da forma. Ela – essa força – é pois a característica principal de todo organismo. E frisamos estas palavras de Cuvier: “as moléculas individuais circulam perpetuamente, mas a espécie permanece sempre idêntica”. Essa permanência devemo-la à força.

Que sucederia, por exemplo, se apenas a forma se salvaguardasse e nenhuma direção virtual presidisse à eleição das moléculas químicas? Teríamos, a breve trecho, o mais heterogêneo dos corpos imagináveis, ainda que guardando a perfeição da sua formação.

Imaginai, por exemplo, que o elemento essencial de uma face clara de neve, que o coralino de uns lábios, a gracilidade de uma boca, o matiz expressivo de uns olhos puleros, fossem, ocasionalmente, refeitos por moléculas de outra espécie, como, por exemplo, do iodo, que se torna negro ao contacto da luz, do ácido butírico, fundente ao Sol, ou de um sal qualquer, solúvel pela umidade, etc... Que belos espécimes daria assim a Humanidade! E contudo, eis aí ao que se chega, em negando a existência de uma força vital.

Passando do indivíduo à espécie, ainda aí notamos o predomínio necessário da força. Se cada indivíduo se mantém vivo, é graças à sua dinâmica íntima. Se as espécies vegetais ou animais permanecem, é graças à força inicial que, só ela, pode caracterizar a identidade da espécie, transmissível à descendência e existente em estado latente, ou sensível, no óvulo vegetal como no óvulo animal.

Como pôde este carvalho enorme sair da ínfima bolota caída ao solo? Como se fez carvalho, ao lado da fava que expeliu a faia; da batata, que engendrou o pinheiro; da amêndoa, que se fez tumba do pilriteiro desdobrando-se em bagas escarlates; ou ainda, ao lado do grão de trigo e de aveia, na mesma terra, com o mesmo sol e a mesma chuva; em suma: nas mesmíssimas condições?

Porque será que os elefantes de hoje são exatamente idênticos aos de que Pyrrhus se utilizava, há 20 séculos, e o corvo de Noé (se é que Noé existiu) se vestia do mesmo luto destes que aí sulcam os nossos céus de Setembro? Certo, porque o germe orgânico não reside somente na estrutura anatômica, mas, também e sobretudo, em uma força especial que se encarrega, sem enganos possíveis, da organização do ser, de modo a não dar a um cavalo uma cabeça de carneiro, nem a um coelho uns pés de pato!

Afirmando tão apaixonadamente a inexistência de uma força especial nos seres vivos e que a vida mais não é que o resultado da presença simultânea das moléculas constitutivas do animal ou vegetal, justo seria procurassem, os arautos de tão audaciosas afirmativas, comprová-las experimental e ainda que modestamente. Improvisai um único, e o mais ínfimo ser vivo, e...nós nos renderemos. Vejamos: aqui está uma garrafa com carbonato de amoníaco, cloreto de potassa, fosfato de soda, cal, magnésia, ferro, ácido sulfúrico e sílica.

Sois vós mesmos a confessá-lo que nesse frasco está contido o princípio vital, completo, de plantas e animais. Fazei, portanto, uma plantinha, um só bichinho... Como assim? Calai-vos? Nada obstante, sois patrícios de Goethe! Não vos lembrais do lúgubre laboratório de Wagner, atochado de aparelhos esquisitos, disformes; de fornos e cubos destinados a fantásticas experiências? Ele, Wagner, já tem nas mãos a garrafa.

Apelai para a vossa memória e ouvi a cena maravilhosa do eterno Mefistófeles a dialogar com o alquimista.

Wagner, atento ao forno: “O sino tangeu, percussão formidável! Abalou as paredes negras, ferrugentas. Oh! a incerteza desta expectativa tão solene não pode prolongar-se muito. As trevas como que se desfazem, estou a ver no fundo da lente algo que reduz como carbono vivo, ou, melhor, como esplêndido diamante, a clarear de mil facetas a escuridão ambiente. Agora, uma luz pura, branquíssima. Bem, desta vez espero que não escapara...ah! maldição, quem bate assim à porta, justamente...

Mefistófeles: (entrando) – Que há?

Wagner: (baixinho) – Está-se fabricando um homem...

Mefistófeles: – Um homem? Mas, que amoroso casal meteste aí nessa chaminé?

Wagner: – Ora, valha-me Deus! Essa velha fórmula de procriar já foi, há muito, reconhecida um simples gracejo. O foco sutil de onde brotava a vida, a força suave que de si exalava, e tomava e dava, destinada a formar-se por si mesma, alimentando-se a princípio das substâncias circunvizinhas e, a seguir, de substâncias estranhas, tudo isso caducou e perdeu o seu prestígio. Se o animal ainda lhe encontra prazer, ao homem convém, por dotado de mais nobres qualidades, uma origem mais pura e mais alta. (Voltando-se para a fornalha) Quanto brilho! veja... Dora em diante, é lícito esperar que, se de cem matérias, e por mistura – pois tudo depende da mistura – conseguimos com facilidade compor a massa humana, aprisioná-la num alambique, coobá-la a preceito, a obra se completará em silêncio. (Voltando-se de novo para a fornalha) É o que está sucedendo: a mesma clareia-se e mais convicto me deixa, a cada instante. Tentamos, judiciosamente, experimentar o que se chamava – mistérios da Natureza – e o que ela produzia outrora, organizando, fazemo-lo hoje cristalizando.

