;
Este é um ambiente dedicado ao estudo da consciência em seus mais variados estágios de evolução e, principalmente, no estágio em que adquirimos a possibilidade de nos manifestar na forma humana. Por isso, decidimos dedicar nossa atual reencarnação para aprofundarmos o nosso autoconhecimento e ajudarmos outros irmãos que também necessitam de esclarecimento, e assim nos tornarmos cada vez mais conscientes de nós mesmos, de nossa bagagem evolutiva, adquirindo mais conhecimentos e experiências através dos quais possamos construir as “sinapses” capazes de nos “revelar” novas realidades, ou melhor, de nos revelar a verdadeira realidade, abandonando as ilusões a que estamos fixados por tanto tempo.
Ho'Oponopono - Oração Original'Divino Criador, Pai, Mãe, Filho, todos em Um. Se eu, minha família, meus parentes e antepassados, ofendemos sua família, parentes e antepassados, em pensamentos, fatos ou ações, desde o início de nossa criação até o presente, nós pedimos o seu perdão. Deixe que isso se limpe, purifique, libere e corte todas as memórias, bloqueios, energias e vibrações negativas. Transmute essas energias indesejáveis em pura luz e assim é. Para limpar o meu subconsciente de toda carga emocional armazenada nele, digo um e outra vez, durante o meu dia, as palavras chave do HO’OPONOPONO: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Declaro-me em paz com todas as pessoas da Terra e com quem tenho dívidas pendentes. Por esse instante e em seu tempo, por tudo o que não me agrada em minha vida presente: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Eu libero todos aqueles de quem eu acredito estar recebendo danos e maus tratos, porque simplesmente me devolvem o que fiz a eles antes, em alguma vida passada: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Ainda que me seja difícil perdoar alguém, sou eu que pede perdão a esse alguém agora. Por esse instante, em todo o tempo, por tudo o que não me agrada em minha vida presente: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Por esse espaço sagrado que habito dia a dia e com o qual não me sinto confortável: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Pelas difíceis relações às quais só guardo lembranças ruins: Eu sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Por tudo o que não me agrada na minha vida presente, na minha vida passada, no meu trabalho e o que está ao meu redor, Divindade, limpa em mim o que está contribuindo para minha escassez: Sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Se meu corpo físico experimenta ansiedade, preocupação, culpa, medo, tristeza, dor, pronuncio e penso: “Minhas memórias, eu te amo”. Estou agradecido pela oportunidade de libertar vocês e a mim. Sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato. Neste momento, afirmo que te amo. Penso na minha saúde emocional e na de todos os meus seres amados. Te amo. Para minhas necessidades e para aprender a esperar sem ansiedade, sem medo, reconheço as minhas memórias aqui neste momento: Sinto muito, eu te amo. Minha contribuição para a cura da Terra: Amada Mãe Terra, que é quem Eu Sou: Se eu, a minha família, os meus parentes e antepassados te maltratamos com pensamentos, palavras, fatos e ações, desde o início da nossa criação até o presente, eu peço o teu perdão. Deixa que isso se limpe e purifique, libere e corte todas as memórias, bloqueios, energias e vibrações negativas. Transmute essas energias indesejáveis em pura luz e assim é. Para concluir, digo que esta oração é minha porta, minha contribuição à tua saúde emocional, que é a mesma que a minha. Então esteja bem e, na medida em que vai se curando, eu te digo que: Eu sinto muito pelas memórias de dor que compartilho com você. Te peço perdão por unir meu caminho ao seu para a cura, te agradeço por estar aqui em mim. Eu te amo por ser quem você é.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Fonte Viva, Chico Xavier, Emmanuel (Espírito), Quem Serve, Prossegue

FONTE VIVA

CAPÍTULO 82 – QUEM SERVE, PROSSEGUE

“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir.” – Jesus. (Marcos, 10:45.)

A Natureza, em toda parte, é um laboratório divino que elege o espírito de serviço por processo normal de evolução. 

Os olhos atilados observam a cooperação e o auxílio nas mais comezinhas manifestações dos reinos inferiores.

A cova serve à semente. A semente enriquecerá o homem.

O vento ajuda as flores, permutando-lhes os princípios de vida. As flores produzirão frutos abençoados.

Os rios confiam-se ao mar. O mar faz a nuvem fecundante.

Por manter a vida humana, no estágio em que se encontra, milhares de animais morrem na Terra, de hora a hora, dando carne e sangue a benefício dos homens.

Infere-se de semelhante luta que o serviço é o preço da caminhada libertadora ou santificante.

A pessoa que se habitua a ser invariavelmente servida em todas as situações, não sabe agir sozinha em situação alguma.

A criatura que serve pelo prazer de ser útil progride sempre e encontra mil recursos dentro de si mesma, na solução de todos os problemas.

A primeira cristaliza-se.

A segunda desenvolve-se.

Quem reclama excessivamente dos outros, por não estimar a movimentação própria na satisfação de necessidades comuns, acaba por escravizar-se aos servidores, estragando o dia quando não encontra alguém que lhe ponha a mesa. Quem aprende a servir, contudo, sabe reduzir todos os embaraços da senda, descobrindo trilhos novos.

Aprendiz do Evangelho que não improvisa a alegria de auxiliar os semelhantes permanece muito longe do verdadeiro discipulado, porquanto, companheiro fiel da Boa Nova, está informado de que Jesus veio para servir e desvela-se, a benefício de todos, até ao fim da luta.

Se há mais alegria em dar que em receber, há mais felicidade em servir que em ser servido.

Quem serve, prossegue...

Xavier, F. C.; Emmanuel (Espírito). Fonte Viva: Quem Serve, Prossegue, Capítulo 82

Filosofia Espírita, João Nunes Maia, Miramez (Espírito), A Alma do Mundo

FILOSOFIA ESPÍRITA

CAPÍTULO 42 - ALMA DO MUNDO

0144/LE

Certamente que tudo que existe, tudo onde se nota uma forma, tem algo que o dirige, como sendo a inteligência. Podemos citar como exemplo a mitologia, mais acentuadamente da Grécia e de Roma, onde se cultuavam vários deuses, na divisão da própria natureza: o deus do vinho, o deus da lavoura, o deus das águas, o deus dos ventos, o deus das matas, o deus do amor etc.

São quase intermináveis o número dos deuses nas divisões da Terra, e os grandes místicos tinham como alma da terra um deus. Não é como muitos queiram pensar, que existe um Espírito incorporado nessas regiões ou nessas formas, como se encontra no corpo humano, no entanto, Espíritos abnegados estão presentes em todos esses departamentos, comandando-os para maior harmonia da natureza, em nome do Criador, sob a direção de Nosso Senhor Jesus Cristo, no que se refere ao planeta onde estagiamos.

Não podemos pensar que existe alguma coisa no universo sem a proteção do Criador; tudo está sendo vigiado dentro da justiça, sob a égide do Amor. Se quiseres, podes dizer que a alma do mundo é o fluido universal que a tudo interpenetra com a maior facilidade, desde o átomo até os mundos e desses a toda a criação interminável de deus. Ele sensibiliza a matéria para que essa obedeça à vontade espiritual de quem a comanda. Podemos chamar a essa força energética do mundo, de hálito divino.

Em se tratando da vegetação do planeta Terra, existe um Espírito encarregado, altamente consciente dos seus deveres, que responde sobre esse departamento, onde tem operações complicadas sob seu comando. Sob sua regência, encontram-se falanges e falanges de Espíritos espalhados por toda a Terra, operando sob suas benéficas ordens. Assim ocorre em todas as outras divisões. Eis aí a alma das matas, que assiste e vigia tudo que se passa através dos operários do Bem. Assim, também, com relação á Medicina, à Psicologia, ao Direito, à Sociologia, à Política, e mesmo a Religião; cada divisão dessas tem um Espírito que a dirige e sustenta, usando intermináveis agrupamentos de outros Espíritos preparados para tal evento. Existem ainda inumeráveis escolas no mundo espiritual, para preparação destas entidades que se dispõem a trabalhar para o progresso das coisas e de si mesmas.

Eis aí como Deus, o Deus único de toda a Criação, vigia, instrui e ama a tudo que fez, com a Sua incomparável paternidade. Podemos dizer que Cristo é a alma do mundo, pois, sendo diretor do planeta, Ele o usa como corpo ciclópico, onde bilhões de almas trabalham em todas as direções, como sendo uma grande escola de Deus para a preparação dos Espíritos em ascensão, onde o processo é uma força do próprio Criador. Não existe confusão nas leis de Deus; em tudo canta a harmonia na mais perfeita síntese do amor, do elemento primitivo até a extensão infinita da criação da Grande Luz Inextinguível.

Maia, J. N.; Miramez (Espírito). Filosofia Espírita: A Alma do Mundo, Vol. 3, Cap. 42

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Léon Denis, O Critério da Doutrina dos Espíritos

O PROBLEMA DO SER, DO DESTINO E DA DOR

PRIMEIRA PARTE - O PROBLEMA DO SER

II - O CRITÉRIO DA DOUTRINA DOS ESPÍRITOS

O Espiritualismo moderno baseia-se num completo conjunto de fatos. Uns, simplesmente físicos, revelam-nos a existência e o modo de ação de forças por muito tempo desconhecidas; outros têm um caráter inteligente. Tais são: a escrita direta ou automática, a tiptologia, os discursos pronunciados em transe ou por incorporação. Todas estas manifestações já passamos em revista, analisando-as, noutra parte. Vimos que são acompanhadas, frequentes vezes, de sinais, de provas que estabelecem a identidade e a intervenção de almas humanas que viveram na Terra e às quais a morte deu a liberdade. 

Foi por meio desses fenômenos que os Espíritos espalharam os seus ensinamentos no mundo e esses ensinamentos foram, como veremos, confirmados em muitos pontos pela experiência. 

O novo espiritualismo dirige-se, pois, conjuntamente, aos sentidos e à inteligência. Experimental, quando estuda os fenômenos que lhe servem de base; racional, quando verifica os ensinamentos que deles derivam, e constitui um instrumento poderoso para a indagação da verdade, pois que pode servir simultaneamente em todos os domínios do conhecimento. 

As revelações dos Espíritos, dizíamos, são confirmadas pela experiência. Eles ensinaram-nos teoricamente e demonstraram praticamente, desde 1850, a existência de forças imponderáveis, dando-lhes o nome de fluidos, que a Ciência rejeitava então a priori. Depois, Sir W. Crookes, entre os sábios que gozam de grande autoridade, foi o primeiro a verificar a realidade dessas forças e a Ciência atual, dia a dia, vai reconhecendo a sua importância e variedade, graças às descobertas célebres de Roentgen, Hertz, Becquerel, Curie, G. Le Bon, etc. 

Os Espíritos afirmavam e demonstravam a ação possível da alma sobre a alma, em todas as distâncias, sem o auxílio dos órgãos. Não obstante, essa ordem de fatos levantava oposição e incredulidade. 

Ora, os fenômenos da telepatia, da sugestão mental, da transmissão do pensamento, observados e provocados hoje em todos os meios, vieram aos milhares, confirmar essas revelações. 

Os Espíritos ensinavam a preexistência, a sobrevivência, as vidas sucessivas da alma. E eis que as experiências de F. Colavida, E. Marata, as do Coronel de Rochas, as minhas, etc. estabeleceram que não somente a lembrança das menores particularidades da vida atual até a mais tenra infância, mas também a das vidas anteriores estão gravadas nos recônditos da consciência. Um passado inteiro, velado no estado de vigília, reaparece, revive no estado de transe. Com efeito, essa rememoração pôde ser reconstituída num certo número de pacientes adormecidos, como mais tarde o estabeleceremos, quando mais especialmente tratarmos dessa questão.

Vê-se, pois, que o Espiritualismo moderno não pode, a exemplo das antigas doutrinas espiritualistas, ser considerado como pura concepção metafísica. Apresenta-se com caráter mui diverso e corresponde às exigências de uma geração educada na escola do criticismo e do racionalismo, a qual os exageros de um misticismo mórbido e agonizante tornaram desconfiada.

Hoje, já não basta crer; quer-se saber. Nenhuma concepção filosófica ou moral tem probabilidade de triunfar se não tiver por base uma demonstração que seja, ao mesmo tempo, lógica, matemática e positiva e se, além disso, não a coroar uma sanção que satisfaça a todos os nossos instintos de justiça.

"Se alguém, disse Leibniz, quisesse escrever como matemático sobre filosofia e moral, poderia, sem obstáculo, fazê-lo com rigor.” 

Mas, acrescenta Leibniz: “Raras vezes tem sido isso tentado e, ainda menos, com bom resultado.”

Pode-se observar que estas condições foram perfeitamente preenchidas por Allan Kardec na magistral exposição por ele feita em O Livro dos Espíritos. Esse livro é o resultado de um trabalho imenso de classificação, coordenação e eliminação, que teve por base milhões de comunicações, de mensagens, provenientes de origens diversas, desconhecidas umas das outras, obtidas em todos os pontos do mundo e que o eminente compilador reuniu depois de se ter certificado da sua autenticidade. Tendo o cuidado de pôr de parte as opiniões isoladas, os testemunhos suspeitos, conservou somente os pontos em que as afirmações eram concordes. 

Falta muito para que fique terminado esse trabalho, que, desde a morte do grande iniciador, não sofreu interrupção. Já possuímos uma síntese poderosa, cujas linhas principais Kardec traçou e que os herdeiros do seu pensamento se esforçam por desenvolver com o concurso do invisível. Cada um traz o seu grão de areia para o edifício comum, para esse edifício cujos fundamentos a experimentação científica torna a cada dia mais sólidos, mas cujo remate elevar-se-á cada vez mais alto. 

Há trinta anos que, sem interrupção, eu mesmo posso dizê-lo, tenho recebido ensinamentos de guias espirituais, que não têm cessado de me dispensar sua assistência e conselhos. As suas revelações tomaram caráter particularmente didático no decurso de sessões, que se sucederam no espaço de oito anos e das quais muitas vezes falei numa obra precedente.

No livro de Allan Kardec, o ensino dos Espíritos é acompanhado, para cada pergunta, de considerações, comentários e esclarecimentos que fazem sobressair com mais nitidez a beleza dos princípios e a harmonia do conjunto. Aí é que se mostram as qualidades do autor. Esmerou-se ele, antes de tudo, em dar sentido claro e preciso às expressões que habitualmente emprega no seu raciocínio filosófico; depois, em definir bem os termos que podiam ser interpretados em sentidos diferentes. Ele sabia que a confusão que reina na maioria dos sistemas provém da falta de clareza das expressões usadas pelos seus autores. 

Outra regra, não menos essencial em toda a exposição metódica, e que Allan Kardec escrupulosamente observou, é a que consiste em circunscrever as ideias e apresentá-las em condições que as tornem bem compreensíveis para qualquer leitor. Enfim, depois de ter desenvolvido essas ideias numa ordem e concatenação que as ligavam entre si, soube deduzir conclusões, que constituem já, na ordem racional e na medida das concepções humanas, uma realidade, uma certeza. 

Por isso nos propomos a adotar aqui os termos, as vistas, os métodos de que se serviu Allan Kardec, como sendo os mais seguros, reservando-nos o acrescentar ao nosso trabalho todos os desenvolvimentos que resultaram das investigações e experiências feitas nos cinqüenta anos decorridos desde o aparecimento das suas obras.

Por tudo quanto acabamos de dizer, vê-se que a doutrina dos Espíritos, da qual Kardec foi o intérprete e o compilador judicioso, reúne, do mesmo modo que os sistemas filosóficos mais apreciados, as qualidades essenciais de clareza, lógica e rigor; mas o que nenhum outro sistema podia oferecer é o importante conjunto de manifestações por meio das quais essa doutrina se afirmou a princípio no mundo e pôde, depois, ser posta à prova, dia a dia, em todos os meios. Ela se dirige aos homens de todas as classes, de todas as condições; não somente aos seus sentidos e à sua inteligência, mas também ao que neles há de melhor: à sua razão, à sua consciência. Não constituem, na sua união, essas íntimas potências, um critério do bem e do mal, do verdadeiro e do falso, mais ou menos claro ou velado, sem dúvida, segundo o adiantamento das almas, mas que em cada uma delas se encontra como um reflexo da Razão Eterna, da qual elas emanam?


Há duas coisas na doutrina dos Espíritos: uma revelação do mundo espiritual e uma descoberta humana, isto é, de uma parte, um ensinamento universal, extraterrestre, idêntico a si mesmo nas suas partes essenciais e no seu sentido geral; da outra, uma confirmação pessoal e humana, que continua a ser feita segundo as regras da lógica, da experiência e da razão. A convicção que daí deriva fortalece-se e cada vez se torna mais rigorosa, à proporção que as comunicações aumentam em número e que, por isso mesmo, os meios de verificação se multiplicam e estendem. 

Até agora, só tínhamos conhecido sistemas individuais, revelações particulares; hoje, são milhares de vozes, as vozes dos defuntos que se fazem ouvir. O mundo invisível entra em ação e, no número dos seus agentes, Espíritos eminentes deixam-se reconhecer pela força e beleza dos seus ensinamentos. Os grandes gênios do espaço, movidos por um impulso divino, vêm guiar o pensamento para cumes radiosos. 

Não está aí uma vasta e grandiosa manifestação da Providência, sem igual no passado? A diferença dos meios só tem par na dos resultados. Comparemos. 

A revelação pessoal é falível. Todos os sistemas filosóficos humanos, todas as teorias individuais, tanto as de Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant, Descartes, Spinoza, como as dos nossos contemporâneos, são necessariamente influenciados pelas opiniões, tendências, preconceitos e sentimentos do revelador. Dá-se o mesmo com as condições de tempo e de lugar nas quais elas se produzem; outro tanto se pode dizer das doutrinas religiosas. 

A revelação dos Espíritos, impessoal, universal, escapa à maior parte dessas influências, ao passo que reúne a maior soma de probabilidades, senão de certezas. Não pode ser abafada nem desnaturada. Nenhum homem, nenhuma nação, nenhuma igreja tem o privilégio dela. Desafia todas as inquisições e produz-se onde menos se espera encontrá-la. Têm-se visto homens que mais hostis lhe eram convertidos às novas ideias pelo poder das manifestações, comovidos até ao fundo da alma pelos rogos e exortações dos seus parentes falecidos, e fazerem-se espontaneamente instrumentos de ativa propaganda. 

Não faltaram no Espiritismo os que, como S. Paulo, têm sido avisados: fenômenos semelhantes ao do caminho de Damasco lhes têm operado a conversão. 

Os Espíritos têm suscitado o aparecimento de numerosos médiuns em todos os meios, no seio das classes e dos partidos mais diversos e até no fundo dos santuários. Sacerdotes têm recebido as suas instruções e as têm propagado abertamente ou, então, sob o véu do anonimato. Seus parentes, seus amigos falecidos desempenhavam junto deles as funções de mestres e reveladores, ajuntando aos seus ensinos provas formais, irrecusáveis, da sua identidade.

Foi por tais meios que, em cinquenta anos, conseguiu o Espiritismo assenhorear-se do mundo e sobre ele derramar a sua claridade. Existe um acordo majestoso em todas essas vozes que se têm elevado simultaneamente para fazer ouvir às nossas sociedades cépticas a boa nova da sobrevivência e resolver os problemas da morte e da dor. A revelação tem penetrado por via mediúnica no coração das famílias, chegando até ao fundo dos antros e dos infernos sociais. Não dirigiram, como é sabido, os forçados da prisão de Tarragona ao Congresso Espírita Internacional de Barcelona, em 1888, uma tocante adesão em favor de uma doutrina que, diziam eles, os convertera ao bem e os reconciliara com o dever?!

No Espiritismo, a multiplicidade das fontes de ensino e de difusão constitui, portanto, um contraste permanente, que frustra e torna estéreis todas as oposições, todas as intrigas. Por sua própria natureza, a revelação dos Espíritos furta-se a todas as tentativas de monopólio ou falsificação. Em relação a ela é de todo impotente o espírito de domínio ou dissidência, porque, quando conseguissem extingui-la ou desnaturá-la num ponto, imediatamente ela reviveria em cem pontos diversos, malogrando assim ambições nocivas e perfídias. 

Nesse imenso movimento revelador, as almas obedecem a ordens que partem do Alto; são elas próprias que o declaram. A sua ação é regulada de acordo com um plano traçado de antemão e que se desenrola com majestosa amplitude. Um conselho invisível preside, do seio dos Espaços, à sua execução. É composto de grandes Espíritos de todas as raças, de todas as religiões, da fina flor das almas que viveram neste mundo segundo a lei do amor e do sacrifício. Essas potências benfazejas pairam entre o céu e a Terra, unindo-os num traço de luz por onde sem cessar sobem as preces, por onde descem as inspirações. 

Há, contudo, no que diz respeito à concordância dos ensinamentos espirituais, um fato, uma exceção que impressionou certos observadores e do qual eles se têm servido como de um argumento capital contra o Espiritismo: por que, objetam eles, os Espíritos que, na totalidade dos países latinos, afirmam a lei das vidas sucessivas e as reencarnações da alma na Terra, negam-na ou passam-na em claro nos países anglo-saxões? Como explicar uma contradição tão flagrante? Não há aí cabedal suficiente para destruir a unidade de doutrina que caracteriza a Revelação Nova? 

Notemos que não há contradição alguma, mas simplesmente uma graduação originada de preconceitos de casta, de raça e religião, inveterados em certos países. O ensino dos Espíritos, mais completo, mais extenso desde o princípio nos centros latinos, foi, em sua origem, restringido e graduado em outras regiões, por motivos de oportunidade. Pode-se verificar que todos os dias aumenta na Inglaterra e na América o número das comunicações espíritas que afirmam o princípio das reencarnações sucessivas. Muitas delas fornecem até argumentos preciosos à discussão travada entre espiritualistas de diferentes escolas. 

Tem lavrado de tal modo além do Atlântico à ideia reencarnacionista, que um dos principais órgãos espiritualistas americanos lhe é inteiramente favorável. O Light, de Londres, que ainda há pouco afastava essa questão, discute-a, hoje, com imparcialidade. 

Parece, pois, que, se a princípio houve sombras e contradições, eram elas apenas aparentes e quase nenhuma resistência oferecem a um exame sério.


A Revelação Espírita levantou, como sucede com todas as doutrinas novas, muitas objeções e críticas. Ponderemos algumas. Acusam-nos, antes de tudo, de termos grande empenho em filosofar; acusam-nos de termos edificado, sobre a base de fenômenos, um sistema antecipado, uma doutrina prematura, e de havermos comprometido assim o caráter positivo do Espiritualismo moderno. 

Um escritor de valia, fazendo-se intérprete de um certo número de psiquistas, resumia as suas críticas nestes termos: “Uma objeção séria contra a hipótese espírita é a que se refere à filosofia com que certos homens demasiadamente apressados dotaram o Espiritismo. O Espiritismo, que apenas devia ser uma ciência no seu início, é já uma filosofia imensa para a qual o universo não tem segredos.” 

Poderíamos lembrar a esse autor que os homens de quem ele fala representaram em tudo isso simplesmente o papel de intermediários, limitando-se a coordenar e publicar os ensinamentos que recebiam por via mediúnica. 

Por outro lado, devemos notar, haverá sempre indiferentes, cépticos, espíritos retardados, prontos a achar que andamos com muita pressa. Não haveria progresso possível, se tivesse de esperar pelos retardatários. É deveras engraçado ver pessoas, cujo interesse por essas questões apenas data de ontem, darem regras a homens como Allan Kardec, por exemplo, que só se atreveu a publicar os seus trabalhos ao cabo de anos de investigações laboriosas e de maduras reflexões, obedecendo nisso a ordens formais e bebendo em fontes de informação das quais os nossos excelentes críticos nem sequer parecem ter ideia. 

Todos aqueles que seguem com atenção o desenvolvimento dos estudos psíquicos podem verificar que os resultados adquiridos vieram confirmar em todos os pontos e fortalecer cada vez mais a obra de Kardec. 

Friedrich Myers, o eminente professor de Cambridge, que foi durante vinte anos, diz Charles Richet, a alma da Society for Psychical Researches, de Londres, e que o Congresso oficial internacional de Psicologia de Paris elevou, em 1900, à dignidade de presidente honorário, declara nas últimas páginas de sua obra magistral, La Personnalité Humaine, cuja publicação produziu no mundo sábio uma sensação profunda: “Para todo investigador esclarecido e consciencioso essas indagações vão dar lugar, lógica e necessariamente, a uma vasta síntese filosófica e religiosa.” Partindo desses dados, consagra o capítulo décimo a uma “generalização ou conclusão que estabelece um nexo mais claro entre as novas descobertas e os esquemas já existentes do pensamento e das crenças dos homens civilizados”.

Termina assim a exposição de seu trabalho: 

“Bacon previra a vitória progressiva da observação e da experiência em todos os domínios dos estudos humanos; em todos, exceto um: o domínio das coisas divinas. Empenho-me em mostrar que essa grande exceção não é justificada. Pretendo que existe um método para chegar ao conhecimento das coisas divinas com a mesma certeza, a mesma segurança com que temos alcançado os progressos que possuímos no conhecimento das coisas terrestres. A autoridade das igrejas será substituída, assim, pela da observação e experiência. Os impulsos da fé transformar-se-ão em convicções racionais e firmes, que darão origem a um ideal superior a todos os que a humanidade houver conhecido até esse momento.” 

Assim, o que certos críticos de pouca sagacidade consideram como tentativa prematura, aparece a F. Myers como “evolução necessária e inevitável”. A síntese filosófica, que remata a sua obra, recebeu, no meio científico, a mais alta aprovação. Para Sir Oliver Lodge, o acadêmico inglês, “constitui ela um dos mais vastos, compreensíveis e bem fundados esquemas que, acerca da existência, têm sido vistos”.

O Prof. Flournoy, de Genebra, tece-lhe o maior elogio nos seus Archives de Psychologie de la Suisse Romande (junho de 1903). 

Na França, outros homens de ciência, sem ser espíritas, chegam a conclusões idênticas. 

Sr. Maxwell, doutor em Medicina, substituto do Procurador Geral junto à Corte de Apelação de Paris, exprimia-se assim:

“O Espiritismo vem a seu tempo e corresponde a uma necessidade geral... A extensão que essa doutrina está tomando é um dos fenômenos mais curiosos da época atual. Assistimos ao que me parece ser o nascimento de uma verdadeira religião sem cerimônias rituais e sem clero, mas com assembleias e práticas. Pelo que me diz respeito, acho extremo interesse nessas reuniões e sinto a impressão de assistir ao nascimento de um movimento religioso fadado para grandes destinos.” 

À vista de tais apreciações, as argúcias e as recriminações dos nossos contraditores caem por si mesmas. A que devemos atribuir a sua aversão à doutrina dos Espíritos? Será por se tornar o ensino espírita, com a sua lei das responsabilidades, o encadeamento de causas e efeitos que se desenvolvem no domínio moral e a sanção dos exemplos que nos traz, um terrível embaraço para grande número de pessoas que pouca importância ligam à filosofia? 

*

Falando dos fatos psíquicos, diz F. Myers: “Essas observações, experiências e induções abrem a porta a uma revelação.” É evidente que no dia em que se estabeleceram relações com o mundo dos Espíritos, pela própria força das coisas, levantou-se imediatamente, com todas as suas consequências, com aspectos novos, o problema do ser e do destino. 

Diga-se o que se disser, não era possível comunicar com os parentes e amigos falecidos, abstraindo de tudo o que diz respeito ao seu modo de existência, sem tomar interesse pelas suas vistas forçosamente ampliadas e diferentes do que eram na Terra, pelo menos para as almas já desenvolvidas. 

Em nenhuma época da História o homem pôde subtrair-se aos grandes problemas do ser, da vida, da morte, da dor. Apesar da sua impotência para resolvê-los, eles o têm preocupado incessantemente, voltando sempre com mais força, todas as vezes que ele tenta afastá-los, insinuando-se em todos os acontecimentos de sua vida, em todos os escaninhos do seu entendimento; batendo, por assim dizer, às portas da sua consciência. E quando uma nova fonte de ensinamentos, de consolação, de forças morais, quando vastos horizontes se abrem ao pensamento, como poderia ele ficar indiferente? Não ocorrerá conosco a mesma coisa que se passa com os nossos parentes? Não é, pois, nossa sorte futura, nossa sorte de amanhã que está em litígio? 

Pois quê! O tormento e a angústia do desconhecido que afligem a alma através dos tempos, a intuição confusa de um mundo melhor, pressentido, desejado, a procura ansiosa de Deus e da sua justiça podem ser, em nova e mais larga medida, acalmados, esclarecidos, satisfeitos, e havíamos de desprezar os meios de o fazer? Não há nesse desejo, nessa necessidade, que o pensamento tem de sondar o grande mistério, um dos mais belos privilégios do ser humano? Não é isso o que constitui a dignidade, a beleza, a razão de ser da sua vida? 

Não se tem visto, todas as vezes que temos desconhecido esse direito, esse privilégio, todas as vezes que temos renunciado por algum tempo a volver as vistas para o Além, a dirigir os pensamentos para uma vida mais elevada, o havermos querido restringir o horizonte; não se tem visto, concomitantemente, se agravarem as misérias morais, o fardo da existência cair com maior peso sobre os ombros dos desgraçados, o desespero e o suicídio aumentarem a área da sua devastação e as sociedades se encaminharem para a decadência e para a anarquia? 

*

Há outro gênero de objeção: a filosofia espírita, dizem, não tem consistência; as comunicações em que se funda provêm as mais das vezes do médium, do seu próprio inconsciente, ou, então, dos assistentes. O médium em transe “lê no espírito dos consulentes as doutrinas que aí se acham acumuladas, doutrinas ecléticas, tomadas de todas as filosofias do mundo e, principalmente, do hinduísmo”. 

Refletiu bem o autor dessas linhas nas dificuldades que tal exercício deve apresentar? Seria capaz de explicar os processos com cuja intervenção se pode ler, à primeira vista, no cérebro de outrem, as doutrinas que nele estão “acumuladas”? Se pode, faça-o; então, teremos fundamentado para ver, nas suas alegações, tão-somente palavras, nada mais do que palavras, empregadas levianamente e ao serviço de uma crítica apaixonada. Aquele que não quer parecer enganar-se com os sentimentos é muitas vezes logrado pelas palavras. A incredulidade sistemática num ponto torna-se às vezes credulidade ingênua em outro.

Lembraremos, antes de tudo, que as opiniões da maior parte dos médiuns, no princípio das manifestações, eram opostas inteiramente às opiniões enunciadas nas comunicações. Quase todos haviam recebido educação religiosa e estavam imbuídos das ideias de paraíso e inferno. As suas ideias acerca da vida futura, quando as tinham, diferiam sensivelmente das que os Espíritos expunham, o que, ainda hoje, é o caso mais frequente; era o que sucedia com três médiuns do nosso grupo, senhoras católicas e dadas às respectivas práticas, que, apesar dos ensinos filosóficos que recebiam e transmitiam, nunca renunciaram completamente aos seus hábitos cultuais.

Quanto aos assistentes, ouvintes, ou às pessoas designadas pelo nome de “consulentes”, não olvidemos tampouco que, ao alvorecer do Espiritismo na França, isto é, na época de Allan Kardec, os homens que possuíam noções de filosofia, quer oriental, quer druídica, comportando a teoria das transmigrações ou vidas sucessivas da alma, eram em pequeno número e tornava-se preciso ir procurá-los no seio das academias ou em alguns centros científicos muito retraídos. 

Aos nossos contraditores perguntaremos como teria sido possível a médiuns inumeráveis, espalhados em toda a superfície da Terra, desconhecidos uns dos outros, constituírem sozinhos as bases de uma doutrina, com solidez bastante para resistir a todos os ataques, a todos os assaltos; assaz exata para que os seus princípios tenham sido confirmados e recebam todos os dias a confirmação da experiência, como o mostramos no princípio deste capítulo. 

A respeito da sinceridade das comunicações medianímicas e do seu alcance filosófico, vamos citar as palavras de um orador, cujas opiniões não parecerão suspeitas a todos aqueles que conhecem a aversão que a maior parte dos eclesiásticos tem ao Espiritismo. 

Num sermão pronunciado a 7 de abril de 1899, em Nova Iorque, o reverendo J. Savage, pregador de fama, dizia: 

“Formam legião as supostas patacoadas que, dizem, vêm do outro mundo, ao mesmo tempo em que existe uma literatura moral completa das mais puras e de ensinos espiritualistas incomparáveis. Sei de um livro, cujo autor, diplomado de Oxford, pastor da Igreja inglesa, veio a ser espírita e médium. Esse livro foi escrito automaticamente. Às vezes, para desviar o pensamento do trabalho que a mão executava, o autor lia Platão em grego e o seu livro, contrariamente ao que, em geral, se admite para obras desse gênero, achava-se em oposição absoluta às próprias crenças religiosas do autor, se bem que ele se tivesse convertido antes de o haver concluído. Essa obra contém ensinamentos morais e espirituais dignos de qualquer das Bíblias que existem no mundo. 

As primeiras idades do Cristianismo eram (basta que leais São Paulo para vos recordardes) compostas de gente com quem as pessoas de consideração nada queriam ter em comum. O Espiritualismo moderno estreou por uma forma semelhante; mas, à sombra da sua bandeira enfileiram-se em nossos dias muitos nomes de fama e encontram-se os homens melhores e mais inteligentes. Lembrai-vos, pois, de que é, em geral, um grande movimento muito sincero.”

No seu discurso, o reverendo Savage soube dar a cada coisa o seu lugar. É certo que as comunicações medianímicas não oferecem todas o mesmo grau de interesse. Muitas há que são um conjunto de banalidades, de repetições, de lugares comuns. Nem todos os Espíritos têm capacidade para nos dar ensinamentos úteis e profundos. Como na Terra, e mais ainda, a escala dos seres no espaço comporta graus infinitos. Ali se encontram as mais nobres inteligências, como as almas mais vulgares, mas, às vezes, os próprios Espíritos inferiores, descrevendo a sua situação moral, as suas impressões à hora da morte e no Além, iniciando-nos nas particularidades da sua nova existência, fornecem materiais preciosos para determinarmos as condições da sobrevivência segundo as diversas categorias de Espíritos. Podemos, pois, em nossas relações com os Invisíveis, granjear elementos de instrução; todavia, nem tudo se deve aproveitar. Ao experimentador prudente e sagaz incumbe saber separar o ouro da ganga. A verdade não nos chega sempre pura e a ação do Alto deixa às faculdades e à razão do homem o campo necessário para se exercitarem e desenvolverem. 

Em tudo isso é preciso andar com todas as cautelas, a tudo aplicar contínuo e atento exame, precaver-se contra as fraudes, conscientes ou inconscientes, e ver se não há, nas mensagens escritas, um simples caso de automatismo. Para isso, convém averiguar se as comunicações são, pela forma e pelo fundo, superiores às capacidades do médium. É preciso exigir, da parte dos manifestantes, provas de identidade e não abrir mão de todo o rigor, senão nos casos em que os ensinamentos, em virtude da sua superioridade e majestosa amplitude, se impõem por si mesmos e estão muito acima das faculdades do transmissor. 

Uma vez reconhecida a autenticidade das comunicações, é preciso ainda comparar entre si e submeter a exame severo os princípios científicos e filosóficos que elas expõem e aceitar somente os pontos em que há quase unanimidade de vistas. 

Além das fraudes de origem humana, há também as mistificações de origem oculta. Todos os experimentadores sérios sabem que existem duas espécies de Espiritismo: um, praticado a torto e a direito, sem método, sem elevação de pensamento, atrai para nós os basbaques do espaço, os Espíritos levianos e zombeteiros, que são numerosos na atmosfera terrestre; o outro, de mais circunspeção, praticado com seriedade, com sentimento respeitoso, põe-nos em relação com os Espíritos adiantados, desejosos de socorrer e esclarecer aqueles que os chamam com fervor de coração. É o que as religiões têm conhecido e designado pelo nome de comunicação dos santos.

Pergunta-se também: como se pode distinguir, na vasta massa das comunicações, cujos autores são invisíveis, o que provém das entidades superiores e deve ser conservado? Para essa pergunta há uma só resposta. Como distinguimos nós os bons e maus livros dos autores falecidos há muito tempo? Como distinguir uma linguagem nobre e elevada de uma linguagem banal e vulgar? Não temos nós um estalão, uma regra para aquilatar os pensamentos, provenham eles do nosso mundo ou do outro? Podemos julgar as mensagens medianímicas principalmente pelos seus efeitos moralizadores, que inúmeras vezes têm melhorado muitos caracteres e purificado muitas consciências. É esse o critério mais seguro de todo o ensino filosófico. 

Em nossas relações com os invisíveis há também meios de reconhecimento para distinguir os bons Espíritos das almas atrasadas. Os sensitivos reconhecem facilmente a natureza dos fluidos, que nos Espíritos bons são sutis, agradáveis, e nos maus são violentos, glaciais, custosos de suportar. Um dos nossos médiuns anunciava sempre com antecipação a chegada do “Espírito azul”, cuja presença era revelada por vibrações harmoniosas e radiações brilhantes. Outros há que certos médiuns distinguem pelo cheiro. Delicados e suaves nuns, são esses cheiros repugnantes noutros. Avalia-se a elevação de um Espírito pela pureza dos seus fluidos, pela beleza da sua forma e da sua linguagem.

Nessa ordem de investigações, o que mais impressiona, persuade e convence são as conversas travadas com os nossos parentes e amigos que nos precederam na vida do espaço. Quando provas incontestáveis de identidade nos têm dado a certeza da sua presença, quando a intimidade de outrora, a confiança e a familiaridade reinam de novo entre eles e nós, as revelações, que nessas condições se obtêm, tomam um caráter dos mais sugestivos. Diante delas, as últimas hesitações do cepticismo dissipam-se forçosamente, dando lugar aos impulsos do coração. 

É possível, na realidade, resistir às vozes, aos chamamentos daqueles que compartilharam a nossa vida e cercaram os nossos primeiros passos de terna solicitude, dos companheiros da nossa infância, da nossa juventude, da nossa virilidade que, um por um, se sumiram na morte, deixando, ao partir, mais solitário, mais desolado o nosso caminho? No transe eles voltam com atitudes, inflexões de voz, evocações de lembranças, com milhares e milhares de provas de identidade, banais nas suas particularidades para os estranhos, tão comovedoras, entretanto, para os interessados! Dão-nos instruções relativas aos problemas do Além, exortam-nos e consolam-nos. Os homens mais fleumáticos, os mais doutos experimentadores, como o professor Hyslop, não puderam resistir às influências de além-túmulo.

Demonstra isso que no Espiritismo não há tão-somente, como o pretendem alguns, práticas frívolas e abusivas, mas que nele se encontra um móvel nobre e generoso, isto é, a afeição pelos nossos mortos, o interesse que temos pela sua memória. Não é esse um dos lados mais respeitáveis da natureza humana, um dos sentimentos, uma das forças que elevam o homem acima da matéria e estabelecem a diferença entre ele e os irracionais? 

Depois, a par disso, acima das exortações comovidas dos nossos parentes, devemos assinalar os surtos poderosos dos gênios do espaço, as páginas escritas febrilmente, na meia obscuridade, por médiuns do nosso conhecimento, incapazes de compreender-lhes o valor e a beleza, páginas em que o esplendor do estilo se alia à profundeza das ideias, ou então os discursos impressionantes, como muitas vezes ouvimos em nosso grupo de estudos, discursos pronunciados pelo órgão de um médium de saber e caráter modestos e em que um Espírito discorria, falando-nos do eterno enigma do mundo e das leis que regem a vida espiritual. Aqueles que tiveram a honra de assistir a essas reuniões sabem qual a influência penetrante que elas exerciam em todos nós. Apesar das tendências cépticas e do espírito zombador dos homens da nossa geração, há acentos, formas de linguagem, rasgos de eloquência aos quais eles não poderiam resistir. Os mais prevenidos seriam obrigados a reconhecer neles o característico, o sinal incontestável de uma grande superioridade moral, o cunho da verdade. Na presença desses Espíritos, que por momentos desceram ao nosso mundo obscuro e atrasado, para nele fazerem brilhar uma fulguração do seu gênio, o criticismo mais exigente turba-se, hesita e cala-se.

Durante oito anos recebemos, em Tours, comunicações dessa ordem, que tocavam todos os grandes problemas, todas as questões importantes de filosofia e de moral. Formavam muitos volumes manuscritos. O resumo desse trabalho, demasiadamente extenso, de texto copioso demais para ser publicado na íntegra, quisera-o eu apresentar aqui. Jerônimo de Praga, o meu amigo, o meu guia do presente e do passado, o Espírito magnânimo que dirigiu os primeiros vôos da minha inteligência infantil em idades remotas, é seu autor. Quantos outros Espíritos eminentes não espalharam assim os seus ensinamentos pelo mundo, na intimidade de alguns grupos! Quase sempre anônimos, revelam-se apenas pelo alto valor das suas concepções. Foi-me dado soerguer alguns dos véus que encobriam a sua verdadeira personalidade. Devo, porém, guardar segredo, porque a fina flor dos Espíritos se distingue precisamente pela particularidade de se esconder sob designações emprestadas e querer ficar ignorada. Os nomes célebres que subscrevem certas comunicações, chãs e vazias, não são, na maioria dos casos, mais do que um engodo. 

Quis com esses pormenores demonstrar que esta obra não é exclusivamente minha, que é, antes, o reflexo de um pensamento mais elevado que procuro interpretar. Está de acordo em todos os pontos essenciais com as vistas expressas pelos instrutores de Allan Kardec; todavia, pontos que eles deixaram obscuros, nela começam a ser discutidos. Tive também em consideração o movimento do pensamento e da ciência humana, de suas descobertas, e o cuidado de assinalá-los nesta obra. Em certos casos, acrescentei-lhe as minhas impressões pessoais e os meus comentários, porque, no Espiritismo, nunca é demais dizê-lo, não há dogmas e cada um dos seus princípios pode e deve ser discutido, julgado, submetido ao exame da razão. 

Considerei como um dever conseguir que desses ensinamentos tirassem proveito os meus irmãos da Terra. Uma obra vale pelo que é. Seja o que for que pensem e digam da Revelação dos Espíritos, não posso admitir que, quando em todas as Universidades se ensinam sistemas metafísicos arquitetados pelo pensamento dos homens, se possa desatender e rejeitar os princípios divulgados pelas nobres Inteligências do espaço. 

A nossa estima aos mestres da razão e da sabedoria humana não é motivo para deixarmos de dar o devido apreço aos mestres da razão sobre-humana, aos representantes de uma sabedoria mais alta e mais grave. O espírito do homem, comprimido pela carne, privado da plenitude dos seus recursos e percepções, não pode chegar de per si ao conhecimento do universo invisível e de suas leis. O círculo em que se agitam a nossa vida e o nosso pensamento é limitado, assim como é restrito o nosso ponto de vista. A insuficiência dos dados que possuímos torna toda a nossa generalização impossível. Para penetrarmos no domínio desconhecido e infinito das leis, precisamos de guias. Com a colaboração dos pensadores eminentes dos dois mundos, das duas humanidades, é que alcançaremos as mais altas verdades, ou pelo menos chegaremos a entrevê-las, e que serão estabelecidos os mais nobres princípios. Muito melhor e com muito mais segurança do que os nossos mestres da Terra, os do espaço sabem pôr-nos em presença do problema da vida e do mistério da alma e, igualmente, ajudar-nos a adquirir a consciência da nossa grandeza e do nosso futuro. 

*

Às vezes fazem-nos uma pergunta, opõem-nos uma nova objeção. Em vista da infinita variedade das comunicações e da liberdade que cada um tem de apreciá-las, de verificá-las à sua vontade, que há de ser, dizem-nos, da unidade de doutrina, essa unidade poderosa que tem feito a força, a grandeza das religiões sacerdotais e lhes tem assegurado a duração? 

O Espiritismo, já o dissemos, não dogmatiza; não é uma seita nem uma ortodoxia. É uma filosofia viva, patente a todos os espíritos livres, e que progride por evolução. Não faz imposições de ordem alguma; propõe e sua proposta apóia-se em fatos de experiência e provas morais; não exclui nenhuma das outras crenças, mas se eleva acima delas e abraça-as numa fórmula mais vasta, numa expressão mais elevada e extensa da verdade. 

As Inteligências superiores abrem-nos o caminho, revelam-nos os princípios eternos, que cada um de nós adota e assimila, na medida da sua compreensão, consoante o grau de desenvolvimento atingido pelas faculdades de cada um na sucessão das suas vidas. 

Em geral, a unidade de doutrina é obtida unicamente à custa da submissão cega e passiva a um conjunto de princípios, de fórmulas fixadas em moldes inflexíveis. É a petrificação do pensamento, o divórcio da Religião e da Ciência, a qual não pode passar sem liberdade e movimento. 

Essa imobilidade, esta inflexibilidade dos dogmas priva a Religião, que a si mesma as impõe, de todos os benefícios do movimento social e da evolução do pensamento. Considerando-se como a única crença boa e verdadeira, chega ao ponto de proscrever tudo o que está fora dela e empareda-se assim numa tumba para dentro da qual quisera arrastar consigo a vida intelectual e o gênio das raças humanas. 

O que o Espiritismo mais toma a peito é evitar as funestas consequências da ortodoxia. A sua revelação é uma exposição livre e sincera de doutrinas, que nada têm de imutáveis, mas que constituem um novo estágio no caminho da verdade eterna e infinita. Cada um tem o direito de analisar-lhe os princípios, que apenas são sancionados pela consciência e pela razão. Mas, adotando-os, deve cada um conformar com eles a sua vida e cumprir as obrigações que deles derivam. Quem a eles se esquiva não pode ser considerado como adepto verdadeiro. 

Allan Kardec colocou-nos sempre de sobreaviso contra o dogmatismo e o espírito de seita; recomenda-nos sem cessar, nas suas obras, que não deixemos cristalizar o Espiritismo e evitemos os métodos nefastos, que arruinaram o espírito religioso das criaturas. 

Nos nossos tempos de discórdias e lutas políticas e religiosas, em que a Ciência e a ortodoxia estão em guerra, quiseram demonstrar aos homens de boa vontade, de todas as opiniões, de todos os campos, de todas as crenças, assim como a todos os pensadores verdadeiramente livres e de largo descortino, que há um terreno neutro, o do espiritualismo experimental, onde nos podemos encontrar, dando-nos mutuamente as mãos. Não mais dogmas! Não mais mistérios! Abramos o entendimento a todos os sopros do espírito, bebamos em todas as fontes do passado e do presente. Digamos que em todas as doutrinas há parcelas da verdade; nenhuma, porém, a encerra completamente, porque a verdade, em sua plenitude, é mais vasta do que o espírito humano. 

É somente no acordo das boas vontades, dos corações sinceros, dos espíritos livres e desinteressados que se realizarão a harmonia do pensamento e a conquista da maior soma de verdade assimilável para o homem da Terra, no atual período histórico. 

Dia virá em que todos hão de compreender que não há antítese entre a Ciência e a verdadeira Religião. Há apenas mal-entendidos. A antítese se dá entre a Ciência e a ortodoxia, o que nos é provado pelas recentes descobertas da Ciência, que nos aproximam sensivelmente das doutrinas sagradas do Oriente e da Gália, no que diz respeito à unidade do mundo e à evolução da vida. Por isso é que podemos afirmar que, prosseguindo a sua marcha paralela na grande estrada dos séculos, a Ciência e a crença forçosamente encontrar-se-ão um dia, pois que idênticos são ambos os seus alvos, que acabarão por se penetrarem reciprocamente. A Ciência será a análise; a Religião será a síntese. Nelas unificar-se-ão o mundo dos fatos e o mundo das causas, os dois termos da inteligência humana vincular-se-ão, rasgar-se-á o véu do Invisível; a obra divina aparecerá a todos os olhares em seu majestoso esplendor! 

*

As alusões que acabamos de fazer às doutrinas antigas poderiam levantar outra objeção: “Não são, pois, dir-nos-ão, inteiramente novos os ensinamentos do Espiritismo?” Não, sem dúvida. Em todos os tempos da humanidade, têm rebentado relâmpagos, o pensamento em marcha tem sido iluminado por lampejos e as verdades necessárias têm aparecido aos sábios e aos investigadores. Os homens de gênio, do mesmo modo que os sensitivos e os videntes, têm recebido sempre do Além revelações apropriadas às necessidades da evolução humana.

É pouco provável que os primeiros homens pudessem ter chegado, espontaneamente e só com o auxílio dos próprios recursos mentais, à noção de leis e mesmo às primeiras formas de civilização. Consciente ou não, a comunhão entre a Terra e o espaço tem existido sempre. Por isso, tornaríamos a encontrar nas doutrinas do passado a maior parte dos princípios que o ensino dos Espíritos de novo trouxe à luz. 

De resto, esses princípios, reservados à minoria, não haviam penetrado até à alma das multidões. Essas revelações produziam-se, de preferência, sob a forma de comunicações insuladas, de manifestações que apresentavam caráter esporádico, as quais eram as mais das vezes consideradas como milagrosas; mas, volvidos vinte ou trinta séculos de trabalho lento e gestação silenciosa, o espírito crítico desenvolveu-se e a razão elevou-se até ao conceito de leis superiores. Esses fenômenos, com o ensino que lhes é conexo, reaparecem, generalizam-se, vêm guiar as sociedades hesitantes na árdua via do progresso. 

É sempre nas horas turvas da História que as grandes concepções sintéticas se formam no seio da humanidade. Então, as religiões decrépitas, com as vozes enfraquecidas pela idade, e as filosofias com a sua linguagem demasiadamente abstrata, já não são suficientes para consolar os aflitos, levantar os ânimos abatidos, arrastar as almas para os altos cimos. Todavia, ainda há nelas muitas forças latentes e focos de calor que podem ser reavivados. Por isso não compartilhamos das vistas de certos teóricos que, nesse domínio, cogitam mais de demolir do que de restaurar. Seria um erro. Há distinções a fazer na herança do passado e mesmo nas religiões esotéricas, criadas para espíritos infantis, as quais correspondem todas às necessidades de certa categoria de almas. A sabedoria consistiria em recolher as parcelas de vida eterna, os elementos de direção moral que elas contêm, eliminando ao mesmo tempo as superfetações inúteis que a ação das idades e das paixões lhes foi adicionando. 

Quem poderia executar essa obra de discriminação, de seleção, de renovação? Os homens estavam mal preparados para isso. Apesar dos avisos imperiosos da hora presente, apesar da decadência moral do nosso tempo, nem no santuário nem nas cátedras acadêmicas se tem elevado uma voz autorizada para dizer as palavras fortes e graves que o mundo esperava. 

Só do Alto, pois, é que podia vir o impulso. Veio. Todos aqueles que têm estudado o passado, com atenção, sabem que há um plano no drama dos séculos. O pensamento divino manifesta-se de maneiras diferentes e a revelação é graduada de mil modos, conforme as exigências das sociedades. Foi por isso que, havendo soado a hora da nova dispensação, o Mundo Invisível saiu do seu silêncio. Por toda a Terra afluíram as comunicações dos defuntos, trazendo os elementos de uma doutrina em que se resumem e se fundem as filosofias e as religiões de duas humanidades. O escopo do Espiritismo não é destruir, mas unificar e completar, renovando. Vem separar, no domínio das crenças, o que tem vida do que está morto. Recolhe e ajunta, dos numerosos sistemas em que até o presente se tem encerrado a consciência da humanidade, as verdades relativas que eles contêm, para juntá-las às verdades de ordem geral que proclama. Em resumo, o Espiritismo vincula à alma humana, ainda incerta e débil, as asas poderosas dos largos espaços e, por esse meio, eleva-a a alturas donde pode abranger a vasta harmonia das leis e dos mundos e obter, ao mesmo tempo, visão clara do seu destino. 

Esse destino se acha incomparavelmente superior a tudo que lhe haviam segredado as doutrinas da Idade Média e as teorias de outro tempo. É um futuro de imensa evolução que se abre continuamente para a alma, de esferas em esferas, de claridades em claridades, para um fim cada vez mais belo, cada vez mais iluminado pelos raios da justiça e do amor.

Denis, L. O Problema do Ser, do Destino e da Dor: O Critério da Doutrina dos Espíritos

Vida Feliz, Joanna de Ângelis, Mensagem CXXV,

VIDA FELIZ

MENSAGEM CXXV

Estuda sempre.

Incorpora às tuas atividades o hábito da boa leitura. Uma página por dia, um trecho nos intervalos do serviço, uma frase para meditação, tornam-se o cimento forte da tua construção para o futuro.

O conhecimento é um bem que, por mais seja armazenado, jamais toma qualquer espaço. Pelo contrário, faculta mais ampla facilidade para novas aquisições.

As boas leituras enriquecem a mente, acalmam o coração, estimulam ao progresso.

O homem que ignora, caminha às escuras.

Lê um pouco de cada vez, porém, fá-lo constantemente.

Franco D. P.; Joanna de Ângelis (Espírito). Vida Feliz: Mensagem CXXV

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

No Invisível, Léon Denis, Introdução

NO INVISÍVEL

INTRODUÇÃO

Desde cinquenta anos se tem estabelecido uma íntima e frequente comunicação entre o nosso mundo e o dos Espíritos. Soergueram-se os véus da morte e, em lugar de uma face lúgubre, o que nos apareceu foi um risonho e benévolo semblante. Falaram as almas; sua palavra consolou muitas tristezas, acalmou bastantes dores, fortaleceu muita coragem vacilante. O destino foi revelado, não já cruel, implacável como o pretendiam antigas crenças, mas atraente, equitativo, para todos esclarecido pelas fulgurações da misericórdia divina.

O Espiritismo propagou-se, invadiu o mundo. Desprezado, repelido ao começo, acabou por atrair a atenção e despertar interesse. Todos quantos se não imobilizavam na esfera do preconceito e da rotina e o abordaram desassombradamente, foram por ele conquistados. Agora penetra por toda à parte, instala-se em todas as mesas, tem ingresso em todos os lares. A sua voz, as velhas fortalezas seculares – a Ciência e a própria Igreja –, até aqui hermeticamente aferrolhadas, arrasam suas muralhas e entreabrem suas portas. Dentro em pouco se imporá como soberano.

Que traz ele consigo? Será sempre e por toda à parte a verdade, a luz e a esperança? Ao lado das consolações que caem na alma como o orvalho sobre a flor, de par com o jorro de luz que dissipa as angústias do investigador e ilumina a rota, não haverá também uma parte de erros e decepções?

O Espiritismo será o que o fizerem os homens. Similia similibus! Ao contacto da Humanidade as mais altas verdades às vezes se desnaturam e obscurecem. Pode constituir-se uma fonte de abusos. A gota de chuva, conforme o lugar onde cai, continua sendo pérola ou se transforma em lodo.

É com desgosto que observamos a tendência de certos adeptos no sentido de menosprezar a feição elevada do Espiritismo, a fonte dos puros ensinamentos e das altas inspirações, para se restringirem ao campo da experimentação terra-a-terra, à investigação exclusiva do fenômeno físico.

Pretender-se-ia acomodar o Espiritismo no acanhado leito da ciência oficial; mas esta, inteiramente impregnada das teorias materialistas, é refratária a essa aliança. O estudo da alma, já de si difícil e profundo, lhe tem permanecido impenetrável. Os seus métodos, por indigentes, não se prestam absolutamente ao estudo, muito mais vasto, do mundo dos Espíritos. A ciência do invisível há de sempre ultrapassar os métodos humanos. Há no Espiritismo uma zona – e não a menor – que escapa à análise, à verificação: é a ação do Espírito livre no Espaço; é a natureza das forças de que ele dispõe.

Com os estudos espíritas uma nova ciência se vai formando lentamente, aias é preciso aliar ao espírito de investigação científica a elevação de pensamento, o sentimento, os impulsos do coração, sem o que a comunhão com os seres superiores se torna irrealizável, e nenhum auxílio de sua parte, nenhuma proteção eficaz se obterá. Ora, isso é tudo na experimentação. Não há possibilidade de êxito, nem garantia de resultado sem à assistência e proteção do Alto, que se não obtém sendo mediante a disciplina mental e uma vida pura e digna.

Deve todo adepto saber que a regra por excelência das relações com o invisível é a lei das afinidades e atrações. Nesse domínio, quem procura baixos objetivos os encontra, e com eles se rebaixa: aquele que aspira às remontadas culminâncias, cedo ou tarde as atinge e delas faz pedestal para novas ascensões. Se desejais manifestações de ordem elevada, fazei esforços por elevar-vos a vós mesmos. O bom êxito da experimentação, no que ela tem de belo e grandioso – a comunhão com o mundo superior – não o obtém o mais sábio, mas o mais digno, o melhor, aquele que tem mais paciência e consciência e mais moralidade.

Com o cercearem o Espiritismo, imprimindo-lho caráter exclusivamente experimental, pensam alguns agradar ao espírito positivo do século, atrair os sábios ao que se denomina de Psiquismo. Desse modo, o que sobretudo se consegue é pôr-se em relação com os elementos inferiores do Além, com essa multidão de Espíritos atrasados, cuja nociva influência envolve, oprime os médiuns, os impele a fraude e espalha sobre os experimentadores eflúvios maléficos e, com eles, muitas vezes, o erro e a mistificação.

Numa ânsia de proselitismo, sem dúvida louvável quanto ao sentimento que a inspira, mas excessiva e perigosa em suas consequências, desejam-se os fatos a todo o custo. Na agitação nervosa com que se busca o fenômeno, chega-se a proclamar verdadeiros os fatos duvidosos ou fictícios. Pela disposição de espírito mantida nas experiências, atraem-se os Espíritos levianos, que em torno de nós pululam. Multiplicam-se as manifestações de mau gosto e as obsessões das energias que supõem dominar. Muitíssimos espíritas e médiuns, em consequência da falta de método e de elevação moral, se tornam instrumentos das forças inconscientes ou dos maus Espíritos.

São numerosos os abusos, e neles acham os adversários do Espiritismo os elementos de uma crítica pérfida e de uma fácil difamação.

O interesse e a dignidade da causa impõem, o dever de reagir contra essa experimentação banal, contra essa onda avassaladora de fenômenos vulgares que ameaçam submergir as culminâncias da ideia.

*

O Espiritismo representa uma fase nova da evolução humana. A lei que, através dos séculos, tem conduzido as diferentes frações da Humanidade, longo tempo separadas, a gradualmente aproximar-se, começa a fazer sentir no Além os seus efeitos. Os modos de correspondência que entretêm na Terra os homens vão-se estendendo pouco a pouco aos habitantes do mundo invisível, enquanto não atingem, mediante novos processos, as famílias humanas que povoam as Terras do espaço.

Contudo, nas sucessivas ampliações do seu campo de ação, a Humanidade tropeça em inúmeras dificuldades. As relações, multiplicando-se, nem sempre trazem favoráveis resultados; também oferecem perigos, sobretudo no que se refere ao mundo oculto, mais difícil que o nosso de penetrar e analisar. Lá, como aqui, o saber e a ignorância, a verdade e o erro, a virtude e o vício existem, com esta agravante: ao passo que fazem sentir sua influência, permanecem encobertos aos nossos olhos; donde a necessidade de abordar o terreno da experimentação com extrema prudência, de longos e pacientes estudos preliminares.

É necessário aliar os conhecimentos teóricos ao espírito de investigação e da elevação moral, para estar verdadeiramente apto a discernir no Espiritismo o bem do mal, o verdadeiro do falso, a realidade da ilusão. É preciso compenetrar-se do verdadeiro caráter da mediunidade, das responsabilidades que acarreta, dos fins para que nos é concedida.

O Espiritismo não é somente a demonstração, pelos fatos, da sobrevivência; é também o veiculo por que descem sobre a Humanidade as inspirações do mundo superior. A esse título é mais que uma ciência, é o ensino que o Céu transmite a Terra, reconstituição engrandecida e vulgarizada das tradições secretas do passado, o renascimento dessa escola profética que foi a mais célebre escola de médiuns do Oriente. Com o Espiritismo, as faculdades, que foram outrora o privilégio de alguns, se difundem por um grande número. A mediunidade se propaga; mas de par com as vantagens que proporciona, é necessário estar advertido dos seus escolhos e perigos.

Há, na realidade, dois espiritismos. Um nos põe em comunicação com os Espíritos superiores e também com as almas queridas que na Terra conhecemos e que foram à alegria da nossa existência. É por ele que se efetua a revelação permanente, a iniciação do homem nas leis supremas. E a fonte pujante da inspiração, a descida do Espírito ao envoltório humano, ao organismo do médium que, sob a sagrada influência, pode fazer ouvir palavras de luz e de vida, sobre cuja natureza é impossível o equívoco, porque penetram e reanimam a alma e esclarecem os obscuros problemas do destino. A impressão de grandiosidade que se desprende dessas manifestações deixa sempre um vestígio profundo nos corações e nas inteligências. Aqueles que nunca o experimentaram, não podem compreender o que é o verdadeiro Espiritismo.

Há, em seguida, outro gênero de experimentação, frívolo, mundano, que nos põe em contacto com os elementos inferiores do mundo invisível e tende a amesquinhar o respeito devido ao Além. É uma espécie de profanação da religião da morte, da solene manifestação dos que deixaram o invólucro da carne. 

Forçosos, entretanto, é reconhecer: ainda esse Espiritismo de baixa esfera tem sua utilidade. Ele nos familiariza com um dos aspectos do mundo oculto. Os fenômenos vulgares, as manifestações triviais fornecem às vezes magníficas provas de identidade; sinais característicos se evidenciam e forçam a convicção dos investigadores. Não nos devemos, porém, deter na observação de tais fenômenos senão na medida em que o seu estudo nos seja proveitoso e possamos exercer eficiente ação sobre os Espíritos atrasados que os produzem. Sua influência é molesta e deprimente para os médiuns. É preciso elevar mais altas as aspirações, subir pelo pensamento a regiões mais puras, aos superiores domicílios do Espírito. Somente aí encontra o homem as verdadeiras consolações – os socorros, as forças espirituais.

Nunca será demasiado repeti-lo: nesse domínio jamais obteremos efeitos que não sejam. proporcionais às nossas condições. Toda pessoa que, por seus desejos, por suas invocações, entra em relação com o mundo invisível, atrai fatalmente seres em afinidade com seu próprio estado moral e mental. O vasto império das almas está povoado de entidades benfazejas e maléficas; elas se desdobram por todos os graus da infinita escala, desde as mais baixas e grosseiras, vizinhas da animalidade, até os nobres e puros Espíritos, mensageiros de luz, que a todos os confins do tempo e do espaço vão levar as irradiações do pensamento divino. Se não sabemos ou não queremos orientar nossas aspirações, nossas vibrações fluídicas, na direção dos seres superiores, e captar sua assistência, ficamos à mercê das influências más que nos rodeiam, as quais, em muitos casos, têm conduzido o experimentador imprudente às mais cruéis decepções.

Se, ao contrário, pelo poder da vontade, libertando-nos das sugestões inferiores, subtraindo-nos das preocupações pueris, materiais e egoísticas, procuramos no Espiritismo um meio de elevação e aperfeiçoamento moral, poderemos em tal caso entrar em comunhão com as grandes almas, portadoras de verdades; fluidos vivificantes, regeneradores nos penetrarão; alentos poderosos nos elevarão das regiões serenas donde o espírito contempla o espetáculo da vida universal, majestoso harmonia das leis e das esferas planetárias.

Denis, L. Introdução. In: No Invisível

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Léon Denis, As Potências da Alma - A Vontade

O PROBLEMA DO SER, DO DESTINO E DA DOR

AS POTÊNCIAS DA ALMA - A VONTADE

O estudo do ser, a que consagramos a primeira parte desta obra, deixou-nos entrever a poderosa rede de forças, de energias ocultas em nós. Mostrou-nos que todo o nosso futuro, em seu desenvolvimento ilimitado, lá está contido no gérmen. As causas da felicidade não se acham em lugares determinados no espaço; estão em nós, nas profundezas misteriosas da alma, o que é confirmado por todas as grandes doutrinas. 

“O reino dos céus está dentro de vós”, disse o Cristo. 

O mesmo pensamento está por outra forma expresso nos Vedas: “Tu trazes em ti um amigo sublime que não conheces.” 

A sabedoria persa não é menos afirmativa: “Vós viveis no meio de armazéns cheios de riquezas e morreis de fome à porta.” (Suffis Ferdousis). 

Todos os grandes ensinamentos concordam neste ponto: É na vida íntima, no desabrochar de nossas potências, de nossas faculdades, de nossas virtudes, que está o manancial das felicidades futuras. Olhemos atentamente para o fundo de nós mesmos, fechemos nosso entendimento às coisas externas e, depois de havermos habituado nossos sentidos psíquicos à escuridade e ao silêncio, veremos surgir luzes inesperadas, ouviremos vozes fortificantes e consoladoras. Mas, há poucos homens que saibam ler em si, que saibam explorar as jazidas que encerram tesouros inestimáveis. Gastamos a vida em coisas banais, improfícuas; percorremos o caminho da existência sem nada saber de nós mesmos, das riquezas psíquicas, cuja valorização nos proporcionaria gozos inumeráveis. 

Há em toda alma humana dois centros ou, melhor, duas esferas de ação e expressão. Uma delas, a exterior, manifesta a personalidade, o “eu”, com suas paixões, suas fraquezas, sua mobilidade, sua insuficiência. Enquanto ela for a reguladora de nosso proceder, teremos a vida inferior, semeada de provações e males. A outra, interna, profunda, imutável, é, ao mesmo tempo, a sede da consciência, a fonte da vida espiritual, o templo de Deus em nós. É somente quando esse centro de ação domina o outro, quando suas impulsões nos dirigem, que se revelam nossas potências ocultas e que o Espírito se afirma em seu brilho e beleza. É por ele que estamos em comunhão com “o Pai que habita em nós”, segundo as palavras do Cristo, com o Pai que é o foco de todo o amor, o princípio de todas as ações. 

Por um desses centros perpetuamo-nos em mundos materiais, onde tudo é inferioridade, incerteza e dor; pelo outro temos entrada nos mundos celestes, onde tudo é paz, serenidade, grandeza. Somente pela manifestação crescente do Espírito divino em nós chegaremos a vencer o “eu” egoísta, a associar-nos plenamente à obra universal e eterna, a criar uma vida feliz e perfeita.

Por que meio poremos em movimento as potências internas e as orientaremos para um ideal elevado? Pela vontade! Os usos persistentes, tenazes, dessa faculdade soberana permitir-nos-á modificar a nossa natureza, vencer todos os obstáculos, dominar a matéria, a doença e a morte. 

É pela vontade que dirigimos nossos pensamentos para um alvo determinado. Na maior parte dos homens os pensamentos flutuam sem cessar. Sua mobilidade constante e sua variedade infinita oferecem limitado acesso às influências superiores. É preciso saber se concentrar, colocar o pensamento acorde com o pensamento divino. Então, a alma humana é fecundada pelo Espírito divino, que a envolve e penetra, tornando-a apta a realizar nobres tarefas, preparando-a para a vida do espaço, cujos esplendores ela começa fracamente a entrever desde este mundo. Os Espíritos elevados vêem e ouvem os pensamentos uns dos outros, com os quais são harmonias penetrantes, ao passo que os nossos são, as mais das vezes, somente discordâncias e confusão. Aprendamos, pois, a servir-nos de nossa vontade e, por ela, a unir nossos pensamentos a tudo o que é grande, à harmonia universal, cujas vibrações enchem o espaço e embalam os mundos. 


A vontade é a maior de todas as potências; é, em sua ação, comparável ao ímã. A vontade de viver, de desenvolver em nós a vida, atrai-nos novos recursos vitais; tal é o segredo da lei de evolução. A vontade pode atuar com intensidade sobre o corpo fluídico, ativar-lhe as vibrações e, dessa forma, apropriá-lo a um modo cada vez mais elevado de sensações, prepará-lo para mais alto grau de existência. 

O princípio de evolução não está na matéria, está na vontade, cuja ação tanto se estende à ordem invisível das coisas como à ordem visível e material. Esta é simplesmente a consequência daquela. O princípio superior, o motor da existência, é a vontade. A vontade divina é o supremo motor da vida universal. 

O que importa, acima de tudo, é compreender que podemos realizar tudo no domínio psíquico; nenhuma força permanece estéril quando se exerce de maneira constante, visando alcançar um desígnio conforme ao direito e à justiça. 

É o que se dá com a vontade; ela pode agir tanto no sono como na vigília, porque a alma valorosa, que para si mesma estabeleceu um objetivo, procura-o com tenacidade em ambas as fases de sua vida e determina assim uma corrente poderosa, que mina devagar e silenciosamente todos os obstáculos.

Com a preservação dá-se o mesmo que com a ação. A vontade, a confiança e o otimismo são outras tantas forças preservadoras, outros tantos baluartes opostos em nós a toda causa de desassossego, de perturbação, interna e externa. Bastam, às vezes, por si sós, para desviar o mal; ao passo que o desânimo, o medo e o mau-humor nos desarmam e nos entregam a ele sem defesa. O simples fato de olharmos de frente para o que chamamos o mal, o perigo, a dor, a resolução de os afrontarmos, de os vencermos, diminuem-lhes a importância e o efeito. 

Os americanos têm, com o nome de mind cure (cura mental) ou ciência cristã, aplicado esse método à terapêutica e não se pode negar que os resultados obtidos são consideráveis. Esse método resume-se na fórmula seguinte: “O pessimismo enfraquece; o otimismo fortalece.” Consiste na eliminação gradual do egoísmo, na união completa com a Vontade Suprema, causa das forças infinitas. Os casos de cura são numerosos e apoiam-se em testemunhos irrecusáveis.

De resto, foi esse – em todos os tempos e com formas diversas – o princípio da saúde física e moral.

Na ordem física, por exemplo, não se destroem os infusórios, os infinitamente pequenos, que vivem e se multiplicam em nós; mas se ganham forças para melhor lhes resistir.  Da mesma forma, nem sempre é possível, na ordem moral, afastar as vicissitudes da sorte, mas se pode adquirir força bastante para suportá-las com alegria, sobrepujá-las com esforço mental, dominá-las por tal forma que percam todo o aspecto ameaçador, para se transformarem em auxiliares de nosso progresso e de nosso bem. 

Em outra parte demonstramos, apoiando-nos em fatos recentes, o poder da alma sobre o corpo na sugestão e auto-sugestão. Limitar-nos-emos a lembrar outros exemplos ainda mais concludentes.

Louise Lateau, a estigmatizada de Bois-d'Haine, cujo caso foi estudado por uma comissão da Academia de Medicina da Bélgica, fazia, meditando sobre a Paixão do Cristo, correr à vontade o sangue dos seus pés, mãos e lado esquerdo. A hemorragia durava muitas horas.

Pierre Janet observou casos análogos na Salpêtrière, em Paris. Uma extática apresentava estigmas nos pés quando lhos metiam num aparelho. 

Louis Vivé, em suas crises, a si mesmo dava ordem de sangrar-se em horas determinadas e o fenômeno produzia-se com exatidão. 

Encontra-se a mesma ordem de fatos em certos sonhos, bem como nos fenômenos chamados “noevi” ou sinais de nascença. Em todos os domínios da observação, achamos a prova de que a vontade impressiona a matéria e pode submetê-la a seus desígnios. Essa lei manifestas-se com mais intensidade ainda no campo da vida invisível. É em virtude das mesmas regras que os Espíritos criam as formas e os atributos que nos permitem reconhecê-los nas sessões de materialização. 

Pela vontade criadora dos grandes Espíritos e, acima de tudo, do Espírito divino, uma vida repleta de maravilhas desenvolve-se e se estende, de degrau em degrau, até ao infinito, nas profundezas do céu, vida incomparavelmente superior a todas as maravilhas criadas pela arte humana e tanto mais perfeita quanto mais se aproxima de Deus. 

Se o homem conhecesse a extensão dos recursos que nele germinam, talvez ficasse deslumbrado e, em vez de se julgar fraco e temer o futuro, compreenderia a sua força, sentiria que ele próprio pode criar esse futuro. 

Cada alma é um foco de vibrações que a vontade põe em movimento. Uma sociedade é um agrupamento de vontades que, quando estão unidas, concentradas num mesmo fito, constituem centro de forças irresistíveis. As humanidades são focos ainda mais poderosos, que vibram através da imensidade. 

Pela educação e exercício da vontade, certos povos chegam a resultados que parecem prodígios. 

A energia mental, o vigor de espírito dos japoneses, seu desprezo pela dor, sua impassibilidade diante da morte, causaram pasmo aos ocidentais e foram para eles uma espécie de revelação. O japonês habitua-se desde a infância a dominar suas impressões, a nada deixar trair dos desgostos, das decepções, dos sentimentos por que passa, a ficar impenetrável, a não se queixar nunca, a nunca se encolerizar, a receber sempre com boa cara os reveses. 

Tal educação retempera os ânimos e assegura a vitória em todos os terrenos. Na grande tragédia da existência e da História, o heroísmo representa o papel principal e é a vontade que faz os heróis. 

Esse estado de espírito não é privilégio dos japoneses. Os hindus chegam também, com o emprego do que eles chamam a hatha-yoga, ou exercício da vontade, a suprimir em si o sentimento da dor física.

Numa conferência feita no Instituto Psicológico de Paris e que Les Annales des Sciences Psychiques, de novembro de 1906, reproduziram, Annie Besant cita vários casos notáveis devidos a essas práticas persistentes. 

Um hindu possuirá bastante poder de vontade para conservar um braço erguido até se atrofiar. Outro deitar-se-á numa cama eriçada de pontas de ferro sem sentir nenhuma dor. Encontra-se mesmo esse poder em pessoas que não praticaram a hatha-yoga. A conferencista cita o caso de um de seus amigos que, tendo ido à caça do tigre e tendo recebido, por causa da imperícia de um caçador, uma bala na coxa, recusou submeter-se à ação do clorofórmio para a extração do projétil, afirmando ao cirurgião que teria suficiente domínio sobre si mesmo para ficar imóvel e impassível durante a operação. Esta efetuou-se; o ferido tinha plena consciência de si mesmo e não fez um só movimento. “O que para outro teria sido uma tortura atroz, nada era para ele; havia fixado sua consciência na cabeça e nenhuma dor sentira. Sem ser yogui, possuía o poder de concentrar a vontade, poder que, nas Índias, se encontra frequentemente.” 

Pelo que se acaba de ler, pode-se julgar quão diferente dos nossos são a educação mental e o objetivo dos asiáticos. Tudo, neles, tende a desenvolver o homem interior, sua vontade, sua consciência, à vista dos vastos ciclos de evolução que se lhes abrem, enquanto o europeu adota, de preferência, como objetivo, os bens imediatos, limitados pelo círculo da vida presente. Os alvos em que se põe à mira nos dois casos são diferentes; e essa divergência resulta da concepção essencialmente diferente do papel do ser no universo. Os asiáticos consideraram por muito tempo, com um espanto misturado de piedade, nossa agitação febril, nossa preocupação pelas coisas contingentes e sem futuro, nossa ignorância das coisas estáveis, profundas, indestrutíveis, que constituem a verdadeira força do homem. Daí o contraste surpreendente que oferecem as civilizações do Oriente e do Ocidente. A superioridade pertence evidentemente à que abarca mais vasto horizonte e se inspira nas verdadeiras leis da alma e de seu futuro. Pode ter parecido atrasada aos observadores superficiais, enquanto as duas civilizações fizeram paralelamente sua evolução, sem que entre uma e outra houvesse choques excessivos. Mas, desde que as necessidades da existência e a pressão crescente dos povos do Ocidente forçaram os asiáticos a entrar na corrente dos progressos modernos – tal é o caso dos japoneses –, pode-se ver que as qualidades eminentes dessa raça, manifestando-se no domínio material, podiam assegurar-lhes igualmente a supremacia. Se esse estado de coisas se acentuar, como é de recear, se o Japão conseguir arrastar consigo todo o Extremo Oriente, é possível que mude o eixo da dominação do mundo e passe de uma raça para outra, principalmente se a Europa persistir em não se interessar pelo que constitui o mais alto objetivo da vida humana e em contentar-se com um ideal inferior e quase bárbaro. 

Mesmo restringindo o campo de nossas observações à raça branca, aí vamos verificar também que as nações de vontade mais firme, mais tenaz, vão pouco a pouco tomando predomínio sobre as outras. É o que se dá com os povos anglo-saxônios e germânicos. Estamos vendo o que a Inglaterra tem podido realizar, através dos tempos, para execução de seu plano de ação. A Alemanha, com seu espírito de método e continuidade, soube criar e manter uma poderosa coesão em detrimento de seus vizinhos, não menos bem dotados do que ela, mas menos resolutos e perseverantes. A América do Norte prepara também para si um grande lugar no concerto dos povos.

A França é, pelo contrário, uma nação de vontade fraca e volúvel. Os franceses passam de uma ideia a outra com extrema mobilidade e a esse defeito não são estranhas as vicissitudes de sua História. Seus primeiros impulsos são admiráveis, vibrantes de entusiasmo. Mas, se com facilidade empreendem uma obra, com a mesma facilidade a abandonam, quando o pensamento já a vai edificando e os materiais se vão reunindo silenciosamente ao seu derredor. Por isso o mundo apresenta, por toda parte, vestígios meio apagados de sua ação passageira, de seus esforços depressa interrompidos. 

Além disso, o pessimismo e o materialismo, que cada vez mais se alastram entre eles, tendem também a amesquinhar as qualidades generosas de sua raça. O positivismo e o agnosticismo trabalham sistematicamente para apagar o que restava de viril na alma francesa; e os recursos profundos do espírito francês atrofiam-se por falta de uma educação sólida e de um ideal elevado. 

Aprendamos, pois, a criar uma “vontade de potência”, de natureza mais elevada do que a sonhada por Nietzsche. Fortaleçamos em torno de nós os espíritos e os corações, se não quisermos ver nossas sociedades votadas à decadência irremediável. 


Querer é poder! O poder da vontade é ilimitado. O homem, consciente de si mesmo, de seus recursos latentes, sente crescerem suas forças na razão dos esforços. Sabe que tudo o que de bem e bom desejar há de, mais cedo ou mais tarde, realizar-se inevitavelmente, ou na atualidade ou na série das suas existências, quando seu pensamento se puser de acordo com a Lei divina. E é nisso que se verifica a palavra celeste: “A fé transporta montanhas.” 

Não é consolador e belo poder dizer: “Sou uma inteligência e uma vontade livres; a mim mesmo me fiz, inconscientemente, através das idades; edifiquei lentamente minha individualidade e liberdade e agora conheço a grandeza e a força que há em mim. Amparar-me-ei nelas; não deixarei que uma simples dúvida as empane por um instante sequer e, fazendo uso delas com o auxílio de Deus e de meus irmãos do espaço, elevar-me-ei acima de todas as dificuldades; vencerei o mal em mim; desapegar-me-ei de tudo o que me acorrenta às coisas grosseiras para levantar o voo para os mundos felizes!” 

Vejo claramente o caminho que se desenrola e que tenho de percorrer. Esse caminho atravessa a extensão ilimitada e não tem fim; mas, para guiar-me na estrada infinita, tenho um guia seguro – a compreensão da lei de vida, progresso e amor que rege todas as coisas; aprendi a conhecer-me, a crer em mim e em Deus. Possuo, pois, a chave de toda elevação e, na vida imensa que tenho diante de mim, conservar-me-ei firme, inabalável na vontade de enobrecer-me e elevar-me, cada vez mais; atrairei, com o auxílio de minha inteligência, que é filha de Deus, todas as riquezas morais e participarei de todas as maravilhas do Cosmo. 

Minha vontade chama-me: “Para frente, sempre para frente, cada vez mais conhecimento, mais vida, vida divina!” E com ela conquistarei a plenitude da existência, construirei para mim uma personalidade melhor, mais radiosa e amante. Saí para sempre do estado inferior do ser ignorante, inconsciente de seu valor e poder; afirmo-me na independência e dignidade de minha consciência e estendo a mão a todos os meus irmãos, dizendo-lhes: 

Despertai de vosso pesado sono; rasgai o véu material que vos envolve, aprendei a conhecer-vos, a conhecer as potências de vossa alma e a utilizá-las. Todas as vozes da Natureza, todas as vozes do espaço vos bradam: “Levantai-vos e marchai! Apressai-vos para a conquista de vossos destinos!” 

A todos vós que vergais ao peso da vida, que, julgando-vos sós e fracos, vos entregais à tristeza, ao desespero, ou que aspirais ao nada, venho dizer: “O nada não existe; a morte é um novo nascimento, um encaminhar para novas tarefas, novos trabalhos, novas colheitas; a vida é uma comunhão universal e eterna que liga Deus a todos os seus filhos.”

A vós todos, que vos credes gastos pelos sofrimentos e decepções, pobres seres aflitos, corações que o vento áspero das provações secou; Espíritos esmagados, dilacerados pela roda de ferro da adversidade, venho dizer-vos: 

“Não há alma que não possa renascer, fazendo brotar novas florescências. Basta-vos querer para sentirdes o despertar em vós de forças desconhecidas. Crede em vós, em vosso rejuvenescimento em novas vidas; crede em vossos destinos imortais. Crede em Deus, Sol dos sóis, foco imenso, do qual brilha em vós uma centelha, que se pode converter em chama ardente e generosa! 

“Sabei que todo homem pode ser bom e feliz; para vir a sê-lo basta que o queira com energia e constância. A concepção mental do ser, elaborada na obscuridade das existências dolorosas, preparada pela vagarosa evolução das idades, expandir-se-á à luz das vidas superiores e todos conquistarão a magnífica individualidade que lhes está reservada. 

“Dirigi incessantemente vosso pensamento para esta verdade: podeis vir a ser o que quiserdes. E sabei querer ser cada vez maiores e melhores. Tal é a noção do progresso eterno e o meio de realizá-lo; tal é o segredo da força mental, da qual emanam todas as forças magnéticas e físicas. Quando tiverdes conquistado esse domínio sobre vós mesmos, não mais tereis que temer os retardamentos nem as quedas, nem as doenças, nem a morte; tereis feito de vosso “eu” inferior e frágil uma alta e poderosa individualidade!”

Denis, L. As potências da alma: A vontade. In: O Problema do Ser, do Destino e da Dor: 3a. parte, cap. 20.

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