;
Este é um ambiente dedicado ao estudo da consciência em seus mais variados estágios de evolução e, principalmente, no estágio em que adquirimos a possibilidade de nos manifestar na forma humana. Por isso, decidimos dedicar nossa atual reencarnação para aprofundarmos o nosso autoconhecimento e ajudarmos outros irmãos que também necessitam de esclarecimento, e assim nos tornarmos cada vez mais conscientes de nós mesmos, de nossa bagagem evolutiva, adquirindo mais conhecimentos e experiências através dos quais possamos construir as “sinapses” capazes de nos “revelar” novas realidades, ou melhor, de nos revelar a verdadeira realidade, abandonando as ilusões a que estamos fixados por tanto tempo.
Ho'Oponopono - Oração Original'Divino Criador, Pai, Mãe, Filho, todos em Um. Se eu, minha família, meus parentes e antepassados, ofendemos sua família, parentes e antepassados, em pensamentos, fatos ou ações, desde o início de nossa criação até o presente, nós pedimos o seu perdão. Deixe que isso se limpe, purifique, libere e corte todas as memórias, bloqueios, energias e vibrações negativas. Transmute essas energias indesejáveis em pura luz e assim é. Para limpar o meu subconsciente de toda carga emocional armazenada nele, digo um e outra vez, durante o meu dia, as palavras chave do HO’OPONOPONO: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Declaro-me em paz com todas as pessoas da Terra e com quem tenho dívidas pendentes. Por esse instante e em seu tempo, por tudo o que não me agrada em minha vida presente: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Eu libero todos aqueles de quem eu acredito estar recebendo danos e maus tratos, porque simplesmente me devolvem o que fiz a eles antes, em alguma vida passada: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Ainda que me seja difícil perdoar alguém, sou eu que pede perdão a esse alguém agora. Por esse instante, em todo o tempo, por tudo o que não me agrada em minha vida presente: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Por esse espaço sagrado que habito dia a dia e com o qual não me sinto confortável: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Pelas difíceis relações às quais só guardo lembranças ruins: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Por tudo o que não me agrada na minha vida presente, na minha vida passada, no meu trabalho e o que está ao meu redor, Divindade, limpa em mim o que está contribuindo para minha escassez: Sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Se meu corpo físico experimenta ansiedade, preocupação, culpa, medo, tristeza, dor, pronuncio e penso: “Minhas memórias, eu te amo”. Estou agradecido pela oportunidade de libertar vocês e a mim. Sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Neste momento, afirmo que te amo. Penso na minha saúde emocional e na de todos os meus seres amados. Te amo. Para minhas necessidades e para aprender a esperar sem ansiedade, sem medo, reconheço as minhas memórias aqui neste momento: Sinto muito, eu te amo. Minha contribuição para a cura da Terra: Amada Mãe Terra, que é quem Eu Sou: Se eu, a minha família, os meus parentes e antepassados te maltratamos com pensamentos, palavras, fatos e ações, desde o início da nossa criação até o presente, eu peço o teu perdão. Deixa que isso se limpe e purifique, libere e corte todas as memórias, bloqueios, energias e vibrações negativas. Transmute essas energias indesejáveis em pura luz e assim é. Para concluir, digo que esta oração é minha porta, minha contribuição à tua saúde emocional, que é a mesma que a minha. Então esteja bem e, na medida em que vai se curando, eu te digo que: Eu sinto muito pelas memórias de dor que compartilho com você. Te peço perdão por unir meu caminho ao seu para a cura, te agradeço por estar aqui em mim. Eu te amo por ser quem você é.

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sábado, 27 de agosto de 2016

A Gênese, Allan Kardec, Capítulo I - Caracteres da Revelação Espírita

A GÊNESE

CAPÍTULO I - CARACTERES DA REVELAÇÃO ESPÍRITA

1. Pode o Espiritismo ser considerado uma revelação? Neste caso, qual o seu caráter? Em que se funda a sua autenticidade? A quem e de que maneira foi ela feita? É a Doutrina Espírita uma revelação, no sentido teológico da palavra, ou por outra, é, no seu todo, o produto do ensino oculto vindo do Alto? É absoluta ou suscetível de modificações? Trazendo aos homens a verdade integral, a revelação não teria por efeito impedi-los de fazer uso das suas faculdades, pois que lhes pouparia o trabalho da investigação? Qual a autoridade do ensino dos Espíritos, se eles não são infalíveis e superiores à humanidade? Qual a utilidade da moral que pregam, se essa moral não é diversa da do Cristo, já conhecida? Quais as verdades novas que eles nos trazem? Precisará o homem de uma revelação? E não poderá achar em si mesmo e em sua consciência tudo quanto é mister para se conduzir na vida? Tais as questões que importa nos fixemos.

2. Definamos primeiro o sentido da palavra revelação. Revelar, do latim "revelare", cuja raiz, "velum", véu, significa literalmente sair de sob o véu — e, figuradamente, descobrir, fazer conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar, a mair geral, é empregada no sentido de qualquer coisa ignorada que é conhecida, de qualquer ideia nova que nos põe a par daquilo que não sabíamos.

Sob esse ponto de vista, todas as ciências que nos fazem conhecer os mistérios da Natureza são revelações, e se pode dizer que há para nós uma revelação incessante: a Astronomia nos revelou o mundo sideral, que não conhecíamos; a Geologia, a formação da Terra; a Química, a lei das afinidades; a Fisiologia, as funções do organismo etc.; Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier são os reveladores.

3. A característica essencial de qualquer revelação deve ser a verdade. Revelar um segredo é fazer conhecido um fato; se é falso, já não é um fato e, por consequência, não há revelação. Toda revelação desmentida pelos fatos deixa de o ser; se é atribuída a Deus, Deus não podendo mentir, nem enganar-se, ela não pode emanar Dele. Portanto, deve ser considerada como um produto da concepção humana.

4. Qual o papel do professor diante de seus alunos senão o de um revelador? Ele lhes ensina aquilo que não sabem, o que não teriam tempo nem possibilidade de descobrir por si mesmos, porque a ciência é a obra coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que trouxeram, cada um, o seu contingente de observações, e das quais se aproveitam aqueles que vêm depois. O ensino é, assim, na realidade, a revelação de certas verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feitas por homens que as conhecem a outros que as ignoram e que permaneceriam ignorantes, se assim não fosse.

5. Mas o professor não ensina só aquilo que aprendeu: é um revelador de segunda ordem. O homem de gênio ensina aquilo que descobriu por si mesmo: é o revelador primitivo; ele traz a luz que pouco a pouco se vulgariza. Onde estaria a humanidade sem as revelações dos homens de gênio que surgem de tempos a tempos?

Mas o que constitui os homens de gênio? Por que são homens de gênio? Donde vieram? O que é feito deles? Notemos que na sua maior parte denota, ao nascer, faculdades transcendentes e conhecimentos inatos que apenas um pouco de trabalho é suficiente para desenvolver. Eles pertencem realmente à humanidade, pois nascem, vivem e morrem como nós. Onde, porém, adquiriram esses conhecimentos que não puderam aprender durante a vida? Dir-se-á, como os materialistas, que o acaso lhes proporcionou matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Nesse caso, eles não possuiriam mais mérito do que um legume maior e mais saboroso que outro.

Dir-se-á, com certos espiritualistas, que Deus os dotou de uma alma mais favorecida que a do comum dos homens? Suposição também sem lógica, pois assim se atribuiria parcialidade a Deus. A única solução racional desse problema está na preexistência da alma e na pluralidade das existências. O homem de gênio é um Espírito que viveu por mais tempo, e por conseguinte, tem mais aquisições e mais progresso que aqueles que se acham menos adiantados. Encarnando-se, ele traz o que sabe, e como sabe muito mais que os outros sem ter de aprender, é o que se chama de homem de gênio. Mas o que eles sabe não é outra coisa senão o fruto de um trabalho anterior, não é o resultado de um privilégio. Antes de renascer, portanto, era um Espírito adiantado; ele se reencarna, seja para que outros se aproveitem do que já sabe, seja para adquirir progresso.

Os homens progridem incontestavelmente por si mesmos e pelos esforços da sua inteligência; mas, entregues às suas próprias forças, esse progresso seria muito lento se não fossem ajudados pelos homens mais adiantados como o escolar o é pelos seus professores. Todos os povos têm tido seus homens de gênio, que surgem em épocas diversas para impulsioná-los e tirá-los da inércia.

6. Desde que se admita a solicitude de Deus para com as suas criaturas, por que não admitir que Espíritos capazes, pela energia e superioridade de seus conhecimentos, de fazer avançar a humanidade, se encarnem pela vontade de Deus com o fim de ajudá-la a progredir num sentido determinado, que recebam uma missão, como um embaixador a recebe de seu soberano? Tal é o papel dos grandes gênios. Que vêm eles fazer senão ensinar aos homens as verdades que estes ignoram, as quais permaneceriam ignoradas durante longos períodos, a fim de lhes dar um ponto de apoio por meio do qual possam progredir mais rapidamente? Esses gênios, que surgem através dos séculos como estrelas brilhantes deixam atrás de si um longo traço luminoso sobre a humanidade, são missionários ou, se o quiserem, messias. A coisas novas que eles ensinam aos homens, seja de natureza física ou de ordem filosófica, são revelações.

Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, Ele pode, com mais forte razão, suscitá-los para as verdades morais, que são um dos elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos, cujas ideias atravessaram os séculos.

7. No sentido especial da fé religiosa, a revelação se diz mais particularmente das coisas espirituais, que o homem não pode conhecer por si mesmo, que não pode descobrir por meio dos seus sentidos e cujo conhecimento lhe é dado por Deus ou por seus mensageiros, seja por meio da palavra direta, seja pela inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens privilegiados, designados como profetas ou messias, isto é, enviados, missionários, com a missão de transmiti-la aos homens. Considerada sob esse ponto de vista, a revelação implica a passividade absoluta; é aceita sem controle, sem exame, sem discussão.

8. Todas as religiões tiveram seus reveladores e todos eles, embora longe do conhecimento total da verdade, tinham a sua razão de ser providencial; porque foram apropriados ao tempo e ao meio em que viveram, ao gênio particular dos povos a que falavam e aos quais eram superiores. Apesar dos erros de suas doutrinas, não deixaram de agitar os espíritos e, mesmo por isso, de semear os germens do progresso que mais tarde deviam alastrar-se como se alastraram um dia, ao sol do cristianismo. Dessa forma, é injusto lançar-lhe o anátema em nome da ortodoxia. Mas dia virá em que todas essas crenças, tão diversas na forma, repousa num mesmo princípio fundamental. Deus e a imortalidade da alma se fundirão numa grande e vasta unidade, quando a razão triunfar sobre os preconceitos.

Infelizmente, as religiões tem sido, de tempo em tempos, instrumentos de dominação. O papel de profeta tem tentado as ambições secundárias e tem-se visto surgir uma multidão de pretensos reveladores ou messias, que em favor do prestígio deste nome têm explorado a credulidade em proveito do seu orgulho, da sua cupidez ou da sua indolência, os quais acham mais cômodo viver à custa dos iludidos. A religião cristã não pode livrar-se desses parasitas. Neste sentido, chamamos a atenção seriamente para o capítulo XXI de "O Evangelho Segundo o Espiritismo": Haverá falsos cristos e falsos profetas.

9. Haverá revelações diretas de Deus aos homens? Esta é uma questão que não ousaríamos resolver, nem afirmativamente nem negativamente, de maneira absoluta. Isso não é radicalmente impossível mas nada o prova com certeza. O que não seria duvidoso é que os Espíritos mais aproximados de Deus pela perfeição se compenetrem com seu pensamento e possam transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica à qual pertencem e o grau de seu saber pessoal, eles podem haurir instruções em seus próprios conhecimentos ou recebê-las dos Espíritos mais elevados, e também dos mensageiros diretos de Deus. Estes falando em nome de Deus, muitas vezes têm sido tomados como o próprio Deus.

Estas espécies de comunicações nada têm de estranho para quem conheça os fenômenos espíritas e a maneira pela qual se estabelecem as relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: pela pura e simples inspiração, pela audição da palavra, pela visibilidade dos Espíritos instrutores nas visões e aparições - seja durante os sonhos, seja em vigília, como na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos. Assim, é rigorosamente certo dizer que a maior parte dos reveladores são médiuns inspirados, auditivos ou videntes; entretanto, não se deve concluir daí que todos os médiuns sejam reveladores e muito menos intermediários diretos da Divindade ou dos seus mensageiros.

10. Somente os Espíritos puros recebem a palavra de Deus com a missão de transmiti-la. Mas sabe-se que nem todos os Espíritos estão próximo à perfeição e que dentre eles muitos se apresentem sob falsas aparências; é o que fez São João dizer: “Não creiais em todos os Espíritos, mas vede antes se os Espíritos são de Deus.” (1a Epístola, 4:1.)

É possível, pois, haver revelações sérias e verdadeiras como as há apócrifas e mentirosas. O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação eivada de erros ou sujeita a modificação não pode emanar de Deus. É assim que a Lei do Decálogo possui todos os caracteres de sua origem, ao passo que as outras leis moisaicas, essencialmente transitórias, muitas vezes em contradição com a lei do Sinai, são obra pessoal e política do legislador hebreu. Os costumes do povo abrandando-se, essas leis por si mesmas caíram em desuso, enquanto que o Decálogo permanece como farol da humanidade. O Cristo fez dele a base do seu edifício, ao passo que aboliu as outras leis. Se elas tivessem sido obra de Deus, ele teria evitado tocá-las. O Cristo e Moisés foram os dois grandes reveladores que mudaram a face ao mundo e ai está a prova de sua missão divina. Uma obra puramente humana  não teria tal poder.

11. Uma importante revelação se está operando na época atual: é aquela que nos mostra a possibilidade de comunicação com os seres do mundo espiritual. Esse conhecimento não é novo, sem dúvida, mas permaneceu até os nossos dias de certo modo como letra morta, isto é, sem proveito para a humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações achava-se abafada pela superstição sendo que o homem era incapaz de tirar delas qualquer dedução salutar. Estava reservado à nossa época desembaraçá-las de seus acessórios ridículos, compreender-lhes o significado e dela fazer surgir a luz destinada a aclarar o caminho do futuro.

12. O Espiritismo, fazendo-nos conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem saber as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem depois da morte - constitui uma verdadeira revelação, na acepção científica da palavra.

13. Por sua natureza, a revelação espírita tem duplo caráter: ela participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Participa da primeira porque seu aparecimento foi providencial, e não o resultado da iniciativa e do desígnio premeditado do homem, porque os pontos fundamentais da Doutrina provêm do ensinamento dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre as coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhes importa conhecer, hoje que se acham amadurecidos para compreendê-las. Participa da segunda, porque tal ensinamento não constitui privilégio de nenhum indivíduo mas é proporcionado a todo mundo pela mesma forma: pelo fato de que tanto aqueles que o transmitem como os que o recebem não são seres passivos, dispensados do trabalho de observação e pesquisa; por não terem renunciarem ao seu próprio julgamento e livre-arbítrio; e porque o exame não lhes é interdito, mas, ao contrário, recomendado. Enfim, a Doutrina não foi ditada completa nem imposta à crença cega, sendo ela deduzida do trabalho do homem e da observação dos fatos que os Espíritos lhes põem sob os olhos pelas instruções que a ele dão, instruções estas que o homem estuda, compara e das quais tirar ele mesmo as suas conclusões e aplicações. Em síntese, o que caracteriza a revelação espírita é que sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos e que a sua elaboração é o resultado do trabalho do homem.

14. Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental. Se fatos de ordem nova se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas, ele as observa, compara, analisa e, partindo dos efeitos às causas, chega à lei que os rege, deduzindo as consequências e buscando aplicações úteis. O Espiritismo não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; assim, não apresentam como hipótese nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da Doutrina. Conclui-se pela existência dos Espíritos porque essa existência resultou como evidência na observação dos fatos, e assim os demais princípios. Não foram os fatos que vieram posteriormente confirmar a teoria, mas foi a teoria que veio subsequentemente explicar e resumir os fatos. É rigorosamente exato, portanto, dizer que o Espiritismo é uma ciência da observação e não o produto da imaginação. As ciências não fizeram progressos sérios senão depois que os seus estudos se basearam no método experimental; mas acreditava-se que esse método não poderia ser aplicado senão à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas.

15. Citemos um exemplo: Passa-se no mundo dos Espíritos um fato muito singular e que seguramente ninguém suspeitava: o dos Espíritos que não creem estar mortos. Pois bem, os Espíritos superiores, que conhecem perfeitamente o fato, não vieram dizer antecipadamente: “Há Espíritos que creem viver a vida terrestre; que conservam seus gostos, seus hábitos e seus instintos”, mas eles provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria para que os observássemos. Tendo-se visto Espíritos incertos quanto ao seu estado, ou afirmando que ainda estavam neste mundo, crendo-se aplicados às suas ocupações ordinárias, do exemplo se concluiu a regra. A multidão de fatos análogos proou que isso não constituía  uma exceção, mas uma das fases da vida espiritual; ela permitiu estudar todas as variedades e as causas  desta singular ilusão; permitiu reconhecer que esta situação é sobretudo própria de Espíritos pouco adiantados moralmente e que ela é peculiar a certos gêneros de morte; que não é senão temporária, mas pode durar dias, meses e anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. O mesmo se dá com todos os demais princípios da Doutrina.

16. Do mesmo modo que a ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da natureza que reage incessantemente sobre o princípio material, e reciprocamente, disto resulta que o conhecimento de um não pode ser completo sem o conhecimento do outro. O Espiritismo e a Ciência se completam um pelo outro; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha impossibilitada de explicar certos fenômenos unicamente pelas leis da matéria; o Espiritismo, sem a ciência, ficaria sem apoio e exame. O estudo das leis materiais deveria preceder o da espiritualidade, porque é a matéria que primeiramente fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse aparecido das descobertas científicas, teria abortado, como tudo quanto vem antes do tempo.

17. Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional; elas nascem umas das outras, à medida que encontram um ponto de apoio nas ideias e conhecimentos anteriores. A Astronomia, uma das primeiras que foram cultivadas, permaneceu nos erros de sua infância, até o momento em que a Física veio revelar a lei das forças dos agentes naturais; a Química, nada podendo sem a Física, tinha que sucedê-la de perto, para em seguida marcharem ambas de acordo e se apoiando uma na outra. A Anatomia, a Fisiologia, a Zoologia, a Botânica, a Mineralogia não se tornaram ciências sérias senão depois do auxílio das luzes que lhes trouxeram a Física, a Química e todas as outras, pois, faltariam seus verdadeiros elementos de vitalidade. Elas não poderiam surgir senão depois.

18. A Ciência moderna abandonou os quatro elementos primitivos dos antigos, e de observação em observação, chegou à concepção de um só elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas esta, por si mesma, é inerte; ela não tem vida, nem pensamento, nem sentimento; é-lhe necessária sua união com o princípio espiritual. O Espiritismo não descobriu nem inventou esse princípio, mas foi o primeiro a demonstrá-lo por meio de provas irrecusáveis; estudou-o, analisou-o e tornou evidente a ação. Ao elemento material ajuntou o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual, eis os dois princípios, as duas forças vivas da natureza. Pela união indissolúvel desses dois elementos, explica-se, sem dificuldade, um sem número de fatos até agora sem explicação.(1)

O Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos elementos constitutivos do universo, mantém forçosamente pontos de contato com a maior parte das ciências; só poderia vir após a elaboração das mesmas, e nasceu pela força das coisas, da impossibilidade de tudo explicar, unicamente, com o auxílio das leis da matéria.

19. O Espiritismo é acusado de parentesco com a magia e a feitiçaria; mas esquecem que a Astronomia tem, como irmã mais velha, a Astrologia judiciária, que não se acha tão distante de nós; que a Química é filha da Alquimia, da qual nenhum homem sensato ousaria ocupar-se hoje. Ninguém nega, porém, que houvesse na Astrologia e na Alquimia o gérmen das verdades de que surgiram as ciências atuais. Malgrado suas fórmulas ridículas, a Alquimia contribuiu para que fossem descobertos os corpos simples e a lei das afinidades; a Astrologia apoiava-se sobre a posição e o movimento dos astros, que ela havia estudado; mas, na ignorância das verdadeiras leis que regem o mecanismo do universo, os astros eram, para o vulgo, seres misteriosos aos quais a superstição emprestava uma influência moral e um sentido revelador. Quando Galileu, Newton e Kepler, tornaram conhecidas essas leis, quando o telescópio descerrou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um olhar que muitos consideraram indiscreto, os planetas nos apareceram como simples mundos semelhantes ao nosso, e todo o castelo do maravilhoso desmoronou.

A mesma coisa se deu com o Espiritismo, em relação com a magia e a feitiçaria: estas se apoiavam também na manifestação dos Espíritos, como a Astrologia no movimento dos astros, mas na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, elas mesclavam nessas relações certas práticas e crenças ridículas que o Espiritismo moderno, fruto da experiência da observação, abandonou. Seguramente, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior do que a existente entre a Astronomia e a Astrologia, entre a Química e a Alquimia; querer confundi-las é provar que nem a primeira palavra é conhecida a respeito do assunto.

20. Só o fato da possibilidade de comunicação com os seres do mundo espiritual tem consequências incalculáveis do mais alto valor; é todo um mundo novo que se nos revela e que assume tanto mais importância quanto mais atinge todos os homens, sem exceção. Com sua generalização, este conhecimento não pode deixar de causar uma profunda modificação nos costumes, no caráter, nos hábitos e nas crenças, que tem tão grande influência nas relações sociais. É uma revolução total que se opera nas ideias, revolução esta tanto maior, tanto mais poderosa, quanto não se acha circunscrita a um povo, a uma casta, mas atinge simultaneamente, pelo coração, todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.

É com razão, portanto, que o Espiritismo é considerado como a terceira das grandes revelações. Vejamos em que se diferenciam essas revelações e por que laço elas se ligam umas aos outra.

21. Moisés, como profeta, revelou aos homens o conhecimento de um Deus único, soberano Senhor e Criador de todas as coisas. Promulgou a lei do Sinai e lançou os fundamentos da verdadeira fé; como homem, foi o legislador do povo pelo qual esta fé primitiva, purificando-se, deveria um dia espalhar-se por sobre a Terra.

22. O Cristo, tomando da antiga lei o que é eterno e divino e rejeitando o que não era senão transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, ajuntou a revelação da vida futura, da qual Moisés não havia falado, bem como das penas e recompensas que esperam o homem depois da morte. (Ver a "Revue Spirite", 1861, págs. 90 a 280)

23. A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido de que ela é a fonte primitiva, a pedra angular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista inteiramente novo pelo qual ele faz encarar a Divindade. Não é mais o Deus terrível, zeloso e vingativo de Moisés, o Deus cruel e impiedoso que rega a terra com o sangue humano, que ordena o massacre e extermínio dos povos, sem exceção das mulheres, das crianças e dos velhos; que castiga aqueles que poupam as vítimas. Não é mais o Deus injusto que pune um povo inteiro pela falta do seu chefe, que se vinga do culpado na pessoa do inocente e que fere os filhos pelas faltas dos pais; mas sim um Deus clemente, soberanamente bom, cheio de mansidão e misericórdia, que perdoa ao pecador arrependido e dá a cada um segundo as suas obras. Não é mais o Deus de um único povo privilegiado, o Deus dos exércitos, presidindo aos combates para sustentar a sua própria causa contra os deuses dos outros povos, mas o Pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção sobre todos os seus filhos e os chama todos a si; Não é mais o Deus que recompensa e pune só pelos bens da Terra, que faz consistir a glória e a felicidade na escravidão dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas que diz aos homens: “A vossa verdadeira pátria não é este mundo; ela está no reino celestial. Lá, onde os humildes de coração serão elevados e os orgulhosos serão humilhados.” Não é mais o Deus que faz da vingança uma virtude e ordena se retribua olho por olho e dente por dente; mas sim o Deus de misericórdia que diz: “Perdoai as ofensas, se quereis ser perdoados; retribui o mal com o bem; não façais a outrem o que não quereis que vos façam.” Não é mais o Deus mesquinho e meticuloso que impõe, sob as mais severas penas, a maneira pela qual quer ser adorado; que se ofende pela inobservância de uma fórmula; mas o Deus grande, que vê o pensamento e que não se honra com a forma. Enfim, não é mais o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado.

24. Sendo Deus o centro de todas as crenças religiosas e o objetivo de todos os cultos, o caráter de todas as religiões está conforme à ideia que elas dão de Deus. As religiões que fazem de Deus um ser vingativo e cruel julgam honrá-lo com atos de crueldade, com fogueiras e torturas; aquelas que têm um Deus parcial e zeloso são intolerantes e mais ou menos meticulosas na forma, segundo creem, mais ou menos contaminadas das fraquezas e mesquinharias humanas.

25. Toda a doutrina do Cristo se funda no caráter que ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, ele fez do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa da salvação, dizendo: "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos; nisto se resume toda a lei dos profetas; não existe outra". Somente esta crença assentou o princípio da igualdade dos homens perante Deus e o da fraternidade universal. Mas seria possível amar esse Deus de Moisés? Não. Não se poderia senão temê-lo.

Esta revelação dos verdadeiros atributos da Divindade, juntamente com a imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as relações mútuas entre os homens, impunha-lhes novas obrigações, fazia-os encarar a vida presente sob outro aspecto; devia, por isso mesmo, agir contra os costumes e as relações sociais. Incontestavelmente, por suas consequências, este é o ponto capital da revelação do Cristo, a qual não foi suficientemente compreendida a importância; e, constrange dizê-lo, é o ponto de que mais nos temos afastado, o ponto mais desconhecido na interpretação dos seus ensinos.

26. Entretanto, o Cristo acrescenta: “Muitas das coisas que vos digo, vós não as podeis ainda compreender, e eu tenho muitas outras a vos dizer, que não compreenderíeis; por isso é que vos falo por parábolas; mais tarde, porém, enviar-vos-ei o Consolador, o Espírito da Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará” (João, 14 e 16; Mateus, 17).

Se o Cristo não disse tudo quanto poderia dizer, é que ele acreditava que deveria deixar certas verdades na sombra até que os homens estivessem em estado de compreendê-las. Ele mesmo disse que seu ensinamento era incompleto, pois anunciou a vinda daquele que deveria completá-lo. Previa, assim, que suas palavras não seriam bem interpretadas, que o seu ensino seria desviado; numa palavra, que seria desfeito o que ele fizera, desde que todas as coisas deveriam ser restabelecidas. Ora, não se restabelece senão aquilo que foi desfeito.

27. Por que denomina ele Consolador ao novo Messias? Este nome significativo e sem ambiguidade é toda uma revelação. Assim, ele previa que os homens teriam necessidade de consolo, o que implica a insuficiência das consolações que encontrariam na crença que estavam formulando. Jamais o Cristo poderia ser mais claro e mais explícito como nestas últimas palavras, às quais poucos deram a atenção necessária, talvez porque evitaram mesmo esclarecê-las e aprofundar-lhes o sentido profético.

28. Se o Cristo não pôde desenvolver o seu ensino de maneira completa, é que faltavam aos homens o conhecimento que não poderiam adquirir senão com o tempo e sem o qual não o poderiam compreender; há coisas que teriam parecido sem sentido, de acordo com os conhecimentos de então. Completar o seu ensinamento deve ser interpretado no sentido de explicar e de desenvolver e não o de adicionar verdades novas, porque ali tudo se encontra em gérmen: somente faltava a chave para abrir o sentido de suas palavras.

29. Mas quem ousará interpretar as Escrituras Sagradas? Quem tem esse direito? Quem possui as luzes necessárias, senão os teólogos?

Quem o ousa? Primeiramente a Ciência, que a ninguém pede permissão para fazer conhecer as leis da natureza e que salta por cima dos erros e os preconceitos. — Quem tem esse direito? Nestes séculos de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a todo mundo e as Escrituras não são mais a Arca Santa, na qual ninguém ousava encostar o dedo sem correr o risco de cair fulminado. — Quanto às luzes especiais necessárias, sem contestar a dos teólogos, por mais esclarecidos que fossem os da Idade Média, e em particular os padres da Igreja, eles não foram o bastante para não condenar como heresia o movimento da Terra e a crença nos antípodas. Mesmo sem ir tão longe, os teólogos atuais não lançaram seu anátema aos períodos de formação da Terra?

Os homens não puderam explicar as Escrituras senão com o auxílio do que sabiam, das noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da natureza, mais tarde reveladas pela ciência. Eis porque os próprios teólogos de muito boa-fé se enganaram sobre o sentido de certas palavras e fatos do Evangelho. Querendo a todo custo ali encontrar a confirmação de um pensamento preconcebido, eles giravam sempre no mesmo círculo, sem abandonar o seu ponto de vista, de tal maneira que não viram senão aquilo que queriam ver. Por muitos sábios que fossem os teólogos, não poderiam compreender as causas dependentes de leis que não conheciam.

Mas quem será o juiz das interpretações diversas e muitas vezes contraditórias dadas fora do campo da Teologia? O futuro, a lógica e o bom senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos, à medida que novos fatos e novas leis se forem revelando, saberão separar os sistemas utópicos e a realidade. Ora, a ciências faz conhecidas determinadas leis; o Espiritismo faz conhecer outras; umas e outras são indispensáveis à compreensão dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Buda até o Cristianismo. Quanto à Teologia, esta não poderá judiciosamente alegar contradições da ciência, de vez que ela também nem sempre está de acordo consigo mesma.

30. O Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo, como este partiu das de Moisés, é uma consequência direta de sua doutrina.

À ideia vaga da vida futura, acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que nos cerca e povoa o espaço e, para tanto, define a crença; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade à ideia, além de definir os laços que unem a alma ao corpo e levantar o véu que ocultava os mistérios do nascimento e da morte.

Pelo Espiritismo, o homem sabe de onde vem e para onde vai, porque está na Terra, porque sofre temporariamente e vê por toda parte a Justiça de Deus. Sabe que a alma progride sem cessar, através de uma série de existências sucessivas, até atingir o grau de perfeição que pode aproximá-la de Deus. Sabe que todas as almas, tendo um mesmo ponto de origem, são criadas iguais, com a mesma aptidão para progredir, em virtude do seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência e que não há entre elas senão a diferença quanto ao progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e atingirão o mesmo alvo, mais ou menos rapidamente, segundo seus trabalhos e sua boa vontade.

Sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais favorecidas umas que as outras; que Deus a nenhuma criou privilegiada e dispensada do trabalho imposto às outras para progredir, e que não há seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que os designados pelo nome de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que praticam o mal no estado espiritual, como quando praticavam na Terra, como homens, mas que se adiantarão e se aperfeiçoarão; que os anjos ou Espíritos puros não são seres à parte na Criação, mas Espíritos que atingiram o alvo, depois de terem percorrido a estrada do progresso; que, por essa forma, não há criações múltiplas nem diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas que toda a Criação deriva da grande lei da unidade que rege o universo, e que todos os seres gravitam para um fim comum que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos à custa de outros, visto serem todos filhos de suas próprias obras.

31. Pelas relações que agora pode estabelecer com aqueles que deixaram a Terra, ele possui não só a prova material da existência e da individualidade da alma, como também compreende a solidariedade que liga os vivos e os mortos deste mundo, e os deste aos outros mundos. Conhece a situação deles no mundo dos Espíritos; segue-os em suas migrações; é testemunha de sua alegrias e de suas penas; sabe porque são felizes ou infelizes e a sorte que lhes está reservada conforme o bem ou o mal que fizeram. Essas relações iniciam o homem na vida futura, que ele pode observar em todas as suas fases, em todas as suas peripécias; o futuro já não é uma vaga esperança: é um fato positivo, uma certeza matemática. Desde então, a morte nada mais tem de aterrador, porque é para ele a libertação, a porta da verdadeira vida.

32. Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição ou de imperfeição; que cada qual sofre as consequências diretas e naturais de suas faltas; ou, por outra, que é punido por aquilo que pecou; que essas consequências duram tanto quanto a causa que as produziu; que, assim, o culpado sofreria eternamente se persistisse no mal, mas que o sofrimento cessa com o arrependimento e a reparação. Ora, como depende de cada um o seu aperfeiçoamento, todos podem, em virtude do livre-arbítrio, prolongar ou abreviar seus sofrimentos, como o doente sofre pelos seus excessos enquanto não lhes põe termo.

33. Se a razão repele, como incompatível com a bondade de Deus a ideia das penas irremissíveis - perpétuas e absolutas, muitas vezes infligidas por uma única falta, as dos suplícios do inferno, que não podem ser minorados nem sequer pelo arrependimento mais ardente e sincero -, ela se inclina diante dessa justiça distributiva e imparcial que leva tudo em conta, que nunca fecha a porta de retorno e estende constantemente a mão ao náufrago, em vez de o empurrar para o abismo.

34. A pluralidade das existências, cujo princípio o Cristo estabeleceu no Evangelho, mas sem defini-lo mais que a muitos outros, é uma das leis mais importantes reveladas pelo Espiritismo, no sentido de demonstrar a realidade e a necessidade do progresso. Por essa lei, o homem explica todas as anomalias aparentes que a vida humana apresenta; as diferenças de posição social; as mortes prematuras que, sem a reencarnação, tornariam inúteis para a alma as vidas abreviadas; a desigualdade das aptidões intelectuais e morais pela antiguidade do Espírito, que aprendeu mais ou menos e progrediu e que traz ao renascer a aquisição de suas existências anteriores (Item 5).

35. Com a doutrina da criação da alma a cada nascimento, voltamos a cair no sistema das criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros; nada os une, e os laços de família são puramente carnais; eles não são solidários a um passado em que não existiam. Com a crença do nada depois da morte, toda relação cessa com a vida; não são solidários no futuro. Pela reencarnação, são solidários no passado e no futuro; suas relações se perpetuam no mundo espiritual e no mundo corporal, a fraternidade tem por base as próprias leis da Natureza; o bem tem uma finalidade e o mal tem suas consequências inevitáveis.

36. Com a reencarnação, caem os preconceitos de raça e de casta, sendo que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grão-senhor ou proletário, patrão ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravidão, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, nenhum há que saliente, pela lógica, o fato material da reencarnação. Portanto, se a reencarnação fundamenta sobre uma lei da natureza o princípio da fraternidade universal, ela fundamenta sobre a mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade.

37. Tirai ao homem o Espírito livre, independente, sobrevivendo à matéria, e tereis feito dele uma máquina organizada, sem objetivo, sem responsabilidade, sem outro freio que a lei civil e boa para ser explorada como um animal inteligente. Nada esperando depois da morte, nada o impede de aumentar os gozos do presente; se sofre, não tem nenhuma perspectiva, a não ser o desespero e o nada como refúgio. Com a certeza do futuro, de encontrar aqueles a quem amou, o receio de rever aqueles a quem ofendeu, todas as suas ideias mudam. O Espiritismo, embora conseguisse apenas tirar do homem a dúvida com relação à vida futura, teria realizado mais pelo seu progresso moral do que todas as leis disciplinares, que algumas vezes o freiam, mas que o não transformam.

38. Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não é somente irreconciliável com a Justiça de Deus, que tornaria todos os homens responsáveis pela falta de um só: seria um contrassenso e tanto menos justificável pelo fato de que, segundo essa doutrina, a alma não existia na época a que se pretende fazer remontar sua responsabilidade. Com a preexistência, o homem traz, ao renascer, o gérmen das suas imperfeições, os defeitos que ele não corrigiu e que se traduzem pelos seus instintos naturais, suas propensões a tal ou qual vício. Este é o seu verdadeiro pecado original, do qual sofre naturalmente as consequências, mas com a diferença capital de que sofre o castigo de suas próprias faltas e não das faltas alheias. Esta outra diferença, ao mesmo tempo consoladora, encorajante e soberanamente equitativa de cada existência lhe oferece os meios de se redimir pela reparação e de progredir, seja se despojando de alguma imperfeição, seja pela aquisição de novos conhecimentos, até que, suficientemente purificado, ele não tem mais necessidade da vida corporal e pode viver exclusivamente da vida espiritual, eterna e bem-aventurada.

Pela mesma razão, aquele que progrediu moralmente traz, ao renascer, qualidades naturais, como o que progrediu intelectualmente traz ideias inatas; está identificado com o bem; pratica-o sem esforço, sem cálculo, por assim dizer, sem pensar. Aquele que é obrigado a combater as suas más tendências ainda está na luta: o primeiro já venceu, o segundo procura vencer. Há, portanto, virtude original, como há saber original e pecado, ou melhor, vício original.

39. O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais e sua ação sobre a matéria. Demonstrou a existência do perispírito, suspeitado desde a antiguidade e designado por São Paulo pelo nome de corpo espiritual, isto é, corpo fluídico da alma, depois da destruição do corpo tangível. Sabemos hoje que esse invólucro é inseparável da alma, forma um dos elementos constitutivos do ser humano, é o veículo de transmissão do pensamento e durante a vida corporal serve de liame entre Espírito e a matéria. O perispírito representa importantíssimo papel no organismo e num sem número de afecções, que se relacionam com à Fisiologia e a Psicologia.

40. O estudo das propriedades do perispírito, dos fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma abre novos horizontes à Ciência e fornece a chave para a compreensão de uma multidão de fenômenos, até então incompreendidos, pela falta do conhecimento da lei que os rege, fenômenos negados pelo materialismo por se ligarem à espiritualidade e qualificados como milagres ou sortilégios por outras crenças. Tais são, entre outros, os fenômenos da vista dupla, da visão a distância, do sonambulismo natural e artificial, dos efeitos psíquicos da catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão do pensamento, da fascinação, das curas instantâneas, das obsessões e possessões etc. Demonstrando que esses fenômenos repousam em leis tão naturais como as dos fenômenos elétricos e as condições normais se podem reproduzir, o Espiritismo faz derrocar o império do maravilhoso e do sobrenatural e conseguintemente a fonte da maior parte das superstições. Se faz crer na possibilidade de certas coisas consideradas por alguns como quiméricas, também impede que se creia em muitas outras cuja impossibilidade e insensatez ele demonstra.

