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Este é um ambiente dedicado ao estudo da consciência em seus mais variados estágios de evolução e, principalmente, no estágio em que adquirimos a possibilidade de nos manifestar na forma humana. Por isso, decidimos dedicar nossa atual reencarnação para aprofundarmos o nosso autoconhecimento e ajudarmos outros irmãos que também necessitam de esclarecimento, e assim nos tornarmos cada vez mais conscientes de nós mesmos, de nossa bagagem evolutiva, adquirindo mais conhecimentos e experiências através dos quais possamos construir as “sinapses” capazes de nos “revelar” novas realidades, ou melhor, de nos revelar a verdadeira realidade, abandonando as ilusões a que estamos fixados por tanto tempo.
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domingo, 19 de agosto de 2018

Horizontes da Vida, João Nunes Maia, Miramez (Espírito), Capítulo 10 - O Pensamento Criador

HORIZONTES DA VIDA

CAPÍTULO 10 – O PENSAMENTO CRIADOR

O Espírito pode e deve libertar-se de tudo que o circunda, no entanto, o criador, ele é e será sempre dependente para a eternidade. Tudo que se move na criação, tem como impulso o pensamento criador, tudo nasce dos impulsos mentais de Deus, se assim podemos falar.

Os seres humanos, já percebem na formação dos seus pensamentos  “o pensamento de Deus”. Ele, de certa forma, faz parte das nossas ideias, porém, existem intervalos na faixa do pensamento em que o Senhor faculta aos nossos sentimentos espirituais a liberdade da expressão.

Estamos, como já falamos no século do mentalismo, e quantas pessoas nas suas interrogações  questionam de onde vem os nossos próprios pensamentos. É um bom questionamento, porquanto essas almas já confiam que não são apenas elas que geram os pensamentos e se encontram procurando a fonte verdadeira das suas próprias ideias.

Como é sublime esta ciência, que é a ciência da vida. É uma filosofia de vida da qual pode nascer a nossa felicidade, que começa na pureza dos nossos sentimentos. Segue-se daí, que a nossa paz depende de nós, porque Deus já fez a sua parte em nosso favor e, se buscarmos mais profundamente notaremos que os nossos desacertos servem para o nosso aprendizado. A vida é sempre uma escola, e a natureza, nossa professora que nunca erra, por ser ela firmada pela mente do criador.

A mente da criatura comanda todos os corpos que lhe atendem as necessidades. O Espírito precisa de muitos corpos intermediários, cujas funções são múltiplas, no engenho da vida. Entrementes, a força mental é que da a eles vida e movimento, ordens e comando, para que sirvam de instrumentos fieis a sua orientação. Quando a mente fraqueja, eles são acionados por forças estranhas, às vezes por inimigos espirituais, que passam a dar ordens para ele, e com o tempo, desacostumam-se com as diretrizes do seu dono. Muitas possessões podem se encaixar nessa verdade.

Não te esqueças dessas verdades e começa a comandar os teus corpos. Esse exercício pode ser feito todos os dias, até completo domínio, para que o escravo não mande no seu Senhor. Dá ordens aos teus órgãos igualmente, que eles te obedecerão. E, se nas primeiras vezes não der resultados, continua, que com o perpassar do tempo, tudo entrará na harmonia, porque teus corpos, sejam eles quantos forem, são teus cativos. Assim, como não podes libertar-te do pensamento Criador, eles, teus corpos espirituais, não podem se libertar de ti, que diante deles, é o criador.

A tua felicidade depende do teu modo de vida. Existem já muitas criaturas na terra conhecedoras dessa verdade. Sê mais um, engrossando as fileiras dos libertados, no sentido de que em breve o mundo será um paraíso, onde o amor será o alimento das almas, e a fraternidade a água de luz para saciar a sede de todos os seus ocupantes.

Se desejas melhorar a tua vida, escuta o que falamos, porque o fazemos por amor a todos que carregam no mundo um corpo físico. Não estranhamos o que estás passando, pois são consequências por vezes do passado distante ou resultante de processos de despertamento espiritual. Os que já passaram por esses caminhos, sabem o quanto vale a tolerância.

Na profundidade do conhecimento sobre Deus, sabemos que ele não pensa, ele não fala, ele não escreve, ele não raciocina, porque Ele é. Tudo o que falarmos sobre essa personalidade incomparável, o estaremos diminuindo. Falamos do “pensamento criador”, por não termos outro vocabulário que expresse a grandeza daquele que tudo fez por processos desconhecidos aos homens, mesmo os de ciência, que se confundem ante a sabedoria do grande soberano.

Cuidemos, pois, das nossas criações, porque as de Deus nunca falham. A tua felicidade depende do teu modo de vida.

MAIA, J. N.; MIRAMEZ (Espírito). O Pensamento Criador. In: Horizontes da Vida, cap.10.

Filosofia Espírita, João Nunes Maia, Miramez (Espírito), Capítulo 13 - As Qualidades de Deus

FILOSOFIA ESPÍRITA - VOLUME I

CAPÍTULO 13 – AS QUALIDADE DE DEUS

As qualidades de Deus são marcadas pelas nossas comparações pálidas, por não haverem outras em que possamos nos apoiar. Sujeitamos o Senhor às nossas fracas deduções em confronto com os nossos dons, colocando o nosso Pai Celestial dotado das nossas faculdades altamente aprimoradas. Que Ele nos perdoe as comparações.

Quando falamos que Deus é a Suprema Inteligência, é porque não encontramos recursos na linguagem para destacá-LO de outra forma. Inteligência e razão ainda são posses do Espírito comum; o Criador está acima de todas as colocações humanas, e mesmo espirituais, do nosso plano. Quando falamos que Deus é Amor, certamente estamos diminuindo o Grande Foco de Luz que nos sustenta a todos. O amor é um dos seus atributos; Ele é muito mais que o amor. Ele é, pois, o Incomparável.

A ansiedade dos homens em conhecer Deus, seus atributos, sua intimidade, é impulso dos primeiros passos da criatura na escala evolutiva, e isso vai se arrefecendo de acordo com a sequência do despertar espiritual; não que os Espíritos percam a vontade de conhecê-lo, pelo contrário: o que perdem é o interesse de passar dos limites das suas forças. Não desejando contrariar as leis, cumprem os seus deveres e esperam a sábia vontade dAquele que tudo conhece pela onisciência dos seus valores.

A magnitude de Deus ofusca todas as luzes e a sua bondade inspira todas as bondades do universo; o seu amor alimenta todo o amor da criação e o seu trabalho é o exemplo que deveremos operar constantemente. É muito bom falar de Deus, pensar em Deus e, se for o caso, escrever sobre Deus, porque é neste ambiente que passamos a conhecê-lo melhor e respeitá-lo condignamente. Enquanto assim agimos, estamos condicionando ideias elevadas acerca da sua inconfundível personalidade. Este exercício é de alto valor para a nossa integração com a Divindade, pois se processa uma operação de seleção de valores nas nossas intimidades, como no íntimo de quem, porventura, nos ouvir ou ler. É tempo que o próprio tempo aperfeiçoará nas bênçãos do Comandante Maior.

Uma coisa falamos com muita alegria: que as sementes dos atributos do Criador se encontram plantadas nas nossas consciências, na profundidade do nosso ser e, se assim podemos dizer, a força do progresso se encarregará de despertá-las para a luz e fazê-las crescerem para a fonte de onde vieram.

Ninguém foge desses caminhos delineados pela Grande Vida. A área da nossa liberdade é muito pequena para sabermos o de que verdadeiramente precisamos; tudo obedece à vontade dAquele que nos criou, tudo vem dEle e vai para o seu seio fecundo e celestial.

Quem deseja analisar a capacidade de Deus, que observe a sua criação, a harmonia e a mecânica do Universo. Tudo é luz na sua feição divina, mesmo o que pensamos ser treva, por nos faltarem dons desenvolvidos na busca da intimidade das coisas.

Oh! Homens que caminhais conosco, se quereis viver felizes, deixai despertar as luzes que existem em vossos corações, na conjuntura das vossas forças, agradecendo à Divindade e tomando as mãos do Cristo, que Ele vos libertará!

Sejamos fortes na educação de nós mesmos todos os dias, porque é na persistência do trabalho e no esforço do dever, que beijamos as flores da sabedoria como se fossem a face do Criador, nos dignando para um novo amanhecer.

MAIA, J. N.; MIRAMEZ (Espírito). Filosofia Espírita. V. I, cap. 13

Um Modo de Entender: Uma Nova Forma de Viver, Francisco Espírito Santo Neto, Hammed (Espírito), Capítulo 22 - A Rede da Vida

UM MODO DE ENTENDER – UMA NOVA FORMA DE VIVER

CAPÍTULO 22 - A REDE DA VIDA

Pois nele aprouve Deus fazer habitar toda a plenitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus. (Colossenses 1:19 e 20)

Um relógio de corda constitui um sistema integrado por um conjunto de peças. A remoção de qualquer uma dessas peças pode ocasionar desequilíbrio ou paralisação.

Assim, também, nós fazemos parte de um sistema integrado – nós, os outros e o universo, ou seja, as criaturas e as criações representam parcelas de um  todo.

Tudo está integrado em tudo: as águas necessitam das plantas e vice-versa; os animais, das florestas; e a criatura humana se agrega a esse elo ecológico, não de forma essencial, mas como fração integradora.

Quando morrem rios e lagos, também morremos um pouco. Quando se destrói uma floresta, se destrói igualmente uma parte de nós.

Ao estudarmos ecologia, verificamos que os ecossistemas – sistemas de abrangem os seres vivos e os ambientes, com suas propriedades químico-físicas e suas trocas incessantes – nos falam da interdependência em que vivemos (tudo o que existe está ligado entre si por recíproca dependência).

Por analogia, podemos dizer que, espiritualmente, todos nós estamos unidos em uma “rede divina”, ou plano celeste, cujas finalidades transcendem momentaneamente a compreensão humana.

Somos como um relógio de cordas, integramos essa maravilhosa engrenagem, somos “peças importantes” no mecanismo da Vida Excelsa; interdependentes, promovemos nosso crescimento por meio do auxílio mútuo para, juntos, chegarmos à unidade absoluta de Deus.

“Tudo em a Natureza se encadeia por elos que ainda não podeis apreender. Assim, as coisas aparentemente mais díspares têm pontos de contato que o homem, no seu estado atual, nunca chegará a compreender.” (LE 604)

Pois nele aprouve Deus fazer habitar toda a plenitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus.

Reside em Cristo a missão de reconciliar, de religar, de unir o que está separado, porquanto nele habita a “Plenitude”, quer dizer, estado ou característica daquele que reconhece a totalidade da vida dentro e fora de si, com toda a sua validade, equilíbrio e proporção harmoniosa.

Na romagem do tempo, percorremos a rota multimilenária do processo evolutivo do ser; somos todos irmãos, desde as criações dos reinos mineral, vegetal e animal até as almas iluminadas que povoam os planos sublimes.

Do átomo ao anjo, somos elos de uma extraordinária cadeia, cuja causa e efeito é Deus – o Poder Glorioso do Universo. Por força da lei superior, todas as consciências transitam em fluxo incessante pelos dois universos (o físico e o espiritual), conectadas entre si e com a Consciência Cósmica.

ESPÍRITO SANTO NETO, F.; HAMMED (Espírito). A Rede da Vida. In: Um Modo de Entender: Uma Nova Forma de Viver. Cap. 22

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O Grande Enigma, Léon Denis, Capítulo III - Solidariedade - Comunhão Universal

O GRANDE ENIGMA

CAPÍTULO III - SOLIDARIEDADE - COMUNHÃO UNIVERSAL

Deus é o espírito de sabedoria, de amor e de vida, o poder infinito que governa o mundo. O homem é finito, mas tem a intuição do infinito. O princípio espiritual que traz em si incita-o a perscrutar problemas que ultrapassam os limites atuais de seu entendimento. Seu espírito, prisioneiro na carne, dele se desliga, às vezes, e eleva-se aos domínios superiores do pensamento, de onde lhe vêm estas elevadas aspirações, muito frequentemente seguidas de recaídas na matéria. Daí tantas pesquisas, ensaios e erros, a tal ponto que seria impossível distinguir a verdade no amontoado dos sistemas e das superstições que o trabalho das eras acumularam, se as potências invisíveis não viessem iluminar nesse caos.

Cada alma é irradiação da grande alma universal, uma centelha emanada do foco eterno. Nós, porém, ignoramos a nós mesmos, e esta ignorância é a causa de nossa fraqueza e de todos os nossos males.

Estamos unidos a Deus na relação estreita que liga a causa ao efeito, e somos tão necessários à sua existência quanto ele é necessário à nossa. Deus, Espírito Universal, manifesta-se na Natureza, e o homem é, na Terra, a mais elevada expressão da Natureza. Somos a obra e a expressão de Deus, que é a fonte do bem. Mas esse bem, nós o possuímos somente em estado de gérmen, e nossa tarefa é de desenvolvê-lo. Nossas vidas sucessivas, nossa ascensão na espiral infinita das existências, não têm outro objetivo.

Tudo está escrito no fundo da alma em caracteres misteriosos: o passado, de onde emergimos e que devemos aprender a sondar; o futuro, para o qual evoluímos, futuro que edificaremos nós próprios como um monumento maravilhoso, feito de pensamentos elevados, de nobres ações, de devotamentos e de sacrifícios.

A obra que a cada um de nós cabe realizar resume-se em três palavras: saber, crer, querer; quer dizer: saber que temos em nós recursos incalculáveis; crer na eficácia de nossa ação sobre os dois mundos, o da matéria e o do espírito; querer o bem dirigindo nossos pensamentos para o que é belo e grande, conformando nossas ações às leis eternas do trabalho, da justiça e do amor.

Saídas de Deus, todas as almas são irmãs; todos os filhos da raça humana estão unidos através de laços estreitos de fraternidade e solidariedade. Assim, os progressos de um de nós são sentidos por todos, assim como o rebaixamento de um único afeta o conjunto.

Da paternidade de Deus decorre a fraternidade humana; todas as relações que nos unem, prendem-se a este fato. Deus, pai das almas, deve ser considerado como o Ser consciente por excelência, e não, como uma abstração. Mas aqueles que possuem uma consciência reta e estão esclarecidos por um raio do Alto, reconhecem Deus e o servem na Humanidade que é sua filha e sua obra.

Quando o homem chegou ao conhecimento de sua verdadeira natureza e de sua unidade com Deus, quando essa noção entrou em sua razão e no seu coração, ele se elevou até a verdade suprema; ele domina do Alto as vicissitudes terrestres; encontrou a força que “soergue as montanhas”, que o torna vencedor na luta contra as paixões, faz menosprezar as decepções e a morte. Ele efetuou o que o vulgo chama prodígios. Pela sua vontade, pela sua fé, ele submete, governa a substância; ele rompe as fatalidades da matéria; torna-se quase um deus para os outros homens. Vários, em suas passagens neste mundo, chegaram a essas elevações de vistas; apenas o Cristo disso compenetrou-se, ao ponto de ousar dizer à face de todos: “Eu e meu Pai somos um; ele está em mim e eu estou nele”.

Essas palavras não se aplicavam, todavia, apenas a ele; elas são verdadeiras para a Humanidade inteira. O Cristo sabia que todo homem deve chegar à compreensão de sua natureza íntima, e é nesse sentido que ele dizia aos seus discípulos: “Vós sois todos deuses”.16 Ele poderia ter acrescentado: deuses em processo!

É a ignorância da nossa própria natureza e das forças divinas que dormem em nós, é a ideia insuficiente que fazemos de nosso papel e das leis do destino, que nos submetem às influências inferiores, ao que nós chamamos o mal. Na realidade, trata-se aí apenas da falta de desenvolvimento. O estado de ignorância não é um mal em si mesmo; é apenas uma das formas, uma das condições necessárias da lei de evolução. Nossa inteligência não está madura; nossa razão, criança, tropeça nos acidentes do caminho; daí o erro, as falhas, as provas, a dor. Mas todas essas coisas serão um bem, se as considerarmos como tantos meios de educação e de elevação. A alma deve atravessá-las para chegar à concepção das verdades superiores, à posse da parte de glória e de luz que fará dela uma eleita do céu, uma expressão perfeita do Poder e do Amor infinitos. Cada ser possui os rudimentos de uma inteligência que atingirá o gênio, e ele tem a imensidade dos tempos para desenvolvê-la. Cada vida terrestre é uma escola, a escola primária da eternidade.

Na lenta ascensão que conduz o ser para Deus, o que buscamos antes de tudo, é a felicidade, a ventura. Entretanto, no seu estado de ignorância, o homem não saberia atingir esses bens, pois ele os procura quase sempre onde eles não estão, na região das miragens e das quimeras, e isso por meio de processos cuja falsidade não lhe aparece senão após muitas decepções e sofrimentos. São esses sofrimentos que nos esclarecem; nossas dores são lições austeras; elas nos ensinam que a verdadeira felicidade não está nas coisas da matéria, passageiras e mutáveis, mas na perfeição moral. Nossos erros e nossas faltas repetidas, as fatais consequências que arrastam, terminam por nos dar a experiência, e esta nos conduz à sabedoria, quer dizer, ao conhecimento inato, à intuição da verdade. Tendo chegado a esse terreno sólido, o homem sentirá o laço que o une a Deus e ele avançará com um passo mais seguro, de etapas em etapas, para a grande luz que não se apaga jamais.

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Todos os seres estão ligados uns aos outros e se influenciam reciprocamente. O Universo inteiro está submetido à lei da solidariedade.

Os mundos perdidos nas profundezas do éter, os astros que, entrecruzam seus raios prateados, conhecem-se e se respondem. Uma força a que nós nomeamos atração os une através dos abismos do Espaço.

Assim, na escala da vida, todas as almas estão unidas por relações múltiplas. A solidariedade que as une está fundamentada na identidade de sua natureza, na igualdade de seus sofrimentos através dos tempos, na similitude de seus destinos e de seus fins.

Como os astros dos céus, todas essas almas se atraem. A matéria exerce sobre o espírito seus poderes misteriosos. Assim como Prometeu17 sobre sua rocha, ela o acorrenta aos mundos obscuros. A alma humana sente todas as atrações da vida inferior; ao mesmo tempo, percebe o apelo da vida elevada.

Nessa laboriosa e penosa evolução que arrasta os seres, há um fato consolador sobre o qual é bom insistir: é que em todos os graus de sua ascensão, a alma é atraída, auxiliada, socorrida pelas Entidades Superiores. Todos os espíritos em marcha são ajudados pelos seus irmãos mais adiantados e devem auxiliar, por sua vez, aqueles que estão colocados abaixo deles.

Cada individualidade forma como um anel da grande corrente dos seres. A solidariedade que os une pode bem restringir um pouco a liberdade de cada um deles, mas se essa liberdade é limitada em extensão, ela não o é em intensidade. Por mais limitada que seja a ação do anel, um só de seus impulsos pode agitar toda a corrente.

É uma coisa maravilhosa essa fecundação constante do mundo inferior pelo mundo superior. Daí vem todas as intuições geniais, as inspirações profundas, as revelações grandiosas. Em todos os tempos, o pensamento elevado irradiou no cérebro humano. Deus, na sua equidade, não recusou seu socorro nem sua luz a nenhuma raça, a nenhum povo. Enviou a todos guias, missionários, profetas. A verdade é uma e eterna; penetra na Humanidade através de irradiações sucessivas, à medida que nosso entendimento se torna mais apto para assimilá-la.

Cada nova revelação é uma continuação da antiga. Aí está o caráter do Espiritualismo Moderno, que traz um ensinamento, um conhecimento mais completo do papel do ser humano, uma revelação dos poderes nele ocultos e também de suas relações íntimas com o pensamento superior e divino.

O homem, espírito encarnado, esquecera seu verdadeiro papel. Sepultado na matéria, ele perdia de vista os grandes horizontes de seu destino; ele desdenhava os meios de desenvolver seus recursos latentes, de se tornar mais feliz, tornando-se melhor. A nova revelação vem lembrar-lhe todas essas coisas. Ela vem sacudir as almas adormecidas, estimular sua marcha, provocar sua elevação. Ela clareia os recantos obscuros de nosso ser, nos fala de nossas origens e de nossos fins, explica-nos o passado pelo presente e nos abre um porvir que estamos livres para fazer grande ou miserável, conforme nossos atos.

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A alma humana não pode, realmente, progredir senão na vida coletiva, trabalhando em proveito de todos. Uma das consequências dessa solidariedade que nos liga, é que a visão dos sofrimentos de uns perturba e altera a serenidade dos outros.

Também é a preocupação constante dos espíritos elevados, de ir levar às regiões sombrias, às almas atrasadas nos caminhos da paixão e do erro, as irradiações do seu pensamento e os impulsos de seu amor. Nenhuma alma pode se perder; se todas sofreram, todas serão salvas. No meio de suas provações dolorosas, a piedade e a afeição de suas irmãs as abraçam e as arrastam para Deus.

Como compreender, com efeito, que os espíritos radiosos possam esquecer aqueles que amaram outrora, aqueles que partilharam suas alegrias, seus cuidados e ainda sofrem nas sendas terrestres? O lamento daqueles que sofrem, daqueles que o destino ainda arrasta para os mundos atrasados, chega até eles e suscita sua compaixão generosa. Quando um desses apelos atravessa o Espaço, eles deixam as moradas etéreas para derramar os tesouros de sua caridade nos campos dos mundos materiais. Como as vibrações da luz, os impulsos de seu amor se propagam na imensidão, levando a consolação aos corações entristecidos, derramando sobre as chagas humanas o bálsamo da esperança.

Às vezes, também, durante o sono, as almas terrestres, atraídas pelas suas irmãs mais velhas, lançam-se com força para as alturas do Espaço para impregnar-se dos fluidos vivificantes da pátria eterna. Ali, espíritos amigos as cercam, as exortam, as reconfortam, acalmam suas angústias; depois, apagando pouco a pouco a luz em torno de si, a fim de que as recordações pungentes da separação não as oprima, eles as reconduzem às fronteiras dos mundos inferiores. Seu despertar é melancólico, porém suave; e, embora esquecidas de sua estada passageira nas regiões elevadas, elas se sentem reconfortadas e retomam mais alegremente as cargas de sua existência neste mundo.

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Nas almas evoluídas, o sentimento da solidariedade torna-se bastante intenso para se transformar em comunhão perpétua com todos os seres e com Deus.

A alma pura comunga com a Natureza inteira; ela se embriaga com os esplendores da obra infinita. Tudo: os astros do céu, as flores do prado, a canção do riacho, a variedade das paisagens terrestres, os horizontes longínquos do mar, a serenidade dos Espaços, tudo lhe fala uma linguagem harmoniosa. Em todas essas coisas visíveis, a alma atenta descobre uma manifestação do pensamento invisível que anima o Cosmo. Este reveste para ela um aspecto surpreendente. Torna-se o teatro da vida e da comunhão universais, comunhão dos seres uns com os outros e de todos os seres com Deus, seu Pai.

Não há distância para as almas que se simpatizam. Assim como os mundos trocam suas irradiações através das profundezas estreladas, as almas que se amam se comunicam em conjunto através do pensamento. O Universo é animado por uma vida poderosa; vibra como uma harpa sob a ação divina. As irradiações do pensamento o percorrem em todos os sentidos; transmitem as mensagens do espírito ao espírito através da vasta imensidão. Esse Universo que Deus povoou com inteligências, a fim de que elas o conheçam, o amem e cumpram a sua lei, ele o preenche com sua presença, ilumina-o com sua luz e o aquece com o seu amor.

A prece é a expressão mais elevada dessa comunhão das almas. Considerada sob esse aspecto, ela perde toda a analogia com as fórmulas banais, os recitativos monótonos em uso, para se tornar um impulso do coração, um ato da vontade pelo qual o espírito desvencilha-se das servidões da matéria, das vulgaridades terrestres para penetrar nas leis, nos mistérios da Potência Infinita e a ela se submete em todas as coisas: “Pedi e recebereis”! Tomada neste sentido, a prece é o ato mais importante da vida; é a aspiração ardente do ser humano que sente sua pequenez e sua miséria, e procura, nem que seja por um instante, colocar as vibrações do seu pensamento em harmonia com a eterna sinfonia. É a obra da meditação que, no recolhimento e no silêncio, eleva a alma até essas alturas celestes onde ela se acresce de forças, impregna-se das irradiações da luz e do amor divinos. Mas quão poucos sabem orar! As religiões nos fizeram desaprender a prece, transformando-a em exercício ocioso, às vezes, ridículo.

Sob a influência do Novo Espiritualismo, a prece tornar-se-á mais nobre e mais digna; será feita com mais respeito para com a Potência Suprema, com mais fé, confiança e sinceridade, num completo desligamento das coisas materiais. Todas as nossas ansiedades e as nossas incertezas cessarão quando tivermos compreendido que a vida é uma comunhão universal, e que Deus e todos os seus filhos vivem essa vida em conjunto. Então, a prece se tornará a linguagem de todos, a irradiação da alma que, nos seus impulsos, abala o dinamismo espiritual e divino. Seus benefícios se estenderão sobre todos os seres e, particularmente, sobre aqueles que sofrem, sobre os ignorados da Terra e do Espaço. Ela irá até aqueles em quem ninguém pensa e que jazem na sombra, na tristeza e no esquecimento, diante de um passado acusador. Ela despertará neles novas aspirações; fortificará seu coração e seu pensamento. Pois a ação da prece não tem limites, não mais do que as forças e os poderes que ela põe em movimento para o bem dos outros.

A prece, é verdade, nada pode modificar nas leis imutáveis, ela não poderia, de forma alguma, modificar nossos destinos; seu papel é o de nos proporcionar socorros e luzes que nos tornem mais fácil a execução de nossa tarefa terrestre. A prece fervorosa escancara as portas da alma e, através dessas aberturas, os raios de força, as irradiações do foco eterno penetram em nós e nos vivificam.

Trabalhar com um sentimento elevado, perseguindo um objetivo útil e generoso, ainda é orar. O trabalho é a prece ativa desses milhões de homens que lutam e penam na Terra, em proveito da Humanidade.

A vida do homem de bem é uma prece contínua, uma comunhão perpétua com seus semelhantes e com Deus. Ele não precisa mais de palavras nem de formas exteriores para exprimir sua fé: ela se exprime através de todos os seus atos e de todos os seus pensamentos. Ele respira, ele se movimenta sem-esforço, numa atmosfera fluídica pura, cheio de ternura para com os infelizes, cheio de bem querer para com toda a Humanidade. Esta comunhão constante torna-se para ele uma necessidade, uma segunda natureza. É graças a ela que todos os espíritos eleitos se mantêm nas alturas sublimes da inspiração e do gênio.

Os que vivem uma vida egoística e material, cuja compreensão não está aberta às influências do Alto, estes não podem saber que impressões indizíveis proporciona essa comunhão da alma com o divino.

É ela, essa união estreita de nossas vontades com a Vontade Suprema, que devem se esforçar para realizar todos aqueles que, vendo a espécie humana deslizar nas vertentes da decadência moral, procuram os meios de deter sua queda. Não há ascensão possível, não há arrastamento para o bem se, de tempos em tempos, o homem não se voltar para o seu Criador e seu Pai, para expor-lhe suas fraquezas, suas incertezas, suas misérias, para pedir-lhe os socorros espirituais indispensáveis à sua elevação. E quanto mais essa confissão, mais essa comunhão íntima com Deus for frequente, sincera, profunda, mais a alma se purifica e se emenda. Sob o olhar de Deus, ela examina, expõe suas intenções, seus sentimentos, seus desejos; passa em revista todos os seus atos e, com essa intuição que lhe vem do Alto, julga o que é bom ou mau, o que é preciso destruir ou cultivar. Compreende, então, que tudo o que vem do “eu” deve ser rebaixado para dar lugar à abnegação, ao altruísmo; que, no sacrifício de si mesmo, o ser encontra o mais poderoso meio de elevação, porque quanto mais ele se doa, mais ele cresce. Deste sacrifício, faz a lei de sua vida, lei que ela imprime no mais profundo do seu ser em traços de luz para que todas as suas ações sejam marcadas pela sua empreitada.

*
* *

De pé sobre a Terra, meu sustentáculo, minha nutriz e minha mãe, elevo o meu olhar para o Infinito, sinto-me envolvido na imensa comunhão da vida; os eflúvios da Alma Universal penetram em mim e fazem vibrar meu pensamento e meu coração; forças poderosas me sustentam, avivam em mim a existência. Por toda a parte onde minha vista se estende, por toda a parte onde minha inteligência alcança, vejo, distingo, contemplo a grande harmonia que rege os seres e, através de caminhos diversos, guia-os para um objetivo único e sublime. Por toda a parte, vejo irradiar a Bondade, o Amor, a Justiça!

Ó meu Deus! Ó meu Pai! fonte de toda a sabedoria e de todo o amor, espírito supremo cujo nome é Luz, ofereço-te minhas louvações e minhas aspirações! Que elas subam a ti como perfume de flores, como os odores inebriantes dos bosques sobem para o céu. Ajuda-me a avançar no caminho sagrado do conhecimento, para uma compreensão mais elevada de tuas leis, a fim de que se desenvolva em mim mais simpatia, mais amor pela grande família humana. Pois sei que através do meu aperfeiçoamento moral, através da realização, da aplicação ativa em torno de mim e em proveito de todos, da caridade e da bondade, aproximar-me-ei de ti e merecerei conhecer-te melhor, comunicar-me mais intimamente contigo na grande harmonia dos seres e das coisas. Ajuda-me a libertar-me da vida material, a compreender, a sentir o que é a vida superior, a vida infinita. Dissipa a escuridão que me envolve; deposita em minha alma uma centelha desse fogo divino que reaquece e abrasa os espíritos das esferas celestes. Que tua luz suave e, com ela, os sentimentos de concórdia e de paz se espalhem sobre todos os seres!

16 João, 10:34. (N.A.)

17 Prometeu: (da mitologia grega) deus ou gênio do Fogo, filho do Titã Japet e irmão de Atlas. Segundo a mitologia clássica é o iniciador da primeira civilização humana. Após ter criado o homem do limo da terra, roubou o fogo do céu para poder animá-lo. Por isso, foi punido por Zeus, sendo acorrentado no Cáucaso, onde uma águia vinha devorar-lhe o fígado que sempre se renovava. (N.T.)

DENIS, L. Solidariedade; comunhão universal. In: O Grande Enigma, cap. 3

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Nos Domínios da Mediunidade, Chico Xavier, André Luiz (Espírito), Capítulo 1 - Estudando a Mediunidade


NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE

CAPÍTULO 1 – ESTUDANDO A MEDIUNIDADE

Indubitavelmente – concordava o Assistente Áulus – a mediunidade é problema dos mais sugestivos na atualidade do mundo. Aproxima-se o homem terreno da Era do Espírito, sob a luz da Religião Cósmica do Amor e da Sabedoria e, decerto, precisa de cooperação, a fim de que se lhe habilite o entendimento.

O orientador, de feição nobre e simpática, recebera-nos, a pedido de Clarêncio, para um curso rápido de ciências mediúnicas.

Especializara-se em trabalhos dessa natureza, consagrando-lhes muitos anos de abnegação. Era, por isso, dentre as relações do Ministro, que se nos fizera patrono e condutor, um dos companheiros mais competentes no assunto.

Áulus nos acolhera com afabilidade e doçura.

Relacionando aflitivas questões da Humanidade Terrestre, pousava em nós o olhar firme e lúcido, não apenas com o interesse do irmão mais velho, mas também com a afetividade de um pai enternecido.

Hilário e eu não conseguíamos disfarçar a admiração.

Era um privilégio ouvi-lo discorrer sobre o tema que nos trazia até ali.

Aliavam-se nele substanciosa riqueza cultural e o mais entranhado patrimônio de amor, causando-nos satisfação o vê-lo reportar-se às necessidades humanas, com o carinho do médico benevolente e sábio que desce à condição de enfermeiro para a alegria de ajudar e salvar.

Interessava-se pelas experimentações mediúnicas, desde 1779, quando conhecera Mesmer, em Paris, no estudo das célebres proposições lançadas a público pelo famoso magnetizador. Reencarnando no início do século passado, apreciara, de perto, as realizações de Allan Kardec, na codificação do Espiritismo, e privara com Cahagnet e Balzac, com Théophile Gautier e Victor Hugo, acabando seus dias na França, depois de vários decênios consagrados à mediunidade e ao magnetismo, nos moldes científicos da Europa. No mundo espiritual prosseguiu no mesmo rumo, observando e trabalhando em seu apostolado educativo. Dedicando-se agora a obra de espiritualização no Brasil, e isto há mais de trinta anos, comentava, otimista, as esperanças do novo campo de ação, dando-nos a conhecer a primorosa bagagem de memórias e experiências de que se fazia portador.

Maravilhados ao ouvi-lo, mal lhe respondíamos a essa ou àquela indagação.

– Conhecíamos, sim – informamos, respeitosos, em dado momento –, alguns aspectos do intercâmbio espiritual; todavia, o nosso desejo era amealhar mais amplas noções do assunto,  com a simplicidade possível. Em outras ocasiões, estudáramos ao de leve alguns fenômenos de psicografia, incorporação e materialização, no entanto, era isso muito pouco, à face dos múltiplos serviços que a mediunidade encerra em si mesma.

O anfitrião, afável, aquiesceu em elucidar-nos.

Colaborava em diversos setores de trabalho e prodigalizar-nos-ia aquilo que considerava, com humildade, como sendo “alguns apontamentos”.

Para começar, convidou-nos a ouvir um amigo que falaria sobre mediunidade a pequeno grupo de aprendizes encarnados e desencarnados, e em cuja palavra reconhecia oportunidade e valor.

Não nos fizemos de rogados ante a obsequiosa lembrança.

E, porque não havia tempo a perder, seguimo-lo, prestamente.

Em vasto recinto do Ministério das Comunicações, fomos apresentados ao Instrutor Albério, que se dispunha a iniciar a palestra.

Tomamos lugar entre as dezenas de companheiros que o seguiam, atentos, em muda expectação.

Como tantos outros orientadores que eu conhecia, Albério assomou à tribuna, sem cerimônia, qual se nos fora simples irmão, conversando conosco em tom fraternal.

– Meus amigos – falou, com segurança –, dando continuidade aos nossos estudos anteriores, precisamos considerar que a mente permanece na base de todos os fenômenos mediúnicos.

Não ignoramos que o Universo, a estender-se no Infinito, por milhões e milhões de sóis, é a exteriorização do Pensamento Divino, de cuja essência partilhamos, em nossa condição de raios conscientes da Eterna Sabedoria, dentro do limite de nossa evolução espiritual.

Da superestrutura dos astros à infra-estrutura subatômica, tudo está mergulhado na substância viva da Mente de Deus, como os peixes e as plantas da água estão contidos no oceano imenso.

Filhos do Criador, dEle herdamos a faculdade de criar e desenvolver, nutrir e transformar.

Naturalmente circunscritos nas dimensões conceptuais em que nos encontramos, embora na insignificância de nossa posição comparada à glória dos Espíritos que já atingiram a angelitude, podemos arrojar de nós a energia atuante do próprio pensamento, estabelecendo, em torno de nossa individualidade, o ambiente psíquico que nos é particular.

Cada mundo possui o campo de tensão eletromagnética que lhe é próprio, no teor de força gravítica em que se equilibra, e cada alma se envolve no circulo de forças vivas que lhe transpiram do “hálito” mental, na esfera de criaturas a que se imana, em obediência às suas necessidades de ajuste ou crescimento para a imortalidade.

Cada planeta revoluciona na órbita que lhe é assinalada pelas leis do equilíbrio, sem ultrapassar as linhas de gravitação que lhe dizem respeito, e cada consciência evolve no grupo espiritual a cuja movimentação se subordina.

Somos, pois, vastíssimo conjunto de Inteligências, sintonizadas no mesmo padrão vibratório de percepção, integrando um Todo, constituído de alguns bilhões de seres, que formam por assim dizer a Humanidade Terrestre.

Compondo, assim, apenas humilde família, no infinito concerto da vida cósmica, em que cada mundo guarda somente determinada família da Humanidade Universal, conhecemos, por enquanto, simplesmente as expressões da vida que nos fala mais de perto, limitados ao degrau de conhecimento que já escalamos.

Dependendo dos nossos semelhantes, em nossa trajetória para a vanguarda evolutiva, à maneira dos mundos que se deslocam no Espaço, influenciados pelos astros que os cercam, agimos e reagimos uns sobre os outros, através da energia mental em que nos renovamos constantemente, criando, alimentando e destruindo formas e situações, paisagens e coisas, na estruturação dos nossos destinos.

Nossa mente é, dessarte, um núcleo de forças inteligentes, gerando plasma sutil que, a exteriorizar-se incessantemente de nós, oferece recursos de objetividade às figuras de nossa imaginação, sob o comando de nossos próprios desígnios.

A ideia é um “ser” organizado por nosso espírito, a que o pensamento dá forma e ao qual a vontade imprime movimento e direção.

Do conjunto de nossas ideias resulta a nossa própria existência.

O orador fez pequeno intervalo que ninguém ousou interromper e prosseguiu comentando:

– Segundo é fácil de concluir, todos os seres vivos respiram na onda de psiquismo dinâmico que lhes é peculiar, dentro das dimensões que lhes são características ou na frequência que lhes é própria. Esse psiquismo independe dos centros nervosos, de vez que, fluindo da mente, é ele que condiciona todos os fenômenos da vida orgânica em si mesma.

Examinando, pois, os valores anímicos como faculdades de comunicação entre os Espíritos, qualquer que seja o plano em que se encontrem, não podemos perder de vista o mundo mental do agente e do recipiente, porquanto, em qualquer posição mediúnica, a inteligência receptiva está sujeita às possibilidades e à coloração dos pensamentos em que vive, e a inteligência emissora jaz submetida aos limites e às interpretações dos pensamentos que é capaz de produzir.

Um hotentote desencarnado, em se comunicando com um sábio terrestre, ainda jungido ao envoltório físico, não lhe poderá oferecer noticias outras, além dos assuntos triviais em que se lhe desdobraram no mundo as experiências primitivistas, e um sábio, sem o indumento carnal, entrando em relação com o hotentote, ainda colado ao seu “habitat” africano, não conseguirá facultar-lhe cooperação imediata, senão no trabalho embrionário em que se lhe encravam os interesses mentais, como sejam o auxilio a um rebanho bovino ou a cura de males do corpo denso. Por isso mesmo, o hotentote não se sentiria feliz na companhia do sábio e o sábio, a seu turno, não se demoraria com o hotentote, por falta desse alimento quase imponderável a que podemos chamar vibrações compensadas.

É da Lei, que nossas maiores alegrias sejam recolhidas ao contato daqueles que, em nos compreendendo, permutam conosco valores mentais de qualidades idênticas aos nossos, assim como as árvores oferecem maior coeficiente de produção se colocadas entre companheiras da mesma espécie, com as quais trocam seus princípios germinativos.

Em mediunidade, portanto, não podemos olvidar o problema da sintonia.

Atraímos os Espíritos que se afinam conosco, tanto quanto somos por eles atraídos; e se é verdade que cada um de nós somente pode dar conforme o que tem, é indiscutível que cada um recebe de acordo com aquilo que dá.

Achando-se a mente na base de todas as manifestações mediúnicas, quaisquer que sejam os característicos em que se expressem, é imprescindível enriquecer o pensamento, incorporando-lhe os tesouros morais e culturais, os únicos que nos possibilitam fixar a luz que jorra para nós, das Esferas Mais Altas, através dos gênios da sabedoria e do amor que supervisionam nossas experiências.

Procederam acertadamente aqueles que compararam nosso mundo mental a um espelho.

Refletimos as imagens que nos cercam e arremessamos na direção dos outros as imagens que criamos.

E, como não podemos fugir ao imperativo da atração, somente retrataremos a claridade e a beleza, se instalarmos a beleza e a claridade no espelho de nossa vida íntima.

Os reflexos mentais, segundo a sua natureza, favorecem-nos a estagnação ou nos impulsionam a jornada para a frente, porque cada criatura humana vive no céu ou no inferno que edificou para si mesma, nas reentrâncias do coração e da consciência, independentemente do corpo físico, porque, observando a vida em sua essência de eternidade gloriosa, a morte vale apenas como transição entre dois tipos da mesma experiência, no “hoje imperecível”.

Vemos a mediunidade em todos os tempos e em todos os lugares da massa humana.

Missões santificantes e guerras destruidoras, tarefas nobres e obsessões pérfidas, guardam origem nos reflexos da mente individual ou coletiva, combinados com as forças sublimadas ou degradantes dos pensamentos de que se nutrem.

Saibamos, assim, cultivar a educação, aprimorando-nos cada dia.

Médiuns somos todos nós, nas linhas de atividade em que nos situamos.

A força psíquica, nesse ou naquele teor de expressão, é peculiar a todos os seres, mas não existe aperfeiçoamento mediúnico sem acrisolamento da individualidade.

É contraproducente intensificar a movimentação da energia sem disciplinar-lhe os impulsos.

É perigoso possuir sem saber usar.

O espelho sepultado na lama não reflete o esplendor do Sol.

O lago agitado não retrata a imagem da estrela que jaz no infinito.

Elevemos nosso padrão de conhecimento pelo estudo bem conduzido e apuremos a qualidade de nossa emoção pelo exercício constante das virtudes superiores, se nos propomos recolher a mensagem das Grandes Almas.

Mediunidade não basta só por si.

É imprescindível saber que tipo de onda mental assimilamos para conhecer da qualidade de nosso trabalho e ajuizar de nossa direção.

Albério prosseguiu ainda em seus valiosos comentários e, mais tarde, passou a responder a complicadas perguntas que lhe eram desfechadas por diversos aprendizes. Por minha vez recolhera largo material de meditação e, em razão disso, em companhia de Hilário, despedi-me dos instrutores com alguns monossílabos de agradecimento, ouvindo de Áulus a promessa de reencontro para o dia seguinte.

XAVIER, F. C.; ANDRÉ LUIZ (Espírito). Estudando a Mediunidade. In: Nos Domínios da Mediunidade, cap. 1

domingo, 12 de agosto de 2018

A Grande Síntese, Pietro Ubaldi, Capítulo 6 - Monismo

A GRANDE SÍNTESE

CAPÍTULO 6 - MONISMO

Aproximemo-nos ainda mais da questão a ser desenvolvida. Eram indispensáveis essas premissas para vos conduzir até aqui. Observai meu modo de proceder ao expor meu pensamento. Avanço seguindo uma espiral que gradualmente aperta suas volutas concêntricas e, se passo de novo pela mesma ordem de ideias, toco o raio que parte do centro num ponto cada vez mais próximo dele. Guio vosso pensamento para esse centro. Nesta exposição parto da periferia e vou para o interior; da matéria, que é a realidade de vossos sentidos, para o espírito, que contém uma realidade mais verdadeira e mais elevada; vou da superfície ao âmago, da multiplicidade fenomênica ao Princípio único que a rege. Por isso denominei este tratado de A Grande Síntese. 

Estou no outro pólo do ser, no extremo oposto àquele em que estais; vós, seres racionais, sois análise; eu, intuitivo (contemplação, visão), sou síntese. Mas desço agora à vossa psicologia racional de análise, tomo-a como ponto de partida, a fim de levar-vos à síntese como ponto de chegada. Parto da forma para explicar-vos o impulso obscuro e palpitante, o motor que a anima, tenazmente aprofundando o mistério. Penetro, sintetizo e aperto num monismo absoluto, os imensos pormenores do mundo fenomênico, incomensuravelmente vasto, se o multiplicais pelo infinito do tempo e do espaço; canalizo a multiplicidade dos efeitos — dos quais a ciência com imenso esforço vislumbrou algumas leis — nos caminhos convergentes que conduzem ao Princípio Único. Farei desse mundo que pode parecer caótico a vossas mentes, um organismo completo e perfeito. A complexidade que vos desanima será reconduzida e reduzida a um conceito central, único e simples, a uma lei única que dirige tudo. 

A isto podeis chamar de monismo. Atentai mais aos conceitos que às palavras. Por vezes a ciência acreditou ter descoberto e criado um conceito novo, só porque inventou uma palavra. E o conceito é este: como do politeísmo passastes ao monoteísmo, isto é, à fé num só Deus (mas sempre antropomórfico, pois realiza uma criação fora de si), agora passais ao monismo, isto é, ao conceito de um Deus que É a criação. Lede mais, antes de julgar. Farei que lampeje em vossas mentes um Deus ainda maior que tudo o que pudestes conceber. Do politeísmo, ao monoteísmo e ao monismo, dilata-se vossa concepção de Divindade. Este tratado, pois, é o hino de Sua glória. 

Sinto já esta síntese suprema num lampejo de luz e de alegria. Quero conduzir-vos, a vós também, a essa meta, por meio de estudo do funcionamento orgânico do Universo. Este Tratado vos aparecerá assim como uma progressão de conceitos, uma ascensão contínua por aproximações graduais e sucessivas. Poderá também parecer-vos uma viagem do espírito; é verdadeiramente a grande viagem da alma que regressa ao seu Princípio; da criatura que regressa a Seu Criador. Cada novo horizonte, que a razão e a ciência vos mostraram, era apenas uma janela aberta para um horizonte ainda mais longínquo, sem jamais atingir o fim; Eu, porém, indicar-vos-ei o último termo, que está no fundo de vós mesmos, onde a alma repousa. Subiremos das ramificações dos últimos efeitos, progredindo da periferia para o centro, ao tronco da Causa Primeira que se multiplicou nesses efeitos. 

A realidade, em vosso mundo, está fracionada por barreiras de espaço e de tempo; a unidade aparece como que pulverizada no particular; vemos o infinito fragmentar-se, dividir-se, corromper-se no finito, o eterno no caduco, o absoluto no relativo. Mas, percorreremos o caminho inverso a essa descida e reencontraremos aquele infinito, que jamais a razão poderia darvos, porque a análise humana não pode percorrer a série dos efeitos através de todo o espaço, por toda a eternidade, e não dispõe daquele infinito, pelo qual seria mister multiplicar o finito para obter a visão do Absoluto. 

A finalidade desta viagem é dar ao homem nova consciência cósmica. Uma consciência que o faça sentir-se não apenas indestrutível e eterno, membro de uma humanidade que abarca todos os seres do universo, mas também representa uma força e desempenha um papel importante no funcionamento orgânico do próprio universo. Viveis para conquistar uma consciência cada vez mais ampla. O homem, rei da vida no planeta Terra, conquistou uma consciência individual própria, que constitui prêmio e vitória. Agora está construindo outra mais vasta: a consciência coletiva que o organiza em unidades nacionais e se fundirá numa unidade espiritual ainda mais vasta, a humanidade. Eu, porém, lanço a semente de uma consciência universal, a única que vos pode dar a visão de todos os vossos deveres e direitos e poderá, perfeitamente, guiar todas as vossas ações, além de solucionar todos os vossos porquês. Partindo de vosso cognoscível científico humano, esse caminho também atingirá conclusões de ordem prática, individual e social. A exposição das leis da vida tem como objetivo ensinar-vos normas mais completas de comportamento. Sabendo olhar no abismo de vosso destino, sabereis agir cada vez com mais elevação. 

Eis traçada a estrada que percorreremos. E a seguiremos não apenas para saber, mas também para agir depois. Quando se fizer luz na mente, o coração se acenderá de paixão, para marchar seguindo a mente que viu. 

Ascensão é a ideia dominante. Deus é o centro. Este Tratado é mais que uma grande síntese científica e filosófica: é uma revolução introduzida em vosso sistema de pesquisa, nova direção dada ao pensamento humano, para que, após este impulso, possa canalizar novo caminho de conquistas; é uma revolução que não arrasa nem nega, implantando arbítrio e desordem, mas afirma e cria, guiando-vos a uma ordem e equilíbrio cada vez mais completo e complexo, para uma lei cada vez mais forte e mais justa. Pois bem, para ajudar a nascer em vós esta nova consciência que está por surgir à luz, para estimular esta vossa transformação que está iminente, imposta pela evolução, da fase humana à fase super-humana, eu vos ensino novo método de pesquisa, praticado por via da intuição. Indico-vos a possibilidade de nova ciência conquistada com o sistema dos místicos, no qual os fenômenos são penetrados por meio de nova sensibilidade, abrindo as portas da alma, além das dos sentidos, da alma da qual vos terei ensinado todos os recursos insuspeitados e meios de percepção direta. Desse modo, os fenômenos não serão mais vistos nem ouvidos, nem tocados por um Eu qualquer, mas sentidos por um ser que se transformou em delicadíssimo instrumento de percepção, porque sensitivamente evoluído, nervosamente refinado e, sobretudo, moralmente aperfeiçoado. Ciência nova, conduzida pelos caminhos do amor e da elevação espiritual, é a ciência do super-homem, que está para nascer e fundará a nova civilização do terceiro milênio. 

UBALDI, Pietro. Monismo. In: A Grande Síntese, cap. 6.

Libertação do Sofrimento, Divaldo Franco, Joanna de Ângelis (Espírito), Capítulo 24 - Reflexões Sobre Deus

LIBERTAÇÃO DO SOFRIMENTO

CAPÍTULO 24 - REFLEXÕES SOBRE DEUS

É compreensível a ânsia da inteligência humana para interpretar todos os enigmas do Universo. A medida que aumenta o conhecimento, amplia-se o elenco das percepções de outras questões que se apresentam desafiadoras.

No período caracterizado pela ignorância medieval, a fé cega impunha limites em torno da compreensão das incógnitas de que se revestiam a vida e todas as suas expressões, a natureza e o Cosmo.

Reduzido o conhecimento e ameaçado pela perversidade dominante, bastavam as informações irrelevantes para asserenar-se o pensamento indagador, mesmo que à força da crueldade e da ignorância.

Nada obstante, Espíritos missionários encarregados de ampliar os conhecimentos através da inteligência, emboscaram-se no corpo somático, trazendo as informações seguras do mundo causal, em torno da realidade, e, a pouco e pouco, foram sendo desvendados os mistérios, que não passavam de pobreza da percepção e do entendimento das leis que regem tudo.

A mística religiosa, simplista e primitiva, reduzia tudo que se ignorava à condição de mistério, que o ser humano não tinha o direito de penetrar, permanecendo no atraso em que se encontrava.

Apesar disso, rompendo limites e destruindo barreiras, esses apóstolos da cultura demonstraram que tudo quanto se ignora faz parte do infinito conjunto de realidades que aguardam análise e pesquisa, a fim de serem decifradas.

Muitos deles, conservando no inconsciente profundo as reminiscências trazidas da esfera espiritual, encetaram empreendimentos de investigação que resultaram nas ditosas descobertas que facilitaram a sua, assim como milhões de outras vidas do seu tempo, tanto quanto aquelas que viriam depois.

Utilizando-se da óptica, foram criados telescópios que penetraram no quase insondável do infinito e descobriram as galáxias, desmistificando a tese das lanternas mágicas que iluminavam as noites, assim como, por meio dos microscópios, desvendaram o reino das partículas que constituem a matéria, ensejando que as ciências como a Física, a Química, a Biologia, a Fisiologia, a Astronomia e aquelas que surgiram oportunamente pudessem estudar o que parecia impenetrável e equacionar até mesmo o imponderável...

As doutrinas psicológicas abriram o campo do entendimento em torno dos complexos mecanismos do ser pensante, e inúmeros conflitos e distúrbios de conduta puderam ser conhecidos e solucionados, dando dignidade ao ser humano, que estorcegava nas garras invisíveis de rudes sofrimentos.

A Medicina pôde compreender o mecanismo das doenças e oferecer melhor qualidade de vida aos seres humanos, arran-cando-os das tenazes dilaceradoras das aflições inomináveis.

As doutrinas filosóficas romperam o classicismo ancestral e abriram vertentes que facilitaram o melhor entendimento para a vivência de condutas não castradoras, proporcionando mais ampla compreensão em torno do fenómeno da vida e dos relacionamentos humanos.

A Sociologia abriu as portas aos direitos humanos, às responsabilidades perante a vida, sob o amparo das ciências das leis, enquanto a Ecologia elaborou programas de preservação da natureza e do planeta, responsabilizando todos os seres predadores, particularmente o humano, pelos efeitos danosos que advêm da sua conduta extravagante.

Inúmeras ciências, na atualidade, trabalham harmonicamente com outras, tais como as neurociências, a Biologia molecular, a Genética, com a sua engenharia em torno do DNA, procurando encontrar nos genes a estrutura histórica da evolução da vida.

Em todo esse magnífico complexo de conquistas e informações, Deus permanece como o Grande Enigma, aguardando a compreensão da inteligência humana e o amor do humano sentimento.

*

Considerando-se Deus como sendo a Causa Incausada do Universo, é compreensível que não possa ser abarcado pela inteligência de um só golpe, numa reflexão cultural externa.

Tendo-se o entendimento de que se trata da Inteligência suprema e Causa primeira de todas as coisas, conforme O definiram a Allan Kardec os Instrutores desencarnados da Humanidade2, somente Deus pode entender Deus.

Compreender o Absoluto é torná-lO relativo e limitado.

Interrogado sobre a origem do Universo, sem a presença de Deus, nobre físico quântico informou: "Existem no Universo duas forças: uma de natureza intrínseca e outra de natureza extrínseca, que deram origem a tudo quanto existe. Se alguém perguntar-me: e quem fez essas forças?, a resposta ê simples: uma força super-intrínseca e outra força super-extrínseca... E sucessivamente. ..

Compreender Deus não significa submetê-lo ao limite do intelecto humano, ainda incapaz de voos mais ousados no entendimento das Leis que vigem em toda parte.

Sendo a Causa Absoluta, mediante os efeitos vai-se lentamente entendendo a Sua magnitude e grandeza.

Quando a mente alcançou as micropartículas e percebeu a existência de outras ainda menores mais desafiadoras, foi constrangida a passar da compreensão derivada do material para o conceito das probabilidades matemáticas, conforme alguns estudos na física quântica ou das ousadas concepções...

De igual maneira, ao serem descobertos os quasares azuis, o conceito do Universo infinito passou a ser modificado, porquanto se começou a crer que as partículas que saíram da grande explosão fugindo do epicentro, terminaram por alcançar-lhe a borda que as faz retornar, produzindo esse efeito por ocasião do encontro com as que ainda estão avançando na direção de onde aquelas voltam...

Lentamente, porém, o conhecimento científico e tecnológico vai conseguindo identificar Deus na criação, em face da ordem vigente em tudo e em toda parte, mesmo no denominado caos...

Merece recordar-se a resposta de Santo Agostinho, quando foi interrogado sobre a existência de Deus.

Disse ele: — Se ninguém me pergunta quem é Deus eu sei, mas se me perguntam eu não sei.

Buda, por sua vez, esclarecia: — Somente Deus, o Espaço e o Infinito podem definir o Infinito, o Espaço e Deus...

Logicamente, se qualquer um deles passar a ser contido na mente humana, logo deixam de ser o que é e conforme se apresentam, tornando-se finito, limitado e deus...

Abarca, porém, a grandeza de Deus, contemplando a Sua obra e deslumbrando-te com ela, nas mais complexas manifestações que consigas alcançar.

Pergunta, por outro lado, ao amor, como compreender Deus, e ele produzirá peculiar emoção interna que te proporcionará repouso e paz.

Desse modo, avança no conhecimento, na investigação, no estudo, trabalhando e trabalhando-te, sem cessar e, ciuan do menos esperes, Deus estará emboscado no teu sentimento, no teu discernimento, na tua vida.

*

Por considerar extemporâneo falar sobre Deus em toda a Sua grandiosidade, no tempo em que esteve na Terra, Jesus, em Sua magnífica sabedoria, sintetizou todas as conceituações sobre Ele, dizendo com simplicidade, que é o Pai.

Na condição de Genitor Único, é a Inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas, isto é: a Causa Incausada.

(2) O Livro dos Espíritos, de Allan Kardcc. Questão n° 1. Nota da autora espiritual.

FRANCO, D. P.; JOANNA DE ÂNGELIS (Espírito). Reflexões Sobre Deus. In: Libertação do Sofrimento, cap.24.

domingo, 5 de agosto de 2018

Deus na Natureza, Camille Flammarion, Quinta Parte - Deus


DEUS NA NATUREZA

QUINTA PARTE - DEUS

SUMÁRIO – Deus na Natureza, força viva e pessoal, causa dos movimentos atômicos, lei dos fenômenos, ordenador da harmonia, virtude e sustentáculo do mundo. – O homem criando Deus à sua imagem. – Erro antropomórfico. – O filósofo grego Zenófanes há 2400 anos. – A natureza de Deus é incognoscível. – Nenhum sistema humano poderá defini-la. – Diferentes modalidades da idéia de Deus, segundo os homens. – Últimas perspectivas doutrinárias. – Conclusão geral. – Epílogo.

O prisma através do qual nos permitimos concluir a nossa demonstração geral é antes síntese que peroração; e, se é verdade que a Ciência e a Poesia estão intimamente associadas na contemplação da Natureza, não podemos, judiciosamente, impedir o sentimento poético de se manifestar nestas últimas impressões que o panorama do mundo nos sugere.

Apenas, necessário fora nos consagrássemos agora a um estudo especial da causa divina, visto que por essa causa temos combatido de início, neste longo arrazoado, e todas as conclusões atingiram esse alvo supremo. Contudo, vale enfechá-las numa conclusão geral. Assim como o naturalista, o botânico, o geômetra, o lavrador, o operário ou o poeta, depois de examinar as particularidades de uma paisagem e galgar a colina de cujo cimo se abrange os pontos estudados, volta-se por contemplar de conjunto a distribuição, o plano e a beleza do panorama, assim também, após o estudo particularizado das leis da matéria e da vida, apraz-nos a ele voltar e calmamente admirá-lo.

Aos olhos da alma apraz embevecer-se na radiação celeste, que inunda toda a Natureza. Aqui, já não é a discussão, mas a contemplação recolhida da luz e da vida resplandecentes na atmosfera, que brilham no cromatismo das flores e refulgem nos seus matizes; que circulam na folhagem dos bosques e envolvem num beijo universal os inumeráveis seres palpitantes no seio da Natureza. Depois da potência, da sabedoria, da inteligência, é a bondade inefável o que se faz sentir; é a universal ternura de um ser misterioso sempre, fazendo sucederem-se na superfície do globo as formas inumeráveis de uma vida que se perpetua por amor e que jamais se extingue.

A correlação das forças físicas nos mostrou a unidade de Deus, sob todas as formas transitórias do movimento. Pela síntese, o espírito se eleva à noção de uma lei única – lei e força universais, que valem por expressão ativa do pensamento divino. Luz, calor, eletricidade, magnetismo, atração, afinidade, vida vegetal, instinto, inteligência, tudo deriva de Deus. O sentimento do belo, a estesia das ciências, a harmonia matemática, a geometria, iluminam essas forças múltiplas e lhes dão o perfume do ideal. Seja qual for o prisma pelo qual o pensador observe a Natureza, encontra uma trilha conducente a Deus – força viva, cujas palpitações, através de todas as formas, ele as sentirá no estremecer da sensitiva, como no canto matinal dos passarinhos.

Tudo é número, correspondência, harmonia, relação de uma causa inteligente, agindo universal e eternamente.

Deus não é, pois, como dizia Lutero, “um quadro vazio, sem outra inscrição além da que lhe apomos”. Deus é, ao contrário, a força inteligente, universal e invisível, que constrói sem cessar a obra da Natureza. É sentindo-lhe a presença eterna que compreendemos as palavras de Leibnitz: “há metafísica, geometria e moral por toda a parte”, bem como o velho aforismo de Platão, que poderemos assim traduzir: Deus é o geômetra que opera eternamente.

É fora dos tumultos da sociedade mundana, no silêncio das profundas meditações, que a alma pode rever-se, em face da glória do invisível, manifestada pelo visível.

É nessa visualização da presença de Deus na Terra que a alma se eleva à noção do verdadeiro117. O ruído longínquo do oceano, a paisagem solitária, as águas cujos murmúrios valem sorrisos, o sono das florestas entrecortado de anseios suspirosos, a altivez impassível das montanhas, tudo abrangendo de alto, são manifestações sensíveis da força que vela no âmago de todas as coisas. Abandonei-me, algumas vezes, a contemplar-vos, ó esplendores vividos da Natureza, e sempre vos senti envoltos e banhados de inefável poesia! Quando meu espírito se deixava seduzir pela magia da vossa beleza, ouvia acordes desconhecidos escapando-se do vosso concerto.

Sombras noturnas que flutuais pela encosta das montanhas, perfumes que baixais das florestas, flores pendidas que cerrais os lábios, surdos rumores oceânicos que nunca vos calais, calmarias profundas de noites estreladas, tendes-me falado de Deus, certo, com eloquência mais íntima e mais empolgante que todos os livros humanos! Em vós encontrei ternuras maternais, blandícias de inocência, e sempre que me deixava adormecer no vosso regaço despertava alegre e venturoso. Coloridos de esplêndidos crepúsculos, deslumbramentos de clarores moribundos, visões de sítios ermos, que deliciosos momentos de ebriedade não concedeis aos que vos amam! O lírio desabrocha e bebe, em êxtase, a luz que derrama dos céus! Nessas horas contemplativas, a alma transforma-se em flor, aspirando, ávida, as irradiações celestes.

A atmosfera já não é, tão somente, uma mistura de gases; as plantas deixam de ser simples agregados atômicos de carbono ou hidrogênio; os perfumes não se reduzem a moléculas impalpáveis e só derramados à noite, para resguardar as flores da friagem; a brisa embalsamada significa algo mais que uma simples corrente de ar; as nuvens não representam apenas vesículas de aquoso vapor; a Natureza não se oferece exclusivamente qual laboratório de química, ou gabinete de física... Antes, pelo contrário, pressentimos em tudo uma lei de harmonia soberana, que governa a marcha simultânea de todas as coisas, que cerca os mais íntimos seres de uma vigilância instintiva, que guarda ciosamente o tesouro da vida em plenitude de pujança e que, por seu perpétuo rejuvenescimento, desdobra em potência imutável a fecundidade criada. Em toda esta Natureza há uma espécie de beleza universal, que a nossa alma respira e identifica, como se essa beleza ideal pertencesse unicamente ao domicílio da inteligência.

Vésper que antecedes a noite! Carro do Setentrião! Magnificências estelares! Misteriosas perspectivas de abismo insondável! Que olhar, apercebido de vossas munificências, poderia fitar-vos indiferente? Quantos olhares sonhadores se têm perdido nos vossos desertos, ó solidões do espaço!

Quantos ansiosos pensamentos têm viajado de ilha em ilha, no vosso luminoso arquipélago! E nas horas da saudade e da melancolia, quantas pupilas molhadas têm baixado sobre os olhos fitos numa estrela predileta!

É que a Natureza tem nos lábios palavras doces, no olhar tesouros de amor e no coração sentimentos afetivos de uma preciosidade esquisita, e isso porque ela, a Natureza, não consiste somente numa organização corporal, mas também tem alma e vida. Quem quer que só a tenha entrevisto no seu aspecto material apenas lhe conhece a metade. A beleza íntima das coisas é tão verdadeira e positiva como a sua composição química. A harmonia do mundo não é menos digna de apreço do que o seu movimento mecânico. A direção inteligente do Universo deve ser constatada ao mesmo título das fórmulas matemáticas. Obstinar-se em só considerar a criatura com os olhos do corpo e jamais com os do espírito é parar voluntariamente à superfície. Bem sabemos que os adversários vão objetar-nos que o espírito não tem olhos, que é um cego de nascença e que toda afirmativa, não originária dos órgãos visuais, perde todo o valor. Mas, isto também não passa de um conceito arbitrário e, ao demais, infundado. Temos visto que é possível, de boa fé, pôr em dúvida as verdades de ordem intelectual e que é em nosso próprio senso que se forma a convicção de toda e qualquer verdade.

Transporemos, portanto, sem receio, essas mofinas objeções. Para nós a Natureza é um ser vivo e animado, e mais ainda – um ser amigo. Onipresente, fala-nos pelas suas cores, pelos sons e pelos movimentos; tem sorrisos para as nossas alegrias, gemidos para as nossas tristezas, simpatia para todas as nossas aspirações. Filhos da Terra, nosso organismo está em consonâncias vibratórias com todos os movimentos que constituem a vida da Natureza: ele os compreende e deles compartilhamos, de modo a nos deixarem n'alma uma repercussão profunda, a menos que o artifício nos tenha atrofiado. Congênita do princípio da criação, nossa alma reencontra o infinito na Natureza.

Para a ciência espiritualista, não mais se defrontam um mecanismo automático e um Deus retraído na sua imobilidade absoluta. Deus é potência e ato naturais; vive na Natureza, como nele vive ela. O Espírito se faz pressentir através das formas materiais, mutáveis. Sim, a Natureza tem harmonias para a alma, tem quadros para o pensamento, tem tesouros para as ambições do espírito e ternuras para as aspirações do coração. Sim, ela os tem, porque não nos é estranha, não está de nós segregada e somos um com ela.

Ora, a força viva da Natureza, essa vida mental que reside nela, essa organização peculiar ao destino dos seres, essa sabedoria e onipotência no entretenimento da criação, essa comunicação íntima de um Espírito universal entre todos os seres, que coisa outra poderá significar senão a revelação da existência de Deus, a manifestação de um pensamento criador, eterno, imenso? Que significam a faculdade eletiva das plantas, o instinto inexplicável dos animais, a genialidade do homem? Que será o governo da vida terrestre, sua direção em torno do seu foco de luz e de calor, as revoluções solares, a movimentação de mundos incontáveis a gravitarem conjugados no infinito? Que significará tudo isso, senão a demonstração viva, imperiosa, de uma vontade que subordina o mundo inteiro à sua potência, como envolve as nossas obscuridades na sua luz? Que será o aspecto espiritual da Natureza, senão pálida radiação da beleza eterna? – esplendor desconhecido, que os nossos olhos, desviados por falsas claridades da Terra, mal podem entrever, nas horas santas e benditas em que o divino Ser nos permite sentir sua presença.

As leis da Natureza nos têm provado que existe uma inteligência ordenadora. Essas leis – diz John Herschel118 – são, não somente constantes, mas concordantes e inteligíveis. E são fáceis de apreender com o auxílio de algumas pesquisas, mais próprias a estimular que a extinguir a curiosidade. Se pertencêssemos a outro planeta e, de súbito, nos transportássemos a um dos nossos meios sociais no intuito de observar o que neles ocorre, ficaríamos desde logo embaraçados para dizer se uma tal sociedade se regeria por quaisquer leis. Se chegássemos a descobrir que ela presumia tê-las, haveríamos, então, de procurar, na sua conduta e consequências dela decorrentes, quais poderiam ser essas leis, em que sentido foram concebidas e não teríamos, talvez, grandes dificuldades no descobrir regras aplicáveis aos casos particulares; mas, se quiséssemos generalizar, se tentássemos apreender alguns princípios salientes, a massa de absurdos, de contradições jorrantes de todos os lados, presto nos desviaria de um amplo exame, ou nos convenceria da inexistência do objeto de nossa pesquisa. Com a Natureza dá-se inteiramente o contrário. Nela não há dissonância nem contradições e, sim, e só, harmonia. Não temos jamais de esquecer o que soubemos uma vez. Quando as regras se generalizam, as exceções aparentes tornam-se regulares. Qualquer equívoco na sua legislação portentosa é tão inaudito como um ato mal entendido.

Os grandes fatos da moderna Ciência têm, por conseguinte, transformado a ideia de Deus, apresentando-o, ao demais, sob um aspecto bem diverso do encarado até agora. Esse aspecto é, ao mesmo tempo, mais grandioso e mais difícil de apreender.

E, contudo, nós podemos ao menos conceber, senão esboçar, o conjunto dessa metamorfose progressiva.

A ignorância havia humanizado Deus e a Ciência diviniza-o – se é que o pleonasmo não escandaliza os senhores gramáticos.

Outrora, Deus foi homem; hoje, Deus é Deus. A fé do carvoeiro, ainda tão gabada, não é mais a verdadeira fé. O credo quia absurdum é absurdo duplicado. O Ser supremo, criado à imagem do homem, hoje vê apagar-se pouco a pouco essa imagem, substituída por uma realidade sem forma. Pois a forma, a definição, o tempo, a duração, a medida, o grau de potência ou atividade, a descrição, o conhecimento, não mais se aplicam a Deus e mal começam a ser percebidos. O próprio nome oculta uma ideia incompleta e preciso fora falar de Deus sem nomeá-lo. Outrora, Júpiter empunhava o raio, Apolo conduzia o Sol, Netuno senhoreava os mares... Na idolatria dos budistas, Deus ressuscitava um morto sobre o túmulo de um santo, fazia falar um mudo, ouvir um surdo, crescer um carvalho numa noite, emergir da água um afogado... Desvendava a um estático as zonas do terceiro céu, imunizava do fogo, são e salvo, um santo mártir, transportava um pregador, num abrir e fechar de olhos, a cem léguas de distância, e derrogava, a cada momento, as suas próprias, eternas leis... Ainda hoje, lá no Tibet longínquo, adoram Maitreya. A mão deste deus refreia as ondas enfurecidas, abençoa um exército e amaldiçoa o rival; dirige as chuvas em rogativas de procissões e, qual hábil jardineiro, rega aqui, ensombra ali, poda acolá, ajusta, enxerta, combina, seleciona e mantém um cadastro heráldico de nomes e datas119. A maioria dos crentes em Deus o conceituam como um super-homem, alhures assentado acima das nossas cabeças, presidindo os nossos atos. Dotado de excelente vista e não inferior ouvido, mantém as rédeas do mundo e, em caso de necessidade, chama um anjo serviçal e o envia a consertar qualquer peça desarranjada do seu mecanismo. A darmos crédito às tradições do Damapadam e às inscrições d’Aschoka, o Buda tem um filho – Bodisatva – mediador assentado à sua direita, além de uma terceira pessoa – Buda-Manouschi – “a realização de Deus pelo homem”. Todos eles vivem nas alturas do Nirvana eterno, rodeados de espíritos, tronos, apóstolos, mártires, pontífices, confessores, dominações, potências, magos do culto precursor, videntes da filosofia sakhya, que foram purificados, etc.; tudo isso eternamente esquematizado e graduado, segundo os méritos de uma vida efêmera.

A história da ideia de Deus mostra-nos que ela sempre foi relativa ao grau intelectual dos povos e de seus legisladores, correspondendo aos movimentos civilizadores, à poesia dos climas, às raças, à florescência de diferentes povos; enfim, aos progressos espirituais da Humanidade. Descendo pelo curso dos tempos, assistimos sucessivamente aos desfalecimentos e tergiversações dessa ideia imperecível, que, às vezes fulgurante e outras vezes eclipsada, pode, todavia, ser identificada sempre, nos fastos da Humanidade. Notamos, então, que esta ideia relativa difere do absoluto único, sem o qual é impossível, hoje, conceber-se a personalidade divina.

Esse absoluto – importa afirmá-lo nestas últimas páginas – é absoluto mesmo e nós não o conhecemos. Ele não é o Varouna dos Árias, o Elim dos Egípcios, o Tien dos Chineses, o Ahoura-Mazda dos Persas, o Brama ou Buda dos Indianos, o Jeová dos Hebreus, o Zêus dos Gregos, o Júpiter dos Latinos, nem o que os pintores da Idade Média entronizaram na cúspide dos céus.

Nosso Deus é um Deus ainda desconhecido, qual o era para os Vedas e para os sábios do Areópago de Atenas. A noção de alguns eminentes pais da Igreja Cristã e de alguns esclarecidos teólogos modernos aproxima-se, mais que outras quaisquer, desse Deus desconhecido. Mas, como compreendê-lo, quando nenhum espírito criado, nem mesmo os anjos (se é que existem) poderiam fazê-lo?

Não cabe aqui entreter-nos com as moradas imaginadas para a pessoa de Deus. Não abordaremos o poético céu dos gregos, povoado de figuras ideais, onde os deuses sempre jovens e belos se divertem, combatem e gozam com o tomar parte nos destinos humanos. Não falaremos do sombrio e iracundo Jeová dos Judeus, que pune até à terceira ou quarta geração. Nada diremos, tampouco, do céu dos Orientais, que reserva aos crentes numerosas huris, num ambiente de beleza e delícias eternas.

Omitiremos o céu dos groelandeses, no qual a maior ventura consiste numa grande quantidade de peixes e de óleo de baleia, bem como o céu do indiano caçador, que se paga com abundância de caça, e o do Germano que, no Walhalla, faz do crânio do inimