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Este é um ambiente dedicado ao estudo da consciência em seus mais variados estágios de evolução e, principalmente, no estágio em que adquirimos a possibilidade de nos manifestar na forma humana. Por isso, decidimos dedicar nossa atual reencarnação para aprofundarmos o nosso autoconhecimento e ajudarmos outros irmãos que também necessitam de esclarecimento, e assim nos tornarmos cada vez mais conscientes de nós mesmos, de nossa bagagem evolutiva, adquirindo mais conhecimentos e experiências através dos quais possamos construir as “sinapses” capazes de nos “revelar” novas realidades, ou melhor, de nos revelar a verdadeira realidade, abandonando as ilusões a que estamos fixados por tanto tempo.
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quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Léon Denis, Capítulo XX - As Potências da Alma - A Vontade

O PROBLEMA DO SER, DO DESTINO E DA DOR

TERCEIRA PARTE - AS POTÊNCIAS DA ALMA

CAPÍTULO XX - A VONTADE

O estudo do ser, a que consagramos a primeira parte desta obra, deixou-nos entrever a poderosa rede de forças, de energias ocultas em nós. Mostrou-nos que todo o nosso futuro, em seu desenvolvimento ilimitado, lá está contido no gérmen. As causas da felicidade não se acham em lugares determinados no espaço; estão em nós, nas profundezas misteriosas da alma, o que é confirmado por todas as grandes doutrinas. 

“O reino dos céus está dentro de vós”, disse o Cristo. 

O mesmo pensamento está por outra forma expresso nos Vedas: “Tu trazes em ti um amigo sublime que não conheces.” 

A sabedoria persa não é menos afirmativa: “Vós viveis no meio de armazéns cheios de riquezas e morreis de fome à porta.” (Suffis Ferdousis). 

Todos os grandes ensinamentos concordam neste ponto: É na vida íntima, no desabrochar de nossas potências, de nossas faculdades, de nossas virtudes, que está o manancial das felicidades futuras. Olhemos atentamente para o fundo de nós mesmos, fechemos nosso entendimento às coisas externas e, depois de havermos habituado nossos sentidos psíquicos à escuridade e ao silêncio, veremos surgir luzes inesperadas, ouviremos vozes fortificantes e consoladoras. Mas, há poucos homens que saibam ler em si, que saibam explorar as jazidas que encerram tesouros inestimáveis. Gastamos a vida em coisas banais, improfícuas; percorremos o caminho da existência sem nada saber de nós mesmos, das riquezas psíquicas, cuja valorização nos proporcionaria gozos inumeráveis. 

Há em toda alma humana dois centros ou, melhor, duas esferas de ação e expressão. Uma delas, a exterior, manifesta a personalidade, o “eu”, com suas paixões, suas fraquezas, sua mobilidade, sua insuficiência. Enquanto ela for a reguladora de nosso proceder, teremos a vida inferior, semeada de provações e males. A outra, interna, profunda, imutável, é, ao mesmo tempo, a sede da consciência, a fonte da vida espiritual, o templo de Deus em nós. É somente quando esse centro de ação domina o outro, quando suas impulsões nos dirigem, que se revelam nossas potências ocultas e que o Espírito se afirma em seu brilho e beleza. É por ele que estamos em comunhão com “o Pai que habita em nós”, segundo as palavras do Cristo, com o Pai que é o foco de todo o amor, o princípio de todas as ações. 

Por um desses centros perpetuamo-nos em mundos materiais, onde tudo é inferioridade, incerteza e dor; pelo outro temos entrada nos mundos celestes, onde tudo é paz, serenidade, grandeza. Somente pela manifestação crescente do Espírito divino em nós chegaremos a vencer o “eu” egoísta, a associar-nos plenamente à obra universal e eterna, a criar uma vida feliz e perfeita.

Por que meio poremos em movimento as potências internas e as orientaremos para um ideal elevado? Pela vontade! Os usos persistentes, tenazes, dessa faculdade soberana permitir-nos-á modificar a nossa natureza, vencer todos os obstáculos, dominar a matéria, a doença e a morte. 

É pela vontade que dirigimos nossos pensamentos para um alvo determinado. Na maior parte dos homens os pensamentos flutuam sem cessar. Sua mobilidade constante e sua variedade infinita oferecem limitado acesso às influências superiores. É preciso saber se concentrar, colocar o pensamento acorde com o pensamento divino. Então, a alma humana é fecundada pelo Espírito divino, que a envolve e penetra, tornando-a apta a realizar nobres tarefas, preparando-a para a vida do espaço, cujos esplendores ela começa fracamente a entrever desde este mundo. Os Espíritos elevados vêem e ouvem os pensamentos uns dos outros, com os quais são harmonias penetrantes, ao passo que os nossos são, as mais das vezes, somente discordâncias e confusão. Aprendamos, pois, a servir-nos de nossa vontade e, por ela, a unir nossos pensamentos a tudo o que é grande, à harmonia universal, cujas vibrações enchem o espaço e embalam os mundos. 


A vontade é a maior de todas as potências; é, em sua ação, comparável ao ímã. A vontade de viver, de desenvolver em nós a vida, atrai-nos novos recursos vitais; tal é o segredo da lei de evolução. A vontade pode atuar com intensidade sobre o corpo fluídico, ativar-lhe as vibrações e, dessa forma, apropriá-lo a um modo cada vez mais elevado de sensações, prepará-lo para mais alto grau de existência. 

O princípio de evolução não está na matéria, está na vontade, cuja ação tanto se estende à ordem invisível das coisas como à ordem visível e material. Esta é simplesmente a consequência daquela. O princípio superior, o motor da existência, é a vontade. A vontade divina é o supremo motor da vida universal. 

O que importa, acima de tudo, é compreender que podemos realizar tudo no domínio psíquico; nenhuma força permanece estéril quando se exerce de maneira constante, visando alcançar um desígnio conforme ao direito e à justiça. 

É o que se dá com a vontade; ela pode agir tanto no sono como na vigília, porque a alma valorosa, que para si mesma estabeleceu um objetivo, procura-o com tenacidade em ambas as fases de sua vida e determina assim uma corrente poderosa, que mina devagar e silenciosamente todos os obstáculos.

Com a preservação dá-se o mesmo que com a ação. A vontade, a confiança e o otimismo são outras tantas forças preservadoras, outros tantos baluartes opostos em nós a toda causa de desassossego, de perturbação, interna e externa. Bastam, às vezes, por si sós, para desviar o mal; ao passo que o desânimo, o medo e o mau-humor nos desarmam e nos entregam a ele sem defesa. O simples fato de olharmos de frente para o que chamamos o mal, o perigo, a dor, a resolução de os afrontarmos, de os vencermos, diminuem-lhes a importância e o efeito. 

Os americanos têm, com o nome de mind cure (cura mental) ou ciência cristã, aplicado esse método à terapêutica e não se pode negar que os resultados obtidos são consideráveis. Esse método resume-se na fórmula seguinte: “O pessimismo enfraquece; o otimismo fortalece.” Consiste na eliminação gradual do egoísmo, na união completa com a Vontade Suprema, causa das forças infinitas. Os casos de cura são numerosos e apoiam-se em testemunhos irrecusáveis.

De resto, foi esse – em todos os tempos e com formas diversas – o princípio da saúde física e moral.

Na ordem física, por exemplo, não se destroem os infusórios, os infinitamente pequenos, que vivem e se multiplicam em nós; mas se ganham forças para melhor lhes resistir.  Da mesma forma, nem sempre é possível, na ordem moral, afastar as vicissitudes da sorte, mas se pode adquirir força bastante para suportá-las com alegria, sobrepujá-las com esforço mental, dominá-las por tal forma que percam todo o aspecto ameaçador, para se transformarem em auxiliares de nosso progresso e de nosso bem. 

Em outra parte demonstramos, apoiando-nos em fatos recentes, o poder da alma sobre o corpo na sugestão e auto-sugestão. Limitar-nos-emos a lembrar outros exemplos ainda mais concludentes.

Louise Lateau, a estigmatizada de Bois-d'Haine, cujo caso foi estudado por uma comissão da Academia de Medicina da Bélgica, fazia, meditando sobre a Paixão do Cristo, correr à vontade o sangue dos seus pés, mãos e lado esquerdo. A hemorragia durava muitas horas.

Pierre Janet observou casos análogos na Salpêtrière, em Paris. Uma extática apresentava estigmas nos pés quando lhos metiam num aparelho. 

Louis Vivé, em suas crises, a si mesmo dava ordem de sangrar-se em horas determinadas e o fenômeno produzia-se com exatidão. 

Encontra-se a mesma ordem de fatos em certos sonhos, bem como nos fenômenos chamados “noevi” ou sinais de nascença. Em todos os domínios da observação, achamos a prova de que a vontade impressiona a matéria e pode submetê-la a seus desígnios. Essa lei manifestas-se com mais intensidade ainda no campo da vida invisível. É em virtude das mesmas regras que os Espíritos criam as formas e os atributos que nos permitem reconhecê-los nas sessões de materialização. 

Pela vontade criadora dos grandes Espíritos e, acima de tudo, do Espírito divino, uma vida repleta de maravilhas desenvolve-se e se estende, de degrau em degrau, até ao infinito, nas profundezas do céu, vida incomparavelmente superior a todas as maravilhas criadas pela arte humana e tanto mais perfeita quanto mais se aproxima de Deus. 

Se o homem conhecesse a extensão dos recursos que nele germinam, talvez ficasse deslumbrado e, em vez de se julgar fraco e temer o futuro, compreenderia a sua força, sentiria que ele próprio pode criar esse futuro. 

Cada alma é um foco de vibrações que a vontade põe em movimento. Uma sociedade é um agrupamento de vontades que, quando estão unidas, concentradas num mesmo fito, constituem centro de forças irresistíveis. As humanidades são focos ainda mais poderosos, que vibram através da imensidade. 

Pela educação e exercício da vontade, certos povos chegam a resultados que parecem prodígios. 

A energia mental, o vigor de espírito dos japoneses, seu desprezo pela dor, sua impassibilidade diante da morte, causaram pasmo aos ocidentais e foram para eles uma espécie de revelação. O japonês habitua-se desde a infância a dominar suas impressões, a nada deixar trair dos desgostos, das decepções, dos sentimentos por que passa, a ficar impenetrável, a não se queixar nunca, a nunca se encolerizar, a receber sempre com boa cara os reveses. 

Tal educação retempera os ânimos e assegura a vitória em todos os terrenos. Na grande tragédia da existência e da História, o heroísmo representa o papel principal e é a vontade que faz os heróis. 

Esse estado de espírito não é privilégio dos japoneses. Os hindus chegam também, com o emprego do que eles chamam a hatha-yoga, ou exercício da vontade, a suprimir em si o sentimento da dor física.

Numa conferência feita no Instituto Psicológico de Paris e que Les Annales des Sciences Psychiques, de novembro de 1906, reproduziram, Annie Besant cita vários casos notáveis devidos a essas práticas persistentes. 

Um hindu possuirá bastante poder de vontade para conservar um braço erguido até se atrofiar. Outro deitar-se-á numa cama eriçada de pontas de ferro sem sentir nenhuma dor. Encontra-se mesmo esse poder em pessoas que não praticaram a hatha-yoga. A conferencista cita o caso de um de seus amigos que, tendo ido à caça do tigre e tendo recebido, por causa da imperícia de um caçador, uma bala na coxa, recusou submeter-se à ação do clorofórmio para a extração do projétil, afirmando ao cirurgião que teria suficiente domínio sobre si mesmo para ficar imóvel e impassível durante a operação. Esta efetuou-se; o ferido tinha plena consciência de si mesmo e não fez um só movimento. “O que para outro teria sido uma tortura atroz, nada era para ele; havia fixado sua consciência na cabeça e nenhuma dor sentira. Sem ser yogui, possuía o poder de concentrar a vontade, poder que, nas Índias, se encontra frequentemente.” 

Pelo que se acaba de ler, pode-se julgar quão diferente dos nossos são a educação mental e o objetivo dos asiáticos. Tudo, neles, tende a desenvolver o homem interior, sua vontade, sua consciência, à vista dos vastos ciclos de evolução que se lhes abrem, enquanto o europeu adota, de preferência, como objetivo, os bens imediatos, limitados pelo círculo da vida presente. Os alvos em que se põe à mira nos dois casos são diferentes; e essa divergência resulta da concepção essencialmente diferente do papel do ser no universo. Os asiáticos consideraram por muito tempo, com um espanto misturado de piedade, nossa agitação febril, nossa preocupação pelas coisas contingentes e sem futuro, nossa ignorância das coisas estáveis, profundas, indestrutíveis, que constituem a verdadeira força do homem. Daí o contraste surpreendente que oferecem as civilizações do Oriente e do Ocidente. A superioridade pertence evidentemente à que abarca mais vasto horizonte e se inspira nas verdadeiras leis da alma e de seu futuro. Pode ter parecido atrasada aos observadores superficiais, enquanto as duas civilizações fizeram paralelamente sua evolução, sem que entre uma e outra houvesse choques excessivos. Mas, desde que as necessidades da existência e a pressão crescente dos povos do Ocidente forçaram os asiáticos a entrar na corrente dos progressos modernos – tal é o caso dos japoneses –, pode-se ver que as qualidades eminentes dessa raça, manifestando-se no domínio material, podiam assegurar-lhes igualmente a supremacia. Se esse estado de coisas se acentuar, como é de recear, se o Japão conseguir arrastar consigo todo o Extremo Oriente, é possível que mude o eixo da dominação do mundo e passe de uma raça para outra, principalmente se a Europa persistir em não se interessar pelo que constitui o mais alto objetivo da vida humana e em contentar-se com um ideal inferior e quase bárbaro. 

Mesmo restringindo o campo de nossas observações à raça branca, aí vamos verificar também que as nações de vontade mais firme, mais tenaz, vão pouco a pouco tomando predomínio sobre as outras. É o que se dá com os povos anglo-saxônios e germânicos. Estamos vendo o que a Inglaterra tem podido realizar, através dos tempos, para execução de seu plano de ação. A Alemanha, com seu espírito de método e continuidade, soube criar e manter uma poderosa coesão em detrimento de seus vizinhos, não menos bem dotados do que ela, mas menos resolutos e perseverantes. A América do Norte prepara também para si um grande lugar no concerto dos povos.

A França é, pelo contrário, uma nação de vontade fraca e volúvel. Os franceses passam de uma ideia a outra com extrema mobilidade e a esse defeito não são estranhas as vicissitudes de sua História. Seus primeiros impulsos são admiráveis, vibrantes de entusiasmo. Mas, se com facilidade empreendem uma obra, com a mesma facilidade a abandonam, quando o pensamento já a vai edificando e os materiais se vão reunindo silenciosamente ao seu derredor. Por isso o mundo apresenta, por toda parte, vestígios meio apagados de sua ação passageira, de seus esforços depressa interrompidos. 

Além disso, o pessimismo e o materialismo, que cada vez mais se alastram entre eles, tendem também a amesquinhar as qualidades generosas de sua raça. O positivismo e o agnosticismo trabalham sistematicamente para apagar o que restava de viril na alma francesa; e os recursos profundos do espírito francês atrofiam-se por falta de uma educação sólida e de um ideal elevado. 

Aprendamos, pois, a criar uma “vontade de potência”, de natureza mais elevada do que a sonhada por Nietzsche. Fortaleçamos em torno de nós os espíritos e os corações, se não quisermos ver nossas sociedades votadas à decadência irremediável. 


Querer é poder! O poder da vontade é ilimitado. O homem, consciente de si mesmo, de seus recursos latentes, sente crescerem suas forças na razão dos esforços. Sabe que tudo o que de bem e bom desejar há de, mais cedo ou mais tarde, realizar-se inevitavelmente, ou na atualidade ou na série das suas existências, quando seu pensamento se puser de acordo com a Lei divina. E é nisso que se verifica a palavra celeste: “A fé transporta montanhas.” 

Não é consolador e belo poder dizer: “Sou uma inteligência e uma vontade livres; a mim mesmo me fiz, inconscientemente, através das idades; edifiquei lentamente minha individualidade e liberdade e agora conheço a grandeza e a força que há em mim. Amparar-me-ei nelas; não deixarei que uma simples dúvida as empane por um instante sequer e, fazendo uso delas com o auxílio de Deus e de meus irmãos do espaço, elevar-me-ei acima de todas as dificuldades; vencerei o mal em mim; desapegar-me-ei de tudo o que me acorrenta às coisas grosseiras para levantar o voo para os mundos felizes!” 

Vejo claramente o caminho que se desenrola e que tenho de percorrer. Esse caminho atravessa a extensão ilimitada e não tem fim; mas, para guiar-me na estrada infinita, tenho um guia seguro – a compreensão da lei de vida, progresso e amor que rege todas as coisas; aprendi a conhecer-me, a crer em mim e em Deus. Possuo, pois, a chave de toda elevação e, na vida imensa que tenho diante de mim, conservar-me-ei firme, inabalável na vontade de enobrecer-me e elevar-me, cada vez mais; atrairei, com o auxílio de minha inteligência, que é filha de Deus, todas as riquezas morais e participarei de todas as maravilhas do Cosmo. 

Minha vontade chama-me: “Para frente, sempre para frente, cada vez mais conhecimento, mais vida, vida divina!” E com ela conquistarei a plenitude da existência, construirei para mim uma personalidade melhor, mais radiosa e amante. Saí para sempre do estado inferior do ser ignorante, inconsciente de seu valor e poder; afirmo-me na independência e dignidade de minha consciência e estendo a mão a todos os meus irmãos, dizendo-lhes: 

Despertai de vosso pesado sono; rasgai o véu material que vos envolve, aprendei a conhecer-vos, a conhecer as potências de vossa alma e a utilizá-las. Todas as vozes da Natureza, todas as vozes do espaço vos bradam: “Levantai-vos e marchai! Apressai-vos para a conquista de vossos destinos!” 

A todos vós que vergais ao peso da vida, que, julgando-vos sós e fracos, vos entregais à tristeza, ao desespero, ou que aspirais ao nada, venho dizer: “O nada não existe; a morte é um novo nascimento, um encaminhar para novas tarefas, novos trabalhos, novas colheitas; a vida é uma comunhão universal e eterna que liga Deus a todos os seus filhos.”

A vós todos, que vos credes gastos pelos sofrimentos e decepções, pobres seres aflitos, corações que o vento áspero das provações secou; Espíritos esmagados, dilacerados pela roda de ferro da adversidade, venho dizer-vos: 

“Não há alma que não possa renascer, fazendo brotar novas florescências. Basta-vos querer para sentirdes o despertar em vós de forças desconhecidas. Crede em vós, em vosso rejuvenescimento em novas vidas; crede em vossos destinos imortais. Crede em Deus, Sol dos sóis, foco imenso, do qual brilha em vós uma centelha, que se pode converter em chama ardente e generosa! 

“Sabei que todo homem pode ser bom e feliz; para vir a sê-lo basta que o queira com energia e constância. A concepção mental do ser, elaborada na obscuridade das existências dolorosas, preparada pela vagarosa evolução das idades, expandir-se-á à luz das vidas superiores e todos conquistarão a magnífica individualidade que lhes está reservada. 

“Dirigi incessantemente vosso pensamento para esta verdade: podeis vir a ser o que quiserdes. E sabei querer ser cada vez maiores e melhores. Tal é a noção do progresso eterno e o meio de realizá-lo; tal é o segredo da força mental, da qual emanam todas as forças magnéticas e físicas. Quando tiverdes conquistado esse domínio sobre vós mesmos, não mais tereis que temer os retardamentos nem as quedas, nem as doenças, nem a morte; tereis feito de vosso “eu” inferior e frágil uma alta e poderosa individualidade!”

Denis, L. As potências da alma: A vontade. In: O Problema do Ser, do Destino e da Dor: 3a. parte, cap. 20.

Jesus e Vida, Joanna de Ângelis, Capítulo 14 - Interação Mente-Corpo

JESUS E VIDA

CAPÍTULO 14 - INTERAÇÃO MENTE-CORPO

Sem qualquer contestação, a interação mente-corpo faz parte automática do processo saúde-doença no ser humano.

De acordo com os procedimentos mentais, são inevitáveis os reflexos orgânicos, mesmo do ponto de vista fisiológico, considerando-se a delicada estrutura de que se constituem os órgãos, especialmente na sua gênese energética.

O estresse, a ansiedade, os medos, a solidão, que se apresentam como alguns dos fatores propiciadores do transtorno bipolar do comportamento, assim como alguns fisiológicos na esquizofrenia, qual a abundância da dopamina, demonstram um interrelacionamento entre os estados mentais e os consequentes de natureza orgânica.

As pessoas extrovertidas, autoconfiantes, sensatas, apresentam menor índice de enfermidades do que aquelas introvertidas, desconfiadas, instáveis emocionalmente. Nas primeiras, a produção de imunoglobulina auxilia a estabilidade do aparelho imunológico, enquanto que as outras, produzindo a mesma substância em menor escala, ficam mais susceptíveis às infecções, particularmente as de natureza respiratória...

Desse modo, aqueles indivíduos que cultivam as boas ideias, que se esforçam por condutas equilibradas sem coarctações perturbadoras nem castrações afligentes, que amam e exercitam a paciência, a solidariedade e a compaixão, gozam de mais saúde e bem-estar do que os egoístas, os pessimistas, os irresolutos...

Sendo a mente uma emanação do espírito, dele procedem os impositivos necessários à evolução, tendo em vista a anterioridade das experiências vivenciadas em existências passadas.

Programador dos acontecimentos que envolvem o ministério da vida física, o espírito é submetido aos impositivos que lhe ampliam a capacidade de crescimento, ainda adormecida no cerne de si mesmo, movimentando as energias indispensáveis à consecução do programa que lhe diz respeito.

Por consequência, emite pensamentos que se transformam em força contínua, cuja qualidade pode contribuir para o equilíbrio ou para o desajustamento das peças de que se utiliza durante a reencarnação.

Aqueles de natureza perturbadora, frutos de culpas e de conflitos acumulados, de ansiedades e invejas, de atribulação e competitividade perniciosa, interferem no campo vibratório das células, desarticulando-lhes a harmonia. Enquanto que, os que expressam esperança e ternura, resignação e coragem, confiança e renovação interior, estimulam os mesmos núcleos, produzindo harmonia e ampliando as resistências em relação às invasões microbianas, às agressões mentais externas e às influenciações espirituais enfermiças.

Nesse sentido, expressam-se como de alta valia os contributos da oração, da meditação, da generosidade, do cultivo dos bons e relevantes pensamentos, que estimulam a harmonia em detrimento dos destrambelhos de toda ordem.

Inegavelmente, cada um é, portanto, aquilo que elabora mentalmente, a que se fixa, que exterioriza do imo.

Os masoquistas estão sempre enfermos, do mesmo modo que os autoflageladores e néscios morais.

*

Modernas pesquisas médicas em várias especialidades confirmam os resultados de tais comportamentos, quando constatam os excelentes resultados nos prontuários de pacientes que oram e que são beneficiados pelas preces que lhes são dirigidas, que cultivam a confiança em Deus e no seu médico, que cooperam com as terapias a que são submetidos, que não reclamam da enfermidade, considerando-a como fenômeno natural do organismo.

De igual maneira, os recalcitrantes e revoltados, destituídos de fé religiosa e sempre desconfiados de tudo e de todos, nada obstante os cuidadosos tratamentos a que são submetidos, têm sempre piorado o seu estado, chegando a situações irreversíveis, quando não surpreendidos pela morte em estado de desarvoramento emocional.

Sem qualquer dúvida, a morte, que é também fenômeno biológico, não será impedida de acontecer porque o indivíduo é otimista e sereno ou porque se permite o desassossego e a rebeldia. O que importa, no entanto, é o período da existência durante a doença, a qualidade de vida que desfruta, as experiências que acumula e os valores de que se utiliza, transferindo-os para a imortalidade.

Manifestando-se a morte do casulo físico, o espírito transfere-se para outra dimensão vibratória, dando continuidade ao comportamento que lhe era habitual enquanto na forma carnal.

Todo o cabedal reunido se expressará em recursos de alegria e de paz, assim como de inquietação e de distúrbios emocionais que se estabelecem, continuando conforme se expressavam no organismo fisiológico com outros agravantes para o desencarnado.

De saudáveis resultados, são o exercício da paz, a cultura do bom humor, o trabalho de autotransformação moral para melhor, de esclarecimento intelectual, social e vivência ética dos deveres.

Essa conduta, além de proporcionar equilíbrio emocional, estimula os neurônios cerebrais à produção equilibrada de monoaminas propiciatórias da saúde, da alegria e do bem-estar.

Nesse sentido, as modernas visualizações terapêuticas, mediante as quais os indivíduos podem projetar suas aspirações em torno da saúde em relação ao futuro, proporcionam resultados muito positivos, por ensejarem a renovação das paisagens mentais, que se libertam dos clichês negativos e perturbadores, tendo-os substituídos por outros de natureza edificante.

Os atavismos ancestrais defluentes do trânsito evolutivo imprimiram no ser pensamentos desordenados, frutos da agressividade e da violência, tornando-se relativamente difíceis de ser vencidos. Em realidade, a tarefa não é tão complicada, bastando que, a todo pensamento perturbador se contraponha um de natureza dignificante. Como não se podem eliminar pensamentos que procedem de fontes remotas do ser, é possível substituí-los por outros que se irão fixando até tornar- se natural o hábito das conjecturas saudáveis.

Nesse campo, nada é impossível, exigindo-se apenas que sejam criados novos hábitos mentais, que se realizem exercícios ideológicos, de forma a resultarem edificantes e propiciadores de tranquilidade.

Toda vez que se diz ser algo impossível de realizado, mais se lhe fixam as raízes, enquanto que, toda vez quando se experiencia uma atividade que parece inalcançável em cada futura tentativa, ei-la apresentando-se mais fácil e de resultado mais compensador.

Para todo aquele que deseja viver em clima de bem-estar, o cuidado com a conexão mente-corpo deve ser relevante.

*

Influenciam poderosamente a vida mental algumas problemáticas de natureza orgânica, especialmente quando dizem respeito ao sistema endocrínico, em face dos hormônios secretados por algumas das glândulas que o constituem. Entretanto, mesmo nesse caso, estamos diante do espírito que, ao reencarnar-se, gerou os condicionamentos propiciatórios ao processo de resgate do passado e de construção do futuro.

Não seja, portanto, de estranhar-se essa interação mente-corpo, corpo-mente, constituindo um binômio perfeito no programa da saúde-doença. Isto porque, o espírito é o ser responsável pelo corpo de que se utiliza no processo da evolução.

Pensa bem e estarás edificando a harmonia perfeita de que desfrutarás no futuro.

Franco, D. P.; Joanna de Ângelis (Espírito). Interação mente-corpo. In: Jesus e Vida, cap. 14.

Joana D'Arc Médium, Léon Denis, Introdução

JOANA D'ARC MÉDIUM

INTRODUÇÃO

Nunca a memória de Joana d'Arc foi objeto de controvérsias tão ardentes, tão apaixonadas, como a que, desde alguns anos, se vêm levantando em torno dessa grande figura do passado. Enquanto de um lado, exaltando-a sobremaneira, procuram monopolizá-la e encerrar-lhe a personalidade no paraíso católico, de outro, por ora brutal com Thalamas e Henri Bérenger, ora hábil e erudita, servida por um talento sem par, com Anatole France, esforçam-se por lhe amesquinhar o prestígio e reduzir-lhe a missão às proporções de um simples fato episódico.

Onde encontraremos a verdade sobre o papel de Joana d'Arc na história? A nosso ver, nem nos devaneios místicos dos crentes, nem tampouco nos argumentos terra-a-terra dos críticos positivistas. Nem estes, nem aqueles parecem possuir o fio condutor, capaz de guiar-nos por entre os fatos que compõem a trama de tão extraordinária existência. Para penetrar o mistério de Joana d'Arc, afigura-se-nos preciso estudar, praticar longamente as ciências psíquicas, haver sondado as profundezas do mundo invisível, oceano de vida que nos envolve, onde emergimos todos ao nascer e onde mergulharemos pela morte.

Como poderiam compreender Joana escritores cujo pensamento jamais se elevou acima do âmbito das contingências terrenas, do horizonte estreito do mundo inferior e material, e que jamais consideraram as perspectivas do Além?

De há cinquenta anos, um conjunto de fatos, de manifestações, de descobertas, projeta luz nova sobre os amplos aspectos da vida, pressentidos desde todos os tempos, mas sobre os quais só tínhamos até aqui dados vagos e incertos. Graças a uma observação atenta, a uma experimentação metódica dos fenômenos psíquicos, vasta e poderosa ciência pouco a pouco se constitui.

O Universo nos aparece como um reservatório de forças desconhecidas, de energias incalculáveis. Um infinito vertiginoso se nos abre ao pensamento, infinito de realidades, de formas, de potências vitais, que nos escapavam aos sentidos, algumas de cujas manifestações já puderam ser medidas com grande precisão, por meio de aparelhos registradores.

A noção do sobrenatural se esboroa; mas a Natureza imensa vê os limites de seus domínios recuarem sem cessar, e a possibilidade de uma vida orgânica invisível, mais rica, mais intensa do que a dos humanos, se revela, regida por majestosas leis, vida que, em muitos casos, se mistura com a nossa e a influencia para o bem ou para o mal.

A maior parte dos fenômenos do passado, afirmados em nome da fé, negados em nome da razão, podem doravante receber explicação lógica, científica. São dessa ordem os fatos extraordinários que matizam a existência da Virgem de Orleães. Só o estudo de tais fatos, facilitado pelo conhecimento de fenômenos idênticos, observados, classificados, registrados em nossos dias, pode explicar-nos a natureza e a intervenção das forças que nela e em torno dela atuavam, orientando-lhe a vida para um nobre objetivo.

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Os historiadores do século XIX – Michelet, Wallon, Quicherat, Henri Martin, Siméon, Luce, Joseph Fabre, Vallet de Viriville, Lanéry d'Arc, foram acordes em exaltar Joana, em considerá-la uma heroína de gênio, uma espécie de messias nacional.

Somente no século XX a nota crítica se fez ouvir e por vezes violenta. Thalamas, professor substituto da Universidade, não teria chegado a ponto de qualificar de “ribalda” a heroína, conforme à acusação que lhe atiram certas folhas católicas? Ele se defende. Em sua obra JEANNE D'ARC; L'HISTOIRE ET LA LÉGENDE (Paclot & C. editores) jamais sai dos limites de uma crítica honesta e cortês. Seu ponto de vista é o dos materialistas: “Não cabe a nós – diz (pág. 41) – que consideramos o gênio uma neurose, reprochar a Joana o ter objetivado em santas as vozes de sua própria consciência. ”

Todavia, nas conferências que fez através da França, foi geralmente mais incisivo. Em Túrones (Tours), a 29 de abril de 1905, falando sob os auspícios da Liga do Ensino, recordava a opinião do professor Robin, de Cempuis, um de seus mestres, segundo o qual Joana d'Arc nunca existira, não passando de mito a sua história. Thalamas, talvez um tanto constrangido, reconhece a realidade da vida de Joana, mas acomete as fontes em que seus panegiristas beberam. Engendra amesquinhar-lhe o papel, sem descer a injuriá-la. Nada, ou muito pouco teria ela feito de si mesma. Aos orleaneses, por exemplo, cabe todo o mérito de se haverem libertado.

Henri Bérenger e outros escritores abundaram em apreciações análogas e o próprio ensino oficial como que se impregnou, até certo ponto, dessas opiniões. Nos manuais das escolas primárias, eliminaram da história de Joana tudo que trazia cor espiritualista. Neles não mais se alude às suas vozes; é sempre “a voz de sua consciência” que a guia. Sensível a diferença.

Anatole France, em seus dois volumes, obra de arte e de inteligência, não vai tão longe. Não tenta deixar de reconhecer-lhe as visões e as vozes. Aluno da Escola de Chartes, não ousa negar a evidência, ante a documentação que lhe sobeja. Sua obra é uma reconstituição fiel da época. A fisionomia das cidades, das paisagens e dos homens do tempo, ele a pinta com mão de mestre, com uma habilidade, urna finura de toque, que lembram Renan. Entretanto, a leitura de seu escrito nos deixa frios e desapontados. As opiniões que emite são às vezes falsas, por efeito do espírito de partido, e, coisa mais grave, sente-se, varando-lhe as páginas, uma ironia sutil e penetrante, que já não é história.

Em verdade, o juiz imparcial deve dar testemunho de que Joana, exaltada pelos católicos, é deprimida pelos livres pensadores, menos por ódio do que por espírito de contradição e de oposição aos primeiros. A heroína, disputada por uns e outros, se torna assim uma espécie de joguete nas mãos dos partidos. Há excessos nas apreciações de ambos os lados e a verdade, como quase sempre, equidista dos extremos.

O ponto capital da questão é a existência de forças ocultas que os materialistas ignoram, de potências invisíveis, não sobrenaturais e miraculosas, como pretendem, mas pertencentes a domínios da natureza, que ainda não exploraram. Daí, a impossibilidade de compreenderem a obra de Joana e os meios pelos quais lhe foi possível realizá-la.

Não souberam medir a enormidade dos obstáculos que avultavam diante da heroína. Pobre menina de dezoito anos, filha de humildes camponeses, sem instrução, não sabendo o ABC, diz a crônica, ela vê contra si a própria família, a opinião pública, toda a gente!

Que teria feito sem a inspiração e sem a visão do Além, que a sustentavam?

Figurai essa camponesa na presença dos nobres do reino, das grandes damas e dos prelados.

Na corte, nos acampamentos, por toda parte, simples vilã, vinda do fundo dos campos, ignorante das coisas da guerra, com seu sotaque defeituoso, cumprem-lhe afrontar os preconceitos de hierarquia e de nascimento, o orgulho de casta; depois, mais tarde, os chascos, as brutalidades dos guerreiros, habituados a desprezar a mulher, não podendo admitir que uma os comandasse e dirigisse. Juntai a isso a desconfiança dos homens da Igreja, que, nessa época, viam em tudo que é anormal a intervenção do demônio; esses não lhe perdoarão obrar com exclusão deles, mau grado à autoridade que se arrogavam, e aí estará, para ela, a causa principal de sua perda.

Imaginai a curiosidade malsã de todos e particularmente dos soldados, no meio dos quais, virgem sem mácula, tem que viver suportando constantemente as fadigas, as penosas cavalgadas, o peso esmagador de uma armadura de ferro, dormindo no chão, sob a tenda, pelas longas noites do acampamento, presa dos acabrunhadores cuidados e preocupações de tão árdua tarefa.

Todavia, durante sua curta carreira, vencerá todos os obstáculos e, de um povo dividido, fragmentado em mil facções, desmoralizado, extenuado pela fome, pela peste e por todas as misérias de uma guerra que dura há perto de cem anos, fará uma nação vitoriosa.

Eis aí o que escritores de talento, mas cegos, flagelados por uma cegueira psíquica e moral, que é a pior das enfermidades intelectuais, procuram explicar por meios puramente materiais e terrenos. Pobres explicações, pobres argúcias claudicantes, que não resistem ao exame dos fatos! Pobres almas míopes, almas de trevas, que as luzes do Além deslumbram e tonteiam! É a elas que se aplica esta sentença de um pensador: o que sabem não passa de um nada e, com o que ignoram, se criaria o Universo!

Coisa deplorável: certos críticos da atualidade como que experimentam a necessidade de rebaixar, de diminuir, de nulificar com frenesi tudo que é grande, tudo que paira acima de sua incapacidade moral. Onde quer que brilhe um luzeiro, ou uma chama se acenda, haveis de vê-los acorrer e derramar um dilúvio d’água sobre o foco luminoso.

Ah! Como Joana, na ignorância das coisas humanas, mas com a sua profunda visão psíquica, lhes dá uma lição magnífica por estas palavras que dirigia aos examinadores de Poitiers e que tão bem quadram aos cépticos modernos, aos pretensiosos espíritos superiores de nosso tempo:

“Leio num livro em que há mais coisas do que nos vossos!”

Aprendei a ler nele também, senhores contraditores, e a conhecer os problemas a que aquelas palavras aludem; em seguida, podereis, com um pouco mais de autoridade, falar de Joana e de sua obra.

Através das grandes cenas da História, cumpre vejais passar as almas das nações e dos heróis.

Se as souberdes amar, elas virão a vós e vos inspirarão. É esse o arcano do gênio da História. É isso o que produz os escritores pujantes como Michelet, Henri Martin e outros. Esses compreenderam o gênio das raças e dos tempos e o sopro do Além lhes perpassa nas páginas. Os outros, Anatole France, Lavisse e seus colaboradores são áridos e frios, mau grado ao talento, porque não sabem nem percebem a comunhão eterna que fecunda a alma pela alma, comunhão que constitui o segredo dos artistas de escol, dos pensadores e dos poetas. Sem ela não há obra imperecível.

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Fonte abundante de inspiração jorra do mundo invisível por sobre a Humanidade. Liames estreitos subsistem entre os homens e os desaparecidos. Misteriosos fios ligam todas as almas e, mesmo neste mundo, as mais sensíveis vibram ao ritmo da vida universal. Tal o caso da nossa heroína.

Pode a crítica atacar-lhe a memória: inúteis serão seus esforços. A existência da Virgem da Lorena, como as de todos os grandes predestinados, está burilada no granito eterno da História, nada poderia esmaecer-lhe os traços. É daquelas que mostram com a evidência máxima, por entre a onda tumultuosa dos eventos, a mão soberana que conduz o mundo.

Para lhe surpreendermos o sentido, para compreendermos a potestade que a dirige, é mister nos elevemos até à lei superior, imanente, que preside ao destino das nações. Mais alto do que as contingências terrenas, acima da confusão dos feitos oriundos das liberdades humanas, preciso é se perceba a ação de uma vontade infalível, que domina as resistências das vontades particulares, dos atos individuais, e sabe rematar a obra que empreende. Em vez de nos perdermos na balbúrdia dos fatos, necessário é lhes apreendamos o conjunto e descubramos o laço oculto que os prende. Aparece então a trama, o encadeamento deles; sua harmonia se desvenda, enquanto que suas contradições se apagam e fundem num vasto plano. Compreende-se para logo que existe uma energia latente, invisível, que irradia sobre os seres e que, a cada um deixando certa soma de iniciativa, os envolve e arrasta para um mesmo fim.

Pelo justo equilíbrio da liberdade individual e da autoridade da lei suprema é que se explicam e conciliam as incoerências aparentes da vida e da História, do mesmo passo que o sentido profundo e a finalidade de uma e outra se revelam àquele que sabe penetrar a natureza íntima das coisas. Fora desta ação soberana não haveria mais do que desordem e caos na variedade infinita dos esforços, dos impulsos individuais, numa palavra, em toda a obra humana.

De Domremy e Remos (Reims) esta ação se evidencia na epopeia da Pucela. É que até aí a vontade dos homens se associa, em larga medida, aos fins visados lá do Alto. A partir da sagração, porém, predominam a ingratidão, a maldade, as intrigas dos cortesãos e dos eclesiásticos, a má vontade do rei. Segundo a expressão de Joana, “os homens se recusam a Deus”. O egoísmo, o desregramento, a rapacidade criarão obstáculo à ação divina servida por Joana e seus invisíveis auxiliares. A obra de libertação se tornará mais incerta, inçada de vicissitudes, de recuos e de reveses. Contudo, não deixará de prosseguir, mas reclamará, para seu acabamento, maior número de anos e mais penosos labores.

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É, já o dissemos, unicamente do ponto de vista de uma ciência nova, que empreendemos este trabalho. Insistimos em repeti-lo, a fim de que não haja equívoco sobre nossas intenções. Procurando lançar alguma luz sobre a vida de Joana d'Arc, a nenhum móvel de interesse obedecemos, a nenhum preconceito político ou religioso; colocamo-nos tão longe dos anarquistas quanto dos reacionários, a igual distância dos fanáticos cegos e dos incrédulos.

É em nome da verdade e também por amor à pátria francesa que procuramos destacar a nobre figura da inspirada virgem, das sombras que tantos trabalham por lhe acumular em torno.

Sob o pretexto de análise e de livre crítica, há, ponderamos, em nossa época, uma tendência profundamente lamentável a denegrir tudo o que provoca a admiração dos séculos, a alterar, a conspurcar tudo o que se mostra isento de taras e de nódoas.

Consideramos como um dever, que incumbe a todo homem capaz de exercer, por meio da pena ou da palavra, alguma influência à volta de si, manter, defender, realçar o que constitui a grandeza do nosso país, todos os nobres exemplos por ele oferecidos ao mundo, todas as belas cenas que lhe enriquecem o passado e cintilam na sua história.

Ação má, quase crime, é tentar empobrecer o patrimônio moral, a tradição histórica de um povo. Com efeito, não é isso que lhe dá a força nos momentos difíceis? Não é aí que ele vai buscar os mais viris sentimentos nas horas do perigo? A tradição de um povo e sua história são a poesia de sua vida, seu consolo nas provações, sua esperança no futuro. É pelas ligações que ela cria entre todos, que nos sentimos verdadeiramente filhos de uma mesma mãe, membros de uma pátria comum.

Assim, convém lembrar frequentemente as grandes cenas da nossa história nacional e pô-la em relevo. Ela se mostra cheia de lições brilhantes, ricas de ensinos fecundos e, por este lado, é talvez superior às de outras nações. Desde que exploramos os antecedentes de nossa raça, por toda parte, em todos os tempos, vemos erguerem-se vultosas sombras, que nos falam e exortam. Do fundo dos séculos se elevam vozes que nos avivam notáveis recordações, lembranças tais que, se estivessem presentes sempre ao nosso espírito, bastariam para nos inspirar, para clarear-nos a vida. Mas o vento do cepticismo sopra e o olvido e a indiferença se fazem; as preocupações da vida material nos absorvem e acabamos por perder de vista o que há de mais grandioso, de mais eloquente nos testemunhos do passado.

Nenhuma dentre essas lembranças é mais tocante, mais gloriosa do que a da donzela, que iluminou a noite da Idade Média com a sua aparição radiosa, da qual pôde Henri Martin dizer: “Nada de semelhante ainda se produziu na História do mundo.”

Em nome, pois, do passado, como do futuro de nossa raça, em nome da obra que lhe resta completar, esforcemo-nos por lhe conservar íntegra a herança e não hesitemos em retificar as opiniões falsas que certos escritores formularam em publicações recentes. Trabalhemos por exaurir da alma do povo o veneno intelectual que se lhe procura inocular, a fim de guardarmos para a França a beleza e a força que ainda a farão grande nas horas de perigo, a fim de restituirmos ao gênio nacional todo o seu prestígio, todo o seu esplendor, ofuscados por tantas teorias malfazejas e tantos sofismas.

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Forçoso é reconhecer que no mundo católico, melhor que algures, têm sabido render a Joana homenagens solenes. Nos meios crentes, louvam-na e a glorificam, erigem-lhe estátuas e basílicas. De seu lado, os republicanos livres-pensadores imaginaram, recentemente, criar em sua honra uma festa nacional, que seria ao mesmo tempo a do patriotismo. Porém, num campo como noutro, nunca lograram compreender o verdadeiro caráter da heroína, entender o sentido de sua vida.

Poucos hão sabido analisar essa admirável figura que se alça acima dos tempos e domina as mais elevadas concepções da epopeia, essa figura que nos parece mais imponente à proporção que dela nos afastamos.

A história de Joana é inesgotável mina de ensinamentos, cuja extensão total ainda se não mediu e da qual se não tirou ainda todo o partido desejável para a elevação das inteligências, para a penetração das leis superiores da Alma e do Universo.

Há, em sua vida, profundezas capazes de causar vertigem aos espíritos mal preparados; nela se deparam fatos suscetíveis de lançar a incerteza, a confusão, no pensamento dos que carecem dos dados necessários para resolver tão majestoso problema. Daí, tantas discussões estéreis, tantas polêmicas inúteis. Mas, para aquele que levantou o véu do mundo invisível, a vida de Joana se aclara e ilumina. Tudo que essa vida contém se explica, se torna compreensível.

Falo de discussões. Vede, com efeito, entre os que enaltecem a heroína, quantos pontos de vista diversos, quantas apreciações contraditórias! Uns buscam, antes de tudo, na sua memória, uma ilustração para o partido a que pertencem; outros, mediante uma glorificação tardia, sonham aliviar certa instituição secular das responsabilidades que lhe pesam.

Contam-se ainda os que não querem ver nos sucessos de Joana mais do que a exaltação do sentimento popular e patriótico.

Parece lícito duvidar-se de que, aos elogios que sobem de todos os pontos da França à grande inspirada, não se mesclem muitas intenções egoísticas, muitos propósitos interesseiros. Pensa-se em Joana, é fora de dúvida; ama-se Joana; porém, os que dizem querer-lhe não pensarão ao mesmo tempo em si próprios, ou no partido a que se filiaram? Não se procurará também nessa vida augusta o que pode lisonjear os sentimentos pessoais, as opiniões políticas, as ambições inconfessáveis? Bem poucos homens, infelizmente, sabem colocar-se acima de seus preconceitos, acima dos interesses de classe ou de casta. Bem poucos se esforçam por descobrir o segredo daquela existência e, entre os que o penetraram, nenhum até hoje, salvo casos restritos, ousou altear a voz e dizer o que sabia, o que via e percebia. 

Quanto a mim, se meus títulos são modestos para falar em Joana d'Arc, pelo menos um há que reivindico ativamente: o de estar liberto de qualquer preocupação de partido, de todo cuidado de agradar ou desagradar. É na liberdade plena de meu pensamento, com a minha consciência independente, isento de qualquer ligação, não procurando, não querendo em tudo senão a verdade, é nesse estado de espírito que entro em tão elevado assunto e vou buscar a chave do mistério que envolve tão incomparável destino.

DENIS, L. Introdução. In: Joanna D'Arc Médium