Mefistófeles: – A experiência vem com a idade e a quem quer que tenha vivido bastante, nada ocorre de novo, na Terra. Por mim, confesso que nas minhas viagens encontrei, bastas vezes,muita gente cristalizada...

Wagner: (que não tirara o olho da sua lente) – A coisa está crescendo, brilhando, fervendo... Um instante mais e a obra estará consumada. Não há ideal grandioso que à primeira vista não pareça insensato; contudo, doravante, queremos sobrancear o acaso e dessarte, futuramente, um pensador não deixará de fabricar um cérebro pensante...

(Contemplando a redoma embevecido) O cristal retine, vibra; comove-o uma força encantadora, ele como que se perturba e se aclara, o sucesso não tarda. Já estou a ver a forma elegante de um homenzinho gesticulando... Que mais desejar? Que pode o mundo querer de melhor? Eis o mistério a desnudar-se! Atenção! Esse timbre se articula, vozeia, fala!

Homúnculo: (de dentro da redoma, para Wagner)

– Bom dia, papai! então sempre era verdade, hein? Toma-me, aconchega-me ao teu seio com ternura, mas, olha, não me apertes muito, senão... quebras o vidro. Isso é a propriedade das coisas: ao que é natural, só o Universo pode bastar; mas o artificial, ao contrário, reclama o limitado. (Voltando-se para Mefistófeles) Tu aqui? Velhaco... Mas, ainda bem que o momento é azado e graças dou porque boa estrela te trouxe a nós. Já que estou no mundo, quero agir e meter desde logo mãos à obra. Hábil és tu para me desbravar o caminho.

Wagner: – Uma palavra ainda... Até aqui, muitas vezes me vi indeciso, quando moços e velhos me vêm cumular de problemas. Ninguém, por exemplo, ainda compreendeu como a alma e o corpo, tão intimamente conjugados e ajustados entre si, a ponto de os julgarmos para sempre inseparáveis, vivem em luta sem tréguas e chegam a envenenar a própria existência... e depois...

Mefistófeles: – Alto lá! Eu antes quisera saber a razão por que o homem e a mulher não se entendem. Esta é uma questão que te há de custar a resolver. Isso é o que vale tentar e o petiz deseja fazê-lo...“

Voltai, porém, a página do libreto. Vamos ao 1º ato, é Fausto, é a velha e nova Ciência quem fala:

Como tudo se movimenta para o trabalho universal! Como operam e cooperam as atividades todas, umas pelas outras! Como sobem e descem as forças, a permutar de mão em mão seus vasos de ouro, a tocá-los com as suas asas que exalam, nesse vaivém, do céu à Terra, uma como bênção de universal harmonia!

“Estupendo espetáculo! Mas... ó tortura! nada mais que espetáculo! Onde apreender-te, ó Natureza! Ó fontes de toda a vida! que abranjeis e nutris céus e terras, onde estais? Para vós se voltam os seios desnutridos, correis aos borbotões, inundais o mundo, enquanto em vão me consumo.”

Sim. Em vão vos consumis, tentando reivindicar para o homem a obra do Criador. É em vão que escreveis: A onipotência criadora é a afinidade da vida... Com todo o vasto conhecimento da matéria e das suas propriedades, não conseguistes engendrar sequer um cogumelo.

Creio, porém, que de o fazer decimais e vos desculpais. O que não podemos, pode a Natureza, visto que ela ainda é mais hábil que nós. (Bela modéstia, na verdade.) Mas, então, que fazeis da inteligência, uma vez que, por outro lado, presumis não haver espírito na Natureza? Mas vamos adiante. Demais – acrescentais argutamente –, se ainda não produzimos seres vivos por processos químicos, temos, todavia, produzido matérias como, por exemplo, o ácido característico da urina, e o óleo essencial da mostarda (éter alilsulfociânico), o que muito nos lisonjeia. Detenhamo-nos, pois, um instante, nas decisivas manipulações destes ilustres químicos.

A partir dos fins do último século, como adverte Alfredo Maury, tem-se reconhecido que as matérias que se desenvolvem nos vegetais e nos animais, recolhidas dos seus restos, encerram quase exclusivamente carbono, oxigênio, hidrogênio e azoto. Daí se concluiu serem estes quatro corpos os princípios básicos elementares de todas as substâncias orgânicas e que se encontram muitas vezes combinados com alguns outros corpos simples e diversos sais minerais.

Este primeiro resultado nos ensinou que, se vegetação e vida são forças à parte, insusceptíveis de se confundirem com o simples movimento, com a afinidade e a coesão, elas de si nada criam e apenas apropriam o material do reino mineral que as rodeia. De fato, os quatro elementos orgânicos existem inteiramente formados na atmosfera. O ar é um composto de oxigênio e azoto, associados à pequena porção de ácido carbônico, ou seja de carbono combinado com o oxigênio. A atmosfera tem, ao demais, em suspensão, o vapor d'água e ninguém ignora que a água é um composto de oxigênio e hidrogênio. Portanto, as matérias orgânicas tiram dessa massa fluídica e inorgânica que as envolve e compenetra o nosso globo os elementos de sua composição. Quanto às outras substâncias encontradas, por assim dizer, acidentalmente, em sua trama, são apropriadas do solo. As plantas os sugam e os animais, nutrindo-se das plantas, os assimilam.

A Química pode criar imediatamente esses elementos orgânicos e foi o Sr. Büchner o primeiro a proclamá-lo, com entusiasmo. Os químicos fizeram o açúcar de uva bem como vários ácidos orgânicos. Criaram, dizem, diferentes bases orgânicas e entre elas a ureia, substância orgânica por excelência, em desmentido aos médicos que os arguiam de incapazes de obter produtos do organismo. Dia a dia vemos aumentarem as experiências químicas no sentido de criar combinações. O Sr. Berthelot conseguiu engendrar, de corpos inorgânicos, os derivados das combinações de carbono e hidrogênio e esta descoberta, mau grado ao seu desacordo com a natureza orgânica, forneceu um ponto de partida para a composição artificial dos corpos orgânicos.

Hoje se fabrica o álcool e perfumes preciosos do carvão vegetal; da ardósia extraem-se velas; o ácido prússico, a ureia, a taurina e quantidade de corpos outros, havidos outrora por só criados de substâncias vegetais ou animais, tornam-se obteníveis de simples elementos da Natureza inorgânica. Assim, apagou-se, graças a essas manipulações, a clássica distinção entre a Natureza orgânica e inorgânica.

Em 1828, produzindo ureia artificial, Woehler derrubou a velha teoria que sustentava só possíveis as combinações orgânicas engendradas por corpos orgânicos. Em 1856, Berthelot criou o ácido fórmico com substâncias inorgânicas, isto é, óxido carbônico e água, aquecendo estas matérias com a potassa cáustica e sem cooperação de planta ou animal qualquer. Logo após, conseguiram diretamente desses elementos a síntese do álcool. Chegaram mesmo a produzir a gordura artificial do ácido oleico e da glicerina, duas substâncias que se podem obter por processos exclusivamente químicos, e aí temos um dos resultados mais extraordinários até hoje conseguidos na Química sintética.

Desses dados, o autor de Força e Matéria concluiu que importa banir da vida e da Ciência a ideia de uma força orgânica, produtora dos fenômenos da vida, por maneira arbitrária e independente das leis da Natureza. Tal como ele, também repelimos o arbitrário, mas guardamos a força. Ele nos garante que a pretendida distinção rigorosa entre o orgânico e o inorgânico é meramente arbitrária. Mas, nisso, tem contra si os representantes da vida terrena, em sua totalidade.

Sem embargo, Carl Vogt acrescenta que, “alegar a força vital, não passa de circunlóquio para mascarar ignorância, espécie de alçapões de que a Ciência está cheia e pelos quais se salvam sempre os espíritos superficiais, que recuam ante o exame de uma dificuldade, para somente se contentarem com milagres imaginários”.

Neste caso, a doutrina da força vital representaria hoje uma causa perdida. “Nem os esforços dos naturalistas místicos, no intuito de reanimar essa sombra; nem os lamentos dos metafísicos esconjurando as pretensões e a irrupção iminente do materialismo fisiológico e contestando-lhe o contingente filosófico; nem as vozes isoladas que assinalam fatos da Fisiologia ainda obscuros; nada disso pode salvar a força vital de próxima e completa ruína.

Há alguns anos, Bunsen e Playfer mostraram – diz o autor de A Circulação da Vida, e Rieken confirmou logo após – que é possível obter cianogênio (combinação de azoto e hidrogênio) à custa de substância inorgânica. Por outro lado, sabemos que o hidrogênio, no momento em que se separa das suas combinações, pode unir-se ao azoto para formar o amoníaco. De resto, pode-se ir do cianogênio ao amoníaco. Basta expor ao ar o cianogênio dissolvido em água, para que se vejam flocos pardacentos desagregando-se do líquido, sinais de decomposição, em seguida à qual encontramos o ácido carbônico, o prússico, amoníaco, oxalato de amoníaco e ureia, dissolvidos no líquido. O ácido oxálico é uma combinação de carbono e oxigênio que, pela mesma quantidade de carbono, não contém senão três quartos do peso de oxigênio e ácido carbônico. O ácido oxálico é o causador do paladar acidulado de azeda, da oxálida e de muitas plantas outras. É um ácido orgânico que, conforme acabamos de dizer, podemos preparar mediante corpos simples, sem o concurso de qualquer organismo.

“Assim, ficamos agora conhecendo três substâncias – exclama Moleschott –: uma base orgânica – o amoníaco; um principio acidulante orgânico – o cianogênio, e um ácido orgânico – o oxálico, que podemos fabricar com corpos simples. “Não há muitos anos, acreditava-se possível preparar um e outro mediante decomposição de combinações orgânicas as mais complexas, mas ninguém imaginaria obtê-las de elementos simples. No amoníaco temos uma combinação de azoto e hidrogênio, sem partilha de corpos orgânicos. Este enigma, que a esfinge da força vital nos antepunha como espantalho, para impedir o nosso avanço na preparação artificial das combinações orgânicas, foi resolvido por Berthelot. Ele derrubou a esfinge e seus adoradores, substituindo-os por uma plêiade de investigadores, a cujas mãos passou os fios que lhes deverão servir para levar avante a trama das descobertas, a fim de reproduzirem todas as peças do mundo orgânico.”