41. O Espiritismo, longe de negar ou destruir o Evangelho, vem, ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver tudo aquilo que o Cristo disse e fez, pelas novas leis naturais que revela. Lança luz sobre os pontos obscuros de seu ensinamento, de tal sorte que aqueles para quem certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem sem esforço com o auxílio do Espiritismo, e as admitem: compreendem melhor seu alcance, e podem distinguir a verdade da alegoria; o Cristo lhes parece maior; não é mais simplesmente um filósofo, é um Messias divino.

42. Além disso, se considerarmos o poder moralizador do Espiritismo, pela finalidade que aponta a todas as ações da vida, por tornar quase tangíveis as consequências do bem e do mal; se considerarmos a força moral, a coragem e a consolação que traz nas aflições, mediante inalterável confiança no futuro; a esperança de cada um ter perto de si os seres que amou; a certeza de tornar a vê-los, e a possibilidade de confabular com eles; afinal, pela certeza de que tudo quanto se fez, tudo quanto se adquiriu em inteligência, sabedoria e moralidade, até a última hora da vida, não fica perdido, que tudo aproveita ao progresso, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo com referência ao Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito da Verdade que preside o grande movimento de regeneração, a promessa de sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, realmente, é ele o verdadeiro Consolador.(2)

43. Se a estes resultados adicionarmos a rapidez prodigiosa da propagação do Espiritismo, apesar de tudo quanto fazem para impedir esse progresso, não se poderá negar que a sua vinda seja providencial, pois que ele triunfa sobre todas as forças e toda a má vontade dos homens. A facilidade com o qual é aceito por tão grande número, e isso sem constrangimento, apenas outros meios além do poder das ideias, prova que essa doutrina responde a uma necessidade, qual seja a de crer em alguma coisa a fim de se preencher o vácuo aberto pela incredulidade. Por conseguinte, surgiu em tempo oportuno.

44. Os aflitos existem em grande número; não é de admirar, portanto, que tantas pessoas acolham uma doutrina que consola, de preferência às doutrinas que desesperam, porque é aos deserdados mais que aos felizes do mundo, que o Espiritismo se dirige. O doente vê chegar o médico com maior satisfação que aquele que tem saúde; ora, os aflitos são os doentes e o Consolador é o médico.

Vós que combateis o Espiritismo, se quereis que o abandonemos para vos seguir, dai mais e melhor do que ele; curai com maior segurança as feridas da alma. Dai mais consolação, mais alegria ao coração, esperanças mais legítimas, maiores certezas; fazei do futuro um quadro mais racional, mais sedutor; mas não penseis em derrotá-lo com a perspectiva do nada, com a alternativa das chamas do inferno ou da beatitude inútil de uma contemplação perpétua.

45. A primeira revelação foi personificada em Moisés, a segunda no Cristo, a terceira em indivíduo nenhum. As duas primeiras foram individuais, e a terceira foi coletiva; eis aí está um caráter essencial de grande importância. Ela é coletiva, no sentido de não ser feita ou dada como privilégio a pessoa alguma; ninguém, portanto, pode inculcar-se como seu profeta exclusivo; foi espalhada simultaneamente sobre a Terra a milhões de pessoas, de todas as idades e condições, desde a mais baixa até a mais alta da escala, de acordo com esta predição registrada pelo autor do Atos dos Apóstolos: “Nos últimos tempos, disse o Senhor, derramarei o meu espírito sobre toda a carne; os vossos filhos e filhas profetizarão, os mancebos terão visões e os velhos terão sonhos.” (Atos, 2:17 e 18.) Ela não proveio de nenhum culto especial, a fim de um dia servir de ponto de ligação a todos. (3)

46. As duas primeiras revelações, como fruto que são do ensino pessoal, permaneceram forçosamente localizadas, isto é, surgiram num só ponto, em torno do qual a ideia pouco a pouco se propagou; entretanto, foram necessários muitos séculos para que alcançassem os extremos do mundo, sem o ocupar inteiramente. A terceira tem isso de particularidade, que não se achando personificada em um só indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos diferentes, os quais se tornaram centros ou focos de irradiação. Multiplicando-se esses centros, seus raios se reúnem pouco a pouco, como os círculos formados por um punhado de pedras lançadas na água, de tal maneira que, em determinado tempo, acabarão por cobrir toda a superfície do globo.

Esta é uma das causas da rápida propagação da doutrina. Tivesse ela surgido em um só ponto, tivesse sido obra exclusiva de um homem, teria formado uma seita em torno dele; porém, talvez meio século decorresse antes que tivesse atingido os limites do país no qual houvesse iniciado; tal como é, depois de dez anos, ela tem suas balisas plantadas de um polo ao outro.

47. Esta circunstância, inaudita na história das doutrinas, proporciona-lhe uma força excepcional e um irresistível poder de ação; realmente, se a comprimirem num ponto, em determinado país, será materialmente impossível que a persigam em toda parte e em todos os países. Em compensação, para um lugar onde lhe embaracem a marcha, haverá mil outros em que florescerá. Ainda mais: se a ferirem num indivíduo, não poderão feri-la nos Espíritos, que são a fonte de onde ela deriva. Ora, como os Espíritos estão em toda parte e existirão para sempre, se por um acaso inadmissível, conseguissem sufocá-la em todo o globo, pouco tempo depois ela reapareceria, porque repousa sobre um fato que está na natureza e as leis da Natureza não podem ser suprimidas. Disso deveriam persuadir-se aqueles que sonham com o aniquilamento do Espiritismo. (Revista espírita, fevereiro de 1865, pág. 38, Perpetuidade do Espiritismo).

48. Disseminados os centros, poderiam entretanto permanecer ainda muito tempo isolados uns dos outros, confinados, como alguns se acham, em países longínquos. Faltava entre eles um traço de união que os pusesse em comunhão de pensamentos com seus irmãos de crença, para informá-los do que algures se fazia. Esse traço de união, que na antiguidade teria faltado ao Espiritismo, existe hoje nas publicações que vão por toda parte, condensando, sob uma forma única, concisa e metódica, o ensino proporcionado universalmente sob formas múltiplas em diversas línguas.

49. As duas primeiras revelações podiam resultar de um ensino direto; como os homens ainda não estivessem bastante adiantados a fim de concorrerem para a sua elaboração, elas teriam que ser impostas pela fé sob a autoridade da palavra do Mestre.

Notemos, entretanto, que há entre elas uma diferença bastante sensível, resultante do progresso dos costumes e das ideias, embora feitas entre o mesmo povo e no mesmo meio, porém com dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés é absoluta, despótica; ela não admite discussão e se impõe pela força a todo o povo.  A de Jesus é essencialmente conselheira; é livremente aceita e não se impõe senão pela persuasão. É controvertida, desde o tempo mesmo do seu fundador, que não desdenhava de discutir com os seus adversários.

50. A terceira revelação, vinda numa época de emancipação e de maturidade intelectual - quando a inteligência desenvolvida não se conforma a um papel passivo, quando o homem não aceita nada às cegas, mas quer saber aonde o conduzem, quer saber o porquê e o como de cada coisa — teria ela que ser ao mesmo tempo o resultado de um ensino e o fruto do trabalho, da pesquisa e do livre-exame. Os Espíritos não ensinam senão apenas o que é necessário para guiar no caminho da verdade, mas eles se abstêm de revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, verificar e submeter tudo ao cadinho da razão, deixando mesmo, muitas vezes, que adquira experiência à sua custa. Fornecem-lhe o princípio, os materiais; a ele cabe aproveitá-los e pô-los a funcionar (Item 15).

51. Como os elementos da revelação espírita foram ministrados simultaneamente em muitos pontos, a homens de todas as condições sociais e de vários graus de instrução, é evidente que as observações não podiam ser feitas em toda parte com os mesmos frutos; que as consequências a tirar, a dedução das leis que regem esta ordem de fenômenos, numa palavra, a conclusão sobre a qual deviam firmar-se as ideias, não podiam sair senão do conjunto e da correlação dos fatos. Ora, cada centro isolado, circunscrito dentro de um círculo restrito, não vendo muitas vezes senão uma ordem particular de fatos, não raro contraditórios na aparência, geralmente provindo de uma única categoria de Espíritos e, além disso, embaraçados por influências locais e pelo espírito partidário, achava-se na impossibilidade material de abranger o conjunto, e por isso mesmo, incapaz de conjugar as observações isoladas a um princípio comum. Apreciando cada um deles os fatos sob o ponto de vista dos seus conhecimentos e crenças anteriores, ou da opinião especial dos Espíritos que se manifestassem, logo teriam surgido tantas teorias e sistemas, quantos fossem os centros, todos incompletos por falta de elementos de comparação e de exame. Resumindo, cada qual se teria imobilizado na sua revelação parcial, julgando estar de posse de toda a verdade, ignorando que em cem outros locais se obtinha mais ou melhor.

52. Convém notar, além disso, que em nenhuma parte o ensino espírita foi ministrado de maneira completa; ele diz respeito a tão grande número de observações, a assuntos tão diferentes, exigindo conhecimentos e aptidões mediúnicas tão especiais, que seria impossível se achassem reunidas num mesmo ponto todas as condições necessárias. Tendo o ensino que ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho, disseminando os assuntos de estudo e de observação, como se faz em algumas fábricas, onde o desenvolvimento de um mesmo artigo é dividido em partes por diversos operários.

A revelação foi, assim, feita parcialmente, em diversos lugares e por uma multidão de intermediários. É por essa maneira que ainda prossegue, pois nem tudo foi revelado; cada centro encontra nos demais centros o complemento do que obtém; e foi o conjunto, a coordenação de todos os ensinos parciais que constituíram a Doutrina Espírita.

Era portanto necessário agrupar os fatos espalhados, para se lhes apreender a correlação, reunir os diversos documentos, as instruções dadas pelos Espíritos acerca de todos os pontos e de todos os assuntos, para as comparar, analisar, estudar-lhes as analogias e as diferenças. Surgindo as comunicações de Espíritos de todas as ordens, mais ou menos esclarecidos, era necessário apreciar o grau de confiança que a razão lhes permitia conceder, distinguir as ideias sistemáticas individuais ou isoladas, das que tinham a sanção do ensino generalizado dos Espíritos. Distinguir as utopias, das ideias práticas, afastando as que eram notoriamente desmentidas pelos dados da ciência positiva e da lógica sã. Utilizar da mesma forma os erros, as informações fornecidas pelos Espíritos, mesmo aqueles da mais baixa categoria, para conhecimento do estado do mundo invisível e formar com tudo isso um todo homogêneo.

Era necessário, em suma, um centro de elaboração, independente de qualquer ideia preconcebida, de todo preconceito sectário, resolvido a aceitar a verdade tornada evidente, embora contrária às opiniões pessoais. Tal centro foi formado por si mesmo, pela força das coisas e sem desígnio premeditado.(4)

53. Deste estado de coisas, originou-se uma dupla corrente de ideias: umas, dirigindo-se das extremidades para o centro; as outras, encaminhando-se do centro para a circunferência. Desta maneira, a doutrina caminhou rapidamente para a unidade, apesar da diversidade das fontes de onde derivou; os sistemas divergentes ruíram aos poucos, devido ao isolamento em que ficaram diante da ascensão da opinião da maioria, na qual não encontraram simpática repercussão. Desde então, estabeleceu-se uma comunhão de ideias entre os diferentes centros parciais; falando a mesma linguagem espiritual, eles se compreendem e simpatizam de um extremo a outro do mundo.

Os Espíritas sentiram-se assim mais fortes, lutaram com mais coragem, marcharam com passo mais seguro, de vez que não se acharam mais insulados, por terem sentido um ponto de apoio; um liame a prendê-los à grande família; os fenômenos de que foram testemunhas não mais lhe pareceram estranhos, anormais, contraditórios, pois puderam conjugá-los às leis gerais da harmonia, descobrindo de um golpe de vista todo o edifício e vendo em todos esse conjunto uma finalidade elevada e humanitária. (5)

Mas como saber se um princípio é ensinado em toda parte, ou se não é resultado de uma opinião individual? Os grupos isolados, não podendo saber o que se dizia alhures, era necessário que um centro reunisse todas as instruções, para fazer uma espécie de apuro das vozes e levar ao conhecimento de todos a opinião da maioria.(6)

54. Não há nenhuma ciência que tenho surgido completa do cérebro do homem; todas, sem exceção, são o produto de observações sucessivas, apoiando-se nas observações precedentes, como de um ponto conhecido para chegar ao desconhecido. Foi assim que os Espíritos procederam com o Espiritismo, porque seu ensino foi gradual; eles não abordam as questões senão à medida que os princípios sobre os quais eles devem se apoiar estejam suficientemente elaborados, e que a opinião esteja amadurecida para os assimilar. É mesmo notável que todas as vezes que os centros particulares têm procurado abordar as questões prematuras, não tem obtido senão respostas contraditórias e não concludentes. Quando, ao contrário, o momento favorável chega, o ensinamento generaliza-se e se unifica na quase totalidade dos centros.

Há, entretanto, entre a marcha do Espiritismo e a das ciências, uma diferença capital; isto é, que estas não atingiram o ponto a que chegaram senão após longos intervalos, ao passo que ao Espiritismo, foram suficientes alguns anos, senão para tingir o ponto culminante, pelo menos para recolher uma soma de observações assaz grande para constituir uma doutrina. Disso decorre que há uma inumerável multidão de Espíritos que, pela vontade de Deus, se manifestam simultaneamente, trazendo cada um o contingente de seus conhecimentos. É em resultado disso que todas as partes da Doutrina, ao invés de serem elaboradas sucessivamente durante muitos séculos, o tem sido quase simultaneamente em alguns anos, e que foi suficiente para agrupá-las e assim formar um todo.

Deus quis que fosse assim, primeiramente para que o edifício chegasse mais prontamente ao cume, e em segundo lugar, para que fosse possível, pela comparação, um controle por assim dizer imediato e permanente, da universalidade do ensino, cada parte não tendo valor e autoridade, a não ser pela conexão com o conjunto, todas se harmonizando, encontrando seu devido lugar e chegando cada uma a seu tempo.

Não confiando a um só Espírito o cuidado de promulgação da doutrina, Deus quis que tanto o menor como o maior entre os Espíritos, como entre os homens, trouxesse a sua pedra para o edifício, a fim de estabelecer entre eles um laço de solidariedade cooperadora, o que faltou a todas as doutrinas oriundas de uma fonte única.

De outro lado, cada Espírito, assim como cada homem, não possuindo senão uma soma limitada de conhecimentos, individualmente, seria incapaz de tratar ex professo das inúmeras questões referentes ao Espiritismo. Eis, igualmente, porque a doutrina, para cumprir a vontade do Criador, não poderia ser obra de um só Espírito nem de um só médium; ela não poderia emergir senão da coletividade dos trabalhos controlados uns pelos outros.(7)

55. Um último caráter da revelação espírita e que ressalta as condições mesmas nas quais ela se produz é que, apoiando-se sobre os fatos, ela é e não pode deixar  de ser senão essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Pela sua essência, ela contrai aliança com a ciência, a qual, sendo a exposição das leis da natureza numa certa ordem de fatos, não pode ser contrária a vontade de Deus,  o autor dessas leis. As descobertas da ciência glorificam Deus, em lugar de o rebaixar; elas não destroem senão o que os homens edificaram sobre ideias falsas que eles fizeram de Deus.

O Espiritismo não estabelece, portanto, como princípio absoluto, senão aquilo que está demonstrado com evidência, ou o que ressalta logicamente da observação. Ligado a todos os ramos da economia social, aos quais empresta apoio de suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que elas sejam, elevadas ao estado de verdades práticas e saídas do domínio da utopia sem o que ele se suicidaria; deixando de ser o que é, desmentiria sua origem e sua finalidade. O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado, porque se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre um certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará.(8)

56. Qual a utilidade da doutrina moral dos Espíritos, uma vez que ela não é senão a moral do Cristo? O homem tem necessidade de uma revelação, e não pode encontrar em si mesmo tudo o que lhe é necessário para se conduzir?

Do ponto de vista moral, Deus, sem dúvida, deu ao homem um guia em sua consciência, que lhe diz: “Não faças a outrem aquilo que não queres que te façam”. A moral natural está inscrita no coração dos homens, mas todos a sabem ler? Não têm eles jamais desprezado seus sábios preceitos? Que fizeram eles da moral do Cristo? Como a praticam aqueles mesmos que a ensinam? Não se tornou ela uma letra morta, uma bela teoria, boa para os outros e não para si? Reprovareis a um pai o fato de repetir dez vezes, cem vezes, as mesmas instruções aos seus filhos se eles não as aproveitam? Por que haveria Deus de fazer menos que um pai de família? Por que não enviaria, de tempos a tempos, mensageiros especiais aos homens, encarregados de chamá-los aos seus deveres e levá-los ao bom caminho, quando deste se afastam; de abrir os olhos da inteligência àqueles que os têm fechados, como os homens adiantados enviam missionários aos selvagens e aos bárbaros?

Os Espíritos não ensinam outra moral senão a do Cristo, pela razão de que não há outra melhor. Mas, então, por que o seu ensinamento, se ensinam aquilo que já sabemos? Poder-se-ia dizer o mesmo da moral do Cristo, que foi ensinada quinhentos anos antes por Sócrates e Platão em termos quase idênticos, assim como todos os moralistas que repetem a mesma coisa em todos os tons e em todas as formas. Pois bem! Os Espíritos vêm muito simplesmente aumentar o número dos moralistas, com a diferença de que, manifestando-se em toda parte, eles se fazem ouvir na choupana como no palácio, tanto aos ignorantes como às pessoas instruídas.

O que o ensinamento dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo é o conhecimento dos princípios que unem os mortos e os vivos, os quais completam as noções vagas sobre a alma, seu passado e seu futuro, com o que, por sanção à sua doutrina, são as próprias leis da natureza. Com o auxílio das novas luzes trazidas pelo Espiritismo e pelos Espíritos, o homem compreende a solidariedade que une todos os seres; a caridade e a fraternidade se tornam uma necessidade social; ele faz por convicção o que não fazia senão por dever, e o faz melhor.

Agora que os homens praticarão a moral do Cristo, de agora em diante somente eles poderão dizer se não necessitarão mais de moralistas, encarnados ou desencarnados; entretanto, Deus também não enviará mais agentes com essa finalidade.

57. Uma das perguntas mais importantes entre as que são formuladas no rosto deste capítulo é esta: Qual a autoridade da revelação espírita, pois que ela emana de seres cujas luzes são limitadas e que não são infalíveis?

A objeção seria válida se essa revelação não consistisse senão no ensino dos Espíritos, se devêssemos obtê-la exclusivamente através deles e aceitá-la de olhos fechados. Ela seria sem valor desde o instante em que o homem lhe traz o concurso de sua inteligência e de sua opinião; que os Espíritos se limitam a apresentar, por via de deduções, o mesmo que ele pode extrair da observação dos fatos. Ou, de outro modo, as manifestações e suas inumeráveis variedade são fatos; o homem as estuda e pesquisa a lei que as rege; neste trabalho é ajudado pelos Espíritos de todas as ordens, os quais são antes colaboradores que reveladores no sentido comum da palavra. Ele submete suas expressões ao controle da lógica e do bom senso. Por esta maneira, ele se beneficia com os conhecimentos especiais que tem, devido a sua posição, sem abdicar do uso de sua própria razão.

Sendo os Espíritos apenas as almas dos homens, ao nos comunicarmos com eles nós não saímos da humanidade, o que constitui uma circunstância capital a ser considerada. Por conseguinte, os homens de gênio, que têm sido as bandeiras da humanidade, saíram do mundo dos Espíritos, tal como ali reentraram,  ao deixar a Terra. Desde que os Espíritos podem comunicar-se com os homens, estes mesmos gênios lhes podem dar instruções sob a forma espiritual, como faziam sob a forma corporal; eles podem nos instruir após sua morte, como o faziam enquanto viviam; são invisíveis em vez de visíveis; eis toda a diferença. A experiência e o saber que possuíam não devem ser menores, e se a palavra deles, enquanto eram homens, tinha autoridade, ela não deve ser menor pelo fato de se acharem no mundo dos Espíritos.

58. Porém não são somente os Espíritos superiores que se manifestam; fazem-no também os Espíritos de todas as ordens, e tal era necessário para nos iniciar no conhecimento verdadeiro do mundo espiritual, que assim nos era revelado sob todas as suas facetas: por este meio, as relações entre o mundo visível e o mundo invisível são mais íntimas e sua conexão é mais evidente. Vemos, de maneira mais clara, de onde viemos e para onde vamos. Tal é a finalidade essencial dessas manifestações. Todos os Espíritos, qualquer que seja o grau que atingiram, nos ensinam, pois, qualquer coisa; mas como eles são mais ou menos esclarecidos, toca-nos discernir o que há neles de bom ou de mau, e extrair a vantagem que possam ter seus ensinamentos. Todos, quaisquer que sejam, podem ensinar-nos ou nos revelar coisas que ignorávamos e que sem eles nunca saberíamos.

59. Os grandes Espíritos encarnados são individualidades poderosas, sem contradita; mas a ação deles é restrita, e necessariamente lenta a propagação de seus ensinamentos. Se um só dentre eles, mesmo que fosse Elias, Moisés, Sócrates ou Platão, que tivesse vindo nesses últimos tempos revelar aos homens o estado do mundo espiritual, quem teria provado a veracidade de suas afirmativas, nestes tempos de ceticismo? Não teria ele sido considerado um sonhador, ou um utopista? E mesmo admitindo que ele tivesse sido verdadeiro, de forma absoluta, séculos teriam transcorrido que suas ideias fossem aceitas pelas massas. Deus, em sua sabedoria, não quis que assim acontecesse; quis que o ensino fosse dado pelos próprios Espíritos, e não pelos encarnados, a fim de que convencê-los de sua existência, e que tal tivesse lugar simultaneamente por toda a terra, seja para propagar estes ensinamentos mais rapidamente, seja para que se encontrasse na coincidência dos ensinamentos os meios de se convencer a si mesmo.

60. Os Espíritos não vieram livrar o homem do trabalho, do estudo e das pesquisas, nem lhe trazem nenhuma ciência integralmente formulada. Deixam-no entregue a seus próprios esforços, naquilo que ele pode encontrar por si mesmo; tal é o que hoje os espíritas sabem perfeitamente. Já de há muito tempo a experiência tem demonstrado o erro da opinião que atribuía aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria, e que bastaria dirigir-se ao primeiro Espírito comunicante para conhecer todas as coisas. Saídos da humanidade, os Espíritos são uma de suas faces. Tal como sobre a Terra, entre eles há superiores e vulgares; muitos deles, pois, científica e filosoficamente, sabem menos do que certos homens; eles dizem o que sabem, nem menos, nem mais. Tal como entre os homens, os mais adiantados nos podem ensinar acerca de maior número de assuntos, podem dar-nos conselhos mais judiciosos que os atrasados. Pedir conselhos aos Espíritos não é dirigir-se à potências sobrenaturais, mas sim a seus iguais, àquelas mesmas pessoas a quem nos teríamos dirigido em vida; a seus pais, a seus amigos, ou a indivíduos mais esclarecidos que nós. Eis, pois, o que é importante de persuadir-se, sendo este um ponto ignorados por aqueles que, não havendo estudado o Espiritismo, fazem para si mesmos uma ideia completamente falsa sobre a natureza do mundo dos Espíritos e das relações de além-túmulo.

61. Qual é, pois, a utilidade dessas manifestações, ou, se assim quisermos, desta revelação, se é que os Espíritos não sabem mais do que nós, ou se não nos dizem tudo o que sabem?

Em primeiro lugar, como já dissemos, eles se abstêm de nos aquilo que podemos adquirir pelo trabalho;. Em segundo lugar, há coisas que não lhes é permitido revelar, porque nosso grau de adiantamento não o comporta. Porém, à parte disso, as condições de sua nova existência ampliam o círculo de suas percepções, ele veem o que não viam quando estavam sobre a Terra; libertados dos entraves da matéria, dispensados dos cuidados da vida corpórea, julgam as coisas de um ponto de vista mais elevado, e por isso mesmo, de modo mais são; sua perspicácia abarca um horizonte mais vasto; compreendem seus erros, retificam suas ideias e se livram dos preconceitos humanos.

É nisto que consiste a superioridade dos Espíritos sobre a humanidade corporal, e que seus conselhos podem ser mais judiciosos e mais desinteressados que os dos encarnados, na proporção de seu grau de adiantamento. Por outro lado, o meio no qual eles se encontram lhes permite iniciar-nos nas coisas da vida futura, as quais ignoramos, e que não podemos aprender no lugar em que estamos. Até esta data, o homem não havia criado senão hipóteses sobre o futuro; eis o motivo pelo qual suas crenças a respeito de tal assunto foram divididas em sistemas tão numerosos e tão divergentes, desde o negativismo até as fantásticas do inferno e do paraíso. Hoje, são as testemunhas oculares, os próprios atores da vida de além-túmulo, que nos veem dizer o que há ali, e isso só eles o poderiam fazer. Portanto, estas manifestações serviram para nos fazer conhecer o mundo invisível que nos rodeia e do qual não suspeitávamos, e mesmo este conhecimento isolado seria de uma importância capital, se quiséssemos admitir que os Espíritos fossem incapazes de nos ensinar mais alguma coisa.

Se fordes a um país que seja novo pra vós, recusareis as informações do mais humilde camponês que encontrardes? Deixareis de interrogá-lo sobre o estado dos caminhos, simplesmente por ser ele um campônio? Certamente não esperareis dele esclarecimentos de alcance muito elevado, porém do que esteja em sua esfera, ele poderá, sob certos pontos, vos ensinar melhor do que um sábio que não conheça de perto o terreno. Podereis deduzir de suas indicações, consequências que ele mesmo não poderia alcançar. Porém ele não terá sido um instrumento menos útil para vossas observações, mesmo que não houvesse servido senão para vos fazer conhecer os costumes dos camponeses. O mesmo se dá com as nossas relações com os Espíritos, entre os quais o menor deles pode servir para nos ensinar alguma coisa.

62. Uma comparação vulgar ilustrará ainda melhor a compreensão do assunto.

Um navio carregado de emigrantes parte para um país longínquo, conduzindo homens de todas as condições, parentes e amigos dos que ficam. Vem-se então a saber que tal navio naufragou. Nenhum traço ficou, nenhuma notícia sobre sua sorte é distribuída. Conclui-se que todos os viajantes pereceram, e o luto se estende a todas as famílias. Entretanto, a equipagem toda, sem exceção de um homem sequer, aportou a uma terra desconhecida, abundante e fértil, onde todos vivem felizes sob um céu clemente; porém, isto é ignorado pelos que ficaram. Eis que certo dia outro navio aborda a mesma terra; ali encontra todos supostos náufragos, são e salvos. A feliz notícia se propaga com a rapidez do relâmpago., e cada um diz: “Nossos amigos não estão perdidos!”, e eles rendem graças a Deus. Não podem ver-se, mas correspondem-se; trocam provas de afeto, e eis que a alegria sucede a tristeza.

Tal a imagem da vida terrestre e da vida de além-túmulo, antes e depois da revelação moderna. Esta, tal como o segundo navio, nos traz a boa-nova da sobrevivência dos que nos são caros, e a certeza de nos reunirmos um dia. A dúvida quanto a seu destino e quanto ao nosso não existe mais; o desencorajamento se desfaz ante a esperança.

Entretanto, outros resultados vêm fecundar esta revelação. Deus permitiu que se erguesse o véu que separava o mundo visível do invisível, considerando que a humanidade está amadurecida para penetrar no mistério de seu destino e para contemplar a sangue-frio novas maravilhas. As manifestações não tem nada de extra-humano, é a humanidade espiritual que vem conversar com a humanidade corporal e lhe dizer:

“Nós existimos, logo, o nada não existe. Eis o que somos, e o que sereis; o futuro vos pertence, assim como a nós. Vosso caminho estava nas trevas, e viemos clareá-lo, e vos abrir as vistas; não tínheis direção, indo ao acaso, e nós vos apontamos o objetivo. A vida terrestre era tudo para vós, porque nada era por vós percebido, do lado de lá. Nós viemos informar-vos, mostrando-vos a vida espiritual: a vida terrestre nada é. A vossa visão parava no túmulo, e nós vos mostramos, além dele, um horizonte esplêndido. Ignoráveis por que sofríeis sobre a terra; agora, no sofrimento, enxergais a justiça de Deus; o bem parecia não produzir frutos, e de agora em diante terá um objetivo e será uma necessidade. A fraternidade não era senão uma bela teoria, e agora assenta-se sobre uma lei da Natureza. Sob o império da crença de que tudo acaba com a morte, a imensidade é vazia, o egoísmo reina entre vós como senhor e sua palavra de ordem é: ‘Cada um por si.’ Com a certeza do futuro, os espaços se povoam ao infinito, o vácuo e a solidão não existem em parte alguma; a solidariedade liga todos os seres, de um lado e de outro do túmulo. É o reino da caridade com a divisa: ‘Um por todos e todos por um.’ Enfim, alcançado o termo da vida, dizíeis um eterno adeus aos que vos são caros, enquanto que agora, lhes direis: ‘Até à vista!’”

Tais são, em resumo, os resultados da nova revelação; ela veio preencher o vácuo aberto pela incredulidade, reerguer os ânimos abatidos pela dúvida ou pela perspectiva do aniquilamento e dar a todas as coisas a sua razão de ser. Será este um resultado sem importância, porque os Espíritos não vêm resolver os problemas da ciência, dar saber aos ignorantes e aos preguiçosos, e o meios de enriquecer sem esforço? Entretanto, nem só para a vida futura serão os frutos que o homem deve retirar daí; ele os fruirá na Terra, pela transformação que estas novas crenças necessariamente operarão sobre o seu caráter, seus gostos, suas tendências e, por consequência, sobre os seus hábitos e relações sociais. Pondo um fim ao reinado do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o reinado do bem, que é o reino de Deus, anunciado pelo Cristo.(9)

(1) A palavra elemento não é tomada aqui no sentido de corpo simples, elementar, de moléculas primitivas, mas no sentido de parte constitutiva de um todo. Neste sentido, pode dizer-se que o elemento espiritual tem parte ativa na economia do universo, tal como se diz que o elemento civil e o elemento militar figuram na estatística de uma população; que o elemento religioso entra na educação; que na Argélia há o elemento árabe e o elemento europeu, etc.

(2) Muitos pais de família deploram a morte prematura de filhos para cuja educação fizeram grandes sacrifícios, e dizem a si mesmos que tudo isso é em pura perda. Com o Espiritismo não se lastimam por tais sacrifícios e estariam prontos a fazê-los, mesmo com a certeza de ver morrer seus filhos, pois sabem que se estes não aproveitam essa educação no presente, ela servirá de princípio para o seu progresso como Espíritos; pois, aquilo que adquiriram numa nova existência - já que voltarão - lhes servirá como bagagem intelectual, que os tornará mais aptos a adquirir novos conhecimentos. Tais são estes meninos que ao nascer trazem ideias inatas, e que, por assim dizer, sabem sem ter necessidade de aprender. Se os pais não têm a satisfação imediata de ver seu filhos tirarem proveito dessa educação, certamente terão tal satisfação, seja como Espíritos, seja como homens. Talvez eles sejam novamente os pais destes mesmos filhos, de quem se dirá que foram bem dotados pela natureza, mas que no entanto, devem suas aptidões a uma educação precedente; assim, também, se os filhos se desenvolvem mal como resultado da negligência dos pais, estes podem ter que sofrer mais tarde pelos aborrecimentos e tristezas que tais filhos lhes suscitarem numa nova existência. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, item 21, Mortes prematuras.)

(3) Nosso papel pessoal, no grande movimento de ideias que se prepara pela ação do Espiritismo, e que começa a se operar, é o do observador atento que estuda os fatos para pesquisar sua causa e deduzir-lhe as consequências. Temos confrontado todos os que fatos que nos têm sido possível reunir; temos comparado e comentado as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos do globo, e depois temos coordenado o seu conjunto, metodicamente; numa palavra, temos estudado e dado a público o fruto de nossas pesquisas, sem atribuir a nossos trabalhos outro valor senão o de uma obra filosófica, deduzida da observação e da experiência, sem jamais nos colocarmos como chefe de doutrina, nem ter pretendido impor nossas ideias a ninguém. Ao publicá-las, usamos um direito comum, e os  que as têm aceito o fazem livremente. Se essas ideias têm encontrado numerosas simpatias, é que elas tem tido o mérito de dar respostas às aspirações do grande número, e disso não nos poderíamos nos vangloriar, pois tal não nos pertence. Nosso maior mérito é o da perseverança e do devotamento à causa que abraçamos. Em tudo isso, temos feito o que outros poderiam fazer como nós; é por isso que jamais tivemos a pretensão de nos crermos um profeta, ou um messias, e ainda menos de nos darmos como tal.

(4) O livro dos espíritos, a primeira obra que fez entrever o Espiritismo no caminho filosófico, pela dedução das consequências morais dos fatos, que abordou toda as partes da Doutrina, tocando nas questões mais importantes que levantou. Desde a sua aparição, foi o ponto de encontro em cuja direção convergiram espontaneamente os trabalhos individuais. É notório que da publicação desse livro data a era do Espiritismo filosófico, o qual até então permanecia no domínio das experiências de curiosidade. Se esse livro conquistou as simpatias da maioria, é que ele era a expressão dos sentimentos dessa mesma maioria, e que dava uma resposta às suas aspirações. Além disso, cada um ali encontrava a confirmação e uma explicação racional do que obtinha em particular. Se ele tivesse estado em desacordo com o ensino geral dos Espíritos, não teria merecido nenhum crédito, e prontamente cairia no ouvido. Ora, quem recebeu as adesões? Não foi o homem, que nada é por si mesmo, sendo apenas uma engrenagem de trabalho que morre e desaparece, mas sim a ideia que não perece quando emana de uma fonte superior ao homem.

Esta concentração espontânea das forças esparsas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único do mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, no qual se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que foram originados da Doutrina, dos resultados morais, dos devotamentos e fracassos, arquivo precioso para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas sobre peça autênticas. Na presença desses testemunhos irrecusáveis, o que virão a ser, a seu tempo oportuno, todas as falsas alegações, as difamações da inveja e do ciúme?

(5) Um testemunho significativo, tão notável quanto tocante, dessa comunhão de pensamento que se estabelece entre os Espíritas pela conformidade das crenças, são os pedidos de orações que nos chegam dos países mais distantes, desde o Peru até as extremidades da Ásia, provenientes de pessoas de religiões e nacionalidades diversas, as quais nunca vimos. Não é o prelúdio da grande unificação que se prepara? A prova das raízes profundas que por toda parte toma o Espiritismo?

É notável que, de todos os grupos que se formaram com a intenção premeditada de estabelecer cisão com a proclamação de princípios divergentes, do mesmo modo que de todos quantos, apoiando-se em razões de amor-próprio ou outras quaisquer, para não parecer que se submetem à lei comum, se consideraram fortes o bastante para caminhar sozinhos, possuidores de luzes bastante para não terem necessidade de conselhos, nenhum chegou a constituir uma ideia que fosse preponderante e viável. Todos se extinguiram e vegetaram na sombra. Como poderia ser de outra forma, desde que, para se distinguir, ao invés de se esforçarem por proporcionar maior soma de satisfações, rejeitavam princípios da Doutrina, precisamente aqueles que fazem dela o mais poderoso atrativo; o que ela tem de mais consolador, de mais encorajador e de mais racional? Tivessem eles compreendido o poder dos elementos morais que constituíram a sua unidade, não se teriam acalentado numa ilusão quimérica. Porém, tomando o seu pequeno círculo pelo universo, não viram em seus aderentes senão uma camarilha que pudesse facilmente ser derrubada por outra contrária. Era equivocar-se de modo estranho sobre os caracteres essenciais da Doutrina Espírita, e esse erro nada podia trazer senão decepções; em vez de romper a unidade, romperam o laço que lhes poderia dar a força e a vida. (Veja-se: Revista espírita, abril de 1866: O Espiritismo sem os Espíritos, O Espiritismo independente.)

(6) Tal é o objeto de nossas publicações, que se podem ser consideradas como resultado desse trabalho de purificação. Todas as opiniões são ali discutidas, mas as questões não são erigidas em princípios, senão depois de haverem recebido a consagração de todos os pontos de comprovações, os quais são os únicos que lhes podem dar a força de lei, e permitir afirmações. Eis porque não preconizamos de modo superficial nenhuma doutrina, e é nisso exatamente que a doutrina, decorrendo do ensino geral, não é o produto de um sistema preconcebido; igualmente, é isso que tem constituído sua força e assegura seu futuro.

(7) Ver em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", item II da Introdução e a Revista Espírita, abril de 1864, pág. 90: "Autoridade da Doutrina Espírita. Controle universal do ensino dos Espíritos".

(8) Diante das declarações tão nítidas e tão categóricas como as contidas neste capítulo, caem odas as alegações de tendência ao absolutismo e à autocracia dos príncipes, todas as falsas afirmações que pessoas prevenidas e mal informadas prestam à doutrina. Tais declarações, aliás, não são novas; nós a temos repetido com frequência em nossos escritos, para não deixar nenhuma dúvida quanto a tais comentários. Por outro lado, elas nos indicam nosso verdadeiro papel, o único que ambicionamos: o de trabalhar.

(9) O uso do artigo "o" antes da palavra Cristo (originada do grego, Christós, ungido), empregado no sentido absoluto, é mais correto, visto que essa palavra não é o nome de Messias de Nazaré, mas sim uma qualidade considerada substantivamente. Dir-se-á pois: Jesus era Cristo; era o Cristo anunciado; a morte do Cristo e não de Cristo, ao passo que se diz: a morte de Jesus e não do Jesus. Em Jesus Cristo as duas palavras reunidas tomam um só nome próprio. É a mesma razão que se diz: O Buda Gautama adquiriu a dignidade de Buda por suas virtudes e suas austeridades; a vida do Buda, como se diz: exército do Faraó; Henrique IV era rei; o título de rei; a morte do rei, e não de rei.

KARDEC, A. Caracteres da Revolução Espírita. In: A Gênese. São Paulo: IDE. Cap. 1

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Augusto Eric Auad é o idealizador do Projeto Psicologia do Espírito, escritor, pesquisador, psicólogo em formação e autor do livro "Deus pra quê? Uma reflexão sobre a fé e o autoconhecimento".