Acrescentamos que se obtém hoje o ácido acético, fazendo passar por três estados um combinado de cloro e carbono, que são: percloreto de carbono, ácido cloracético e cloreto de carbono, bem como que a combinação direta de carbono e hidrogênio dá a síntese do acetileno.

Mais fácil ainda é preparar o ácido fórmico com o só auxílio de corpos simples, qual o conseguiu o professor do Colégio de França, operando com a potassa úmida sobre o gás óxido-carbônico, num globo de vidro à prova de fogo e por espaço de setenta e duas horas, à temperatura de 100 graus.

De resto, a Natureza extrai as substâncias orgânicas da mesma fonte a que recorrem os químicos em seus experimentos de laboratórios.

Certamente, palmeamos a duas mãos (mesmo porque com uma só fora impossível) essas admiráveis tentativas da Ciência e não é a nós que poderiam reprochar embargos ao gênio criador do homem. Ele, o homem, está na Terra para conhecer a Natureza e senhorear a matéria. O conhece-te a ti mesmo dos antigos se traduz em nossos dias pelo estudo do mundo exterior e é por esse estudo fecundo que verdadeiramente aprenderemos a conhecer-nos a nós mesmos.

Acreditamos, com o Sr. Maury, que o alcance de tantas descobertas compensa de sobejo o esforço para as compreender. Que ciência nos poderá mais cativar do que a que nos revela a matéria de que nos constituímos e nos alimentamos; as substâncias com as quais estamos em contacto, os efeitos físicos que se operam dentro e fora de nós, onde transitam e como rejeitamos as partículas incessantemente assimiladas?

Não são assuntos de somenos, estes, particularistas e momentâneos: antes são problemas que abrangem a humanidade física em sua totalidade, é o mundo dos seres a que pertencemos que está em jogo.

Despendendo amiúde muito trabalho e inteligência para penetrar no dédalo de mesquinhas controvérsias e fatos insignificantes, como descurarmos o que mais interessa, ou seja, esta maravilhosa Natureza no seio da qual nascemos, vivemos e morremos; que nos precede e nos sobrevive, fornecendo a todas as gerações os princípios essenciais de sua própria existência?

Mas, nem por isso nos associamos às pretensas consequências que os senhores materialistas deduzem, consequências que os senhores Berthelot, Pasteur, e os químicos práticos são os primeiros a repudiar. Os materialistas presumem ter a chave mais difícil do enigma, uma vez que podem produzir gás artificial com os corpos simples. Misturando-se cianato de potassa e sulfato de amoníaco, a potassa combina-se com o ácido sulfúrico e o ácido ciânico com o amoníaco. Esta última combinação não é cianeto de amoníaco e sim ureia. Admirai agora a ilação: “É graças a esta brilhante descoberta que Liebig e Woehler abriram dilatadas perspectivas nessa via e conquistaram um eterno galardão, dando, um tanto involuntária e despreconcebidamente, a prova de que, doravante, a flama da vida se resolve em forças físicas e químicas.” Que honra para Liebig e Woehler o serem assim arrastados para as nascentes do Aqueronte. Nossos adversários gostam desse rio e das suas margens sombrias. “Certo – acrescentam –, o químico isento de preconceitos, que não fala a serviço do trono e do altar, contando tranquilamente com a vitória certa, pode sorrir do pobre filósofo, cujo saber não ultrapassa o conhecimento da ureia e que acredita impor limites ao poder do fisiologista.” Que altar e que trono nomeariam ministros uns tais lógicos? A própria Ciência vive retraída em seu santuário e os deixa rondar o tempo, a repicar o sino e fazer evoluções.

Que conclusão definitiva tira a escola materialista dessas manipulações? A de que a Química e a Física nos oferecem provas evidentes de que as forças conhecidas, das substâncias inorgânicas, exercem a sua ação, tanto em a Natureza viva como na morta.

Pela mesma razão que os obrigou a divinizar a matéria, em substituição a Deus, vemo-los animar, sem cerimônias, a matéria para destronar a vida.

“As ciências – diz o autor de Força e Matéria – perseguiram e demonstraram a ação dessas forças no organismo de plantas e animais e, às vezes, até nas combinações mais sutis. No presente, está geralmente constatado que a Fisiologia, ou seja a ciência da vida, já não pode prescindir da Química e da Física e que nenhum processo fisiológico se opera à revelia das forças químicas e físicas.”

“A Química – diz a seu turno Miahle – tem, incontestavelmente, parte na criação, no crescimento, na existência de todos os seres vivos, seja como causa ou como efeito. As funções da respiração, da digestão, da assimilação e da secreção não se realizam senão por meio da Química. Só ela nos pode desvendar os segredos das importantíssimas funções orgânicas.”

O hidrogênio, o oxigênio, o carbono, o azoto, declaram-no enfaticamente os materialistas, entram nas mais diversas condições de combinações nos corpos e agregam-se, separam-se, atuam obedientes às mesmas leis que os regem fora desses corpos. Os próprios corpos compostos podem apresentar os mesmos caracteres. A água, a mais volumosa substância de todos os seres orgânicos, sem a qual não há vida animal nem vegetal, penetra, amolece, dissolve, adere, cai, segundo as leis do peso, e evapora-se, precipita-se, forma-se dentro como fora dos organismos. As substâncias inorgânicas, os sais calcários que a água contém em estado de composição, ela os deposita nos ossos dos animais ou no vaso das plantas, onde essas substâncias afetam a mesma solidez que no domínio inorgânico. O oxigênio da atmosfera, que, nos pulmões, entra em contacto com o sangue venoso, de cor negra, comunica-lhe a cor vermelha, que o sangue adquire quando agitado num vaso em contacto com o ar. O carbono existente no sangue sofre, com esse contacto, os mesmos efeitos da combustão operada em toda parte, transformando-se em ácido carbônico. Pode-se razoavelmente comparar o estômago a uma retorta na qual as substâncias, postas em contacto, se decompõem, se combinam, etc., segundo as leis gerais de afinidade química. Um tóxico, entrado no estômago, pode ser neutralizado pelos mesmos processos exteriormente utilizados. A substância morbífica porventura lá fixada neutraliza-se, destrói-se, mediante remédios químicos, como se este processo se operasse num frasco qualquer, que não no interior de um organismo. A digestão é ato de pura química. Longe poderíamos prosseguir no assunto. A observação – diz Miahle – nos ensina que todas as funções orgânicas se operam mediante processos químicos e que um ser vivo pode comparar-se a um laboratório de química, em que se processam os atos da vida em seu conjunto. Menos evidentes não são os processos mecânicos determinados pelos organismos vivos. A circulação do sangue se realiza pelo mais perfeito mecanismo imaginável. O aparelho produtor assemelha-se, perfeitamente, aos aparelhados por mãos humanas. O coração tem válvulas e êmbolos, tal como as máquinas a vapor, cujo funcionamento produz ruídos distintos. Entrando nos pulmões, o ar fricciona as paredes dos brônquios e engendra o sopro respiratório. Inspiração e expiração são resultantes de forças puramente físicas. O fluxo ascensional do sangue, das extremidades inferiores do corpo para o coração, contrário às leis de gravidade, não pode verificar-se senão por um aparelho puramente mecânico. É também por um processo mecânico que o tubo intestinal, graças a um movimento peristáltico, expele os excrementos de alto a baixo e, ainda, por processo mecânico se verificam os movimentos musculares de homens e animais.

A estrutura do olho radica nas mesmas leis da câmara-escura, e as ondulações do som transmitem-se aos ouvidos como a qualquer outra cavidade. “A Fisiologia tem, pois, absoluta razão – concluem Büchner e Schaller – propondo-se provar, hoje, que não mais existe essencial diferença entre o mundo orgânico e o inorgânico.”

Não há diferença entre o orgânico e o inorgânico! Mas, convenhamos em que não pode haver no mundo uma proposição mais falsa.

As reações operadas nos corpos vivos longe estão de se identificar às que se operam com os mesmos líquidos numa retorta.

As forças organizadoras, como as denomina Bichat, esquivam-se ao cálculo, atuam de feição irregular e variável. Ao invés, as forças físico-químicas obedecem a leis regulares e constantes.

O autor de um aparte recente, intitulado – A Ciência dos Ateus, evidencia muito bem esta verdade com os seguintes exemplos: “Injetai nas veias do animal os elementos constitutivos do sangue, exceto o que lhe produz a síntese, que não se encontra à vossa disposição, e em vez de prolongar a vida do animal tê-lo-eis simplesmente matado. Também o sangue que fique algum tempo fora da veia, se for novamente injetado pelo orifício que o extravasou, pode ocasionar os mais sérios distúrbios. Introduzi no estômago do cadáver substâncias alimentares e vereis que ao contacto dos tecidos elas se putrefarão, elas que, no animal vivo, se transformariam em sangue para lhe manter a vida. Pergunta-se, então, aos químicos, como atuam no organismo o ópio, a quinina, a noz-vômica, o enxofre, o iodeto de potássio, etc. Qual a ação química da nicotina, do ácido prússico, de todos os venenos vegetais que não deixam vestígios? Como age o curare no tétano?

“Porque a ipeca no estômago faz se contraiam desde logo os músculos inspiradores, etc.? “Ação de presença”, dizem os físicos e repetem os químicos, acreditando, os sisudos doutores, ter cabalmente respondido!”

Atentatória da verdade é a pretensão de explicar pela Química e pela Física os fenômenos fisiológicos, afirmando a identidade das reações intra e extra-orgânicas. A Química e a Física se conjugam, porque as mesmas leis presidem à sua fenomenologia; mas um imenso intervalo as separa da ciência biológica, porque existe enorme diferença entre as suas leis e as leis da vida.

Dizer que a Fisiologia é a física animal é dar uma definição tão inexata como se disséssemos que a Astronomia é a física dos astros. A esse conceito de Bichat o Dr. Cerise adita: “os fenômenos vitais são complexos e as forças físicas neles cooperando, incontestavelmente, mas em proporções difíceis de medir, os submetem ao império de uma força superior, que os rege em função de suas finalidades”.

Da mesma opinião os anatomistas Piorry, Malgalgue, Poggiale, Boullaud: “Acima de todas as ciências – diz este – como acima de todas as leis, a vida domina, modifica, neutraliza, diminui ou aumenta a intensidade das forças físico-químicas”.

Nosso Dumas, químico eminente, diz algures: “Longe de amesquinhar a importância dos fatos, aos quais obedece a matéria morta, a noção da vida se altana e ressalta do conhecimento íntimo dessas leis; e a convicção da sua essência misteriosa e divina se engrandece mercê de sérios estudos da Química orgânica.”

As operações químicas, suscetíveis de realizar em nosso organismo, não se devem confundir com as inerentes à fisiologia do nosso ser, eis o que é preciso assentar desde logo. Sob o primeiro ponto de vista, a identidade das forças que concorrem para formar substâncias orgânicas e inorgânicas é um fato inconcusso, averiguado. Conformando-se às leis naturais, o químico compõe uma série de combinações também encontradas em corpos orgânicos e, mais fecundo que a própria Natureza, pode, a seu alvedrio, operar outras combinações inexistentes nos organismos terrestres, assim transportando, talvez, a sua ciência ao domínio de outros mundos.

Sabe ele que a fermentação é um processo geral de intervenção que determina, não apenas os fenômenos da morte e da decomposição, mas também os do nascimento e de todas as funções vitais, a partir do grão de trigo que germina e do vinho que ferve, até à levedura do pão e da cerveja, e aos fenômenos de nutrição e digestão. A Química orgânica tem as mesmas bases da Química mineral. Ninguém melhor que o Sr. Berthelot expõe essas conquistas da ciência dos corpos, assim como ninguém lhes traça os limites ante o problema do nosso ser. Ouçamo-lo portanto:

“Tudo havia concorrido para que a maioria dos espíritos encarasse como intransponível a barreira entre as duas químicas. Para explicar a nossa impotência, inferiam uma razão especiosa da intervenção da força vital, apta, até então, a só compor substâncias orgânicas. Era, diziam, uma força misteriosa, a determinar exclusivamente os fenômenos químicos observados nos seres, agindo em virtude de leis essencialmente distintas das que regulam os movimentos da matéria puramente móbil e quiescente. Tal a explicação com que se pretendia justificar a imperfeição da Química orgânica, declarando-a, por assim dizer, irremediável. Assim proclamando nossa absoluta impotência para produzir matérias orgânicas, duas coisas se confundiam: a formação de substâncias químicas, cujo agregado constitui os seres organizados, e a formação dos próprios órgãos. Este último problema não pertence aos domínios da Química. Jamais o químico pretenderá fabricar no seu laboratório uma folha, um fruto, um músculo, um órgão. Questões são estas que afetam a Fisiologia e a esta é que compete discutir-lhes as premissas, desvendar as leis que regem os seres vivos na íntegra, pois que à revelia dessa integridade nenhum órgão teria razão de existir e nem o meio necessário à sua formação.

“Entretanto, o que à Química não é dado fazer no plano orgânico, pode empreender no fabrico de substâncias contidas nos seres vivos.

“Se a própria estrutura de vegetais e animais lhe escapa às aplicações, não lhe anula a pretensão de conseguir os princípios imediatos, isto é, os materiais químicos que constituem os órgãos, independentemente da estrutura especial das fibras e células que esses materiais afetam, nos animais e nos vegetais. Esta mesma formação e a explicação das metamorfoses ponderáveis, que a matéria experimenta nos seres vivos, constituem campo assaz vasto e belo para que a síntese química o reivindique inteiramente.”

Esta declaração, na qual os adversários pretendem ver a vitória definitiva do materialismo, sugere-nos acreditar em dois pontos fundamentais:

1º - que a formação das substâncias orgânicas pode ser devida às mesmas leis que regulam o mundo inorgânico e

2º - que a própria formação dos órgãos deriva de uma força estranha aos domínios da Química.

Quanto ao primeiro ponto, triunfa o espiritualismo, qual o vimos, de vez que as forças que regem o mundo inanimado revelam a existência de um arquiteto inteligente. E quanto ao segundo, o triunfo é ainda mais brilhante, de vez que a Química orgânica capitula diante do ser vital. Tal como judiciosamente adverte o Sr. Langel, essa química estuda e compõe, somente, os materiais da vida, sem se preocupar com o ser vivo em si mesmo. Esboça, por assim dizer, as tintas do quadro, tornando-se preciso outra mão que aplique essas tintas, e crie a obra em que elas se fundem em perfeita unidade.

Quando a Química deixou adivinhar no ser humano um alambique no qual o ácido procura a base, as moléculas se agrupam de acordo com as leis de que falamos na primeira parte; quando fizeram ver que o animal vivo não passa de um vaso de reações e que as forças químicas e físicas nele se entregam a perpétuo combate em campo fechado; quando mostraram que os fenômenos da fecundação, da nutrição e da própria morte mais não são que fermentações ordinárias, já se não sabe mais onde residem essas forças misteriosas que denominamos vida, instinto e consciência, quando se trata de criaturas humanas. Não tardaremos a entrar no âmago desta grave questão. Por enquanto, confessamos com o Sr. Langel28 que “a Ciência pode arrastar-nos à dúvida, a negações espantosas, tendo ela mesma os seus mistérios insondáveis às vistas humanas. Também ela se contenta com palavras, sempre que não pode penetrar a essência mesma dos fenômenos. Não nos fala a Química, constantemente, de afinidade? E não temos aí uma força hipotética, uma entidade tão pouco tangível quanto a vida, ou quanto a alma?

A Química recambia à Fisiologia a ideia da alma e recusa-se a tratar do assunto, mas, perguntamos, a ideia em torno da qual se desdobra a Química tem algo de mais real? Essa ideia é, muitas vezes, inapreensível, não só na essência como nos efeitos. Pode-se, por exemplo, meditar um instante nas leis conhecidas como leis de Berthelot, sem compreender que se está em face de um mistério impenetrável? No simples fenômeno de uma combinação, no arrastamento que precipita dois átomos que se procuram e se reúnem, escapando aos compostos que os aprisionavam, não há o suficiente para nos confundir a inteligência? Quanto mais estudamos as ciências na sua metafísica, mais nos podemos convencer que esta nada tem de inconciliável com a mais idealista filosofia: as ciências analisam as relações, aferem medidas, descobrem as leis que regulam o mundo fenomenal; mas não há fenômeno algum, por insignificante que seja, que não as coloque em face de duas ideias, sobre as quais o método experimental carece de eficiência, a saber:

1º - a essência da substância modificada pelos fenômenos, e

2º - a força que provoca essas modificações.

Só conhecemos e vemos, por fora, as aparências; a verdadeira realidade, a realidade substancial, a causa, nos escapa. Digno é de uma alta filosofia considerar todas as forças particulares, cujas manifestações são analisadas pelas diversas ciências, como oriundas de uma força primária, eterna, necessária, fonte de todo o movimento e centro de toda a ação. Em nos colocando neste ponto de vista, os fenômenos e os próprios seres não são mais que formas mutáveis de uma ideia divina”.

Pode a unidade a que tende a Química fazer-nos pressupor que o mundo animado e o inanimado sejam regidos por leis idênticas? Deveremos lisonjear-nos com ideia de poder um dia, não apenas refazer artificialmente todas as matérias orgânicas, mas reproduzir “ad libitum” as condições em que hajam de aflorar a vida vegetal ou animal? Não, certamente. Tais pretensões seriam ilusórias. Não dispomos da vida. Fisiologia e Química são domínios que se extremam e se distinguem, como se não distinguiam há um século a Química orgânica e a mineral.

Em parte alguma, a planta mais rudimentar, o animal mais ínfimo da escala zoológica, nasceram do concurso das afinidades químicas. Por maiores progressos que faça a Química orgânica, ela será sempre detida pela impossibilidade de originar a força vital, de que não dispõe.

Não, senhores, em que pese à vossa atitude afirmativa e audaciosa, vós não podeis criar a vida, nem sabem, sequer, o que seja a vida, e sois constrangidos a confessar a vossa ignorância, ao mesmo tempo em que ofereceis as provas da vossa impotência.

É em vão que revidais com fogos fátuos e gratuitas suposições:

“Para sustentar uma força vital original – dizeis – invoca-se amiúde a nossa impossibilidade de criar plantas e animais; e nada obstante, se pudéssemos senhorear a luz, o calor, a pressão atmosférica, tanto quanto as relações de peso da matéria, não somente ficaríamos aptos a recompor corpos orgânicos, como capacitados a preencher as condições que engendram o nascimento desses corpos.”

A seguir, acrescentais, sem perceber que as vossas próprias palavras reforçam a nossa causa:

“Desde que os elementos ditos carbono, hidrogênio, oxigênio, azoto, se encontram organizados, as formas fixas daí resultantes têm o poder de conservar-se no seu estado e, tal como no-lo ensina a experiência até hoje adquirida, elas persistem através de centenas e milhares de anos. Por meio de sementes, de brotos e de ovos, essas formas reaparecem numa sucessão determinada.”

Por outros termos, duas proposições se evidenciam: a primeira é que não poderíamos engendrar a vida senão como legado potencial da Natureza e a segunda é que a vida se mantém, persistente e transmissível, graças a uma virtude que lhe é própria.

Tal é, verdadeiramente, a questão, e de duas uma: ou o homem é, ou não é (nem será) capaz de originar a vida.

Neste último caso, as pretensões materialistas estão irremissivelmente condenadas e, no primeiro, por si mesmas se condenam, da seguinte forma:

Laborando na organização da vida, sois forçados a vos submeter às leis ordenadas e as aplicar passivamente, sem as contrariar de qualquer forma. Então, já não seríamos nós a originar a vida e sim as leis eternas, das quais nos arvoraríamos, por um instante, em simples mandatários.

Já vos ouço bradar – sofisma! – e declarar que procuramos escapar pela tangente. Mas... perdão, senhores, notam em primeiro lugar que se alguém se esquiva num processo, esse alguém só pode ser o acusado e considerai, depois, que, assim razoando, não ficamos à superfície e penetramos o âmago da questão. Refleti um momento: bem sabeis que neste mundo nada criamos e apenas aplicamos leis predominantes.

Criais, porventura, o oxigênio quando, pelo calor, decompondes o bióxido de manganês e as bolhas afloram no tubo de escapamento? Não; apenas roubais ou – se preferis – pedis ao bióxido de manganês o terço de oxigênio nele contido. Criareis o azoto retirando oxigênio do ar atmosférico? O próprio nome do processo está a indicar que ele consiste numa subtração. Criais a água quando, reunindo no eudiômetro o hidrogênio ao oxigênio, lhe fazeis a síntese? Ou isso não passa de mera combinação? Com a decomposição do carbonato de cal, pelo ácido clorídrico, criareis o carbono? E os ácidos oxálico, acético, lático, tartárico, tânico, quando os extraís dos materiais vegetais ou animais, mediante agentes oxidantes, acaso os tendes criado? Não, mil vezes não. Se nos servimos, por vezes, do vocábulo – criar, é por abuso de linguagem. Ora, ainda mesmo que conseguísseis fazer um pedaço de carne, nem por isso o teríeis criado e sim, apenas, reunido os elementos que constituem a carne, segundo as leis inexoráveis, assinadas à organização da Natureza. E dado que os pósteros possam ver um dia surgir do fundo de suas retortas um ser vivo, ainda assim, de antemão lhes dizemos que muito se iludiriam se concluíssem pela inexistência das leis divinas, pois não haveria de ser à revelia delas que houvessem de consumar essa obra-prima da indústria humana.

Enfim, dado que os precedentes raciocínios não sejam suficientes para caracterizar vossa erronia, consentimos, ao termo desta exposição sobre a circulação da matéria, em admitir que a Natureza emprega, para construir seres vivos, os mesmos processos do homem, isto é: – trata simplesmente pela química as matérias inorgânicas. Ora, ainda nesta hipótese, não haveria como negardes a necessidade, para o construtor, de saber o que pretende fazer, ou de operar com um plano determinado. Pois uma natureza inteligente, ou o ministro de uma inteligência, substitui o químico. A obra do gênio consiste, precisamente, em fazer derivar de um pequeno número de princípios, facilmente formuláveis, as mais engenhosas aplicações, os inventos mais extraordinários.

Esse gênio, do qual as mais portentosas inteligências humanas não representam senão partículas infinitesimais, reduziu à extrema simplicidade, à maior simplicidade possível, todas as operações da Natureza. A divina inteligência apresenta-se-nos como a consciência de uma lei única, abrangendo o todo universal, e cujas aplicações indefinidas engendram uma multidão de fenômenos que se aglutinam por analogia, regidos pelas mesmas leis secundárias, decorrentes da lei primordial. Certo, o químico ainda não substitui a vida, nem sabe formar o embrião em que o germe representa um papel tão maravilhoso. Em seus atos, contudo, ele se esforça por substituir a Natureza. E como? – pela inteligência. Um elemento existe, absolutamente indispensável: a inteligência.

Soberana, ela se impõe ao raciocínio de quantos estudam a Natureza. E torna-se visível nessas regras que podem ser previamente determinadas, calculadas, combinadas, de vez que guardam entre si um encadeamento admirável e são imutáveis em condições idênticas, porque receberam a inflexibilidade da infinita sabedoria.

Está, portanto, demonstrado, à saciedade, que a circulação da matéria não se efetua senão sob a direção de uma força inteligente.

Mas, seja qual for o rumo que trilhemos, o desvio em que nos propusermos acompanhar-vos, voltamos sempre, a despeito de tudo, à formação da Natureza, à causa causal de quanto existe, e aqui o campo se torna mais vasto ainda. Os processos humanos já não embaraçam a vista. No extremo de todas as avenidas, chegamos ao ponto capital e trata-se, agora, de examinar a origem mesma da vida na Terra. Estarão os seres vivos encerrados na superfície do globo? Teriam aí surgido em seis dias, ao toque da vara de um mágico? Despertaram a súbitas do seio das florestas, da margem dos rios, nos vales adormecidos?

Que mão teria conduzido o primeiro homem do céu aos bosques do Éden? Que mão pudera abrir-se no ar e soltar a chusma canora de lindas plumagens? Seriam as forças físico-químicas, que, num espasmo fecundo, teriam dado nascimento aos habitantes de mares e continentes? Nós não encontramos seres que não tenham nascido de um casal, ou cujo nascimento não se ligue às leis estabelecidas para a reprodução. Como teriam surgido na Terra as espécies vegetais e animais? Eis a questão que atualmente nos interessa. Depois de observar a platéia e o comentário dos espectadores, levantemos o pano que oculta o verdadeiro cenário e apreciemos a peça. A Natureza é sempre o maquinista invisível. Tentemos surpreendê-la, na esperança de que ela não seja bastante atilada para subtrair-se à nossa perquirição.

FLAMMARION, Camille. A Vida: Circulação da matéria. In: Deus na Natureza. Tomo 2, item 1.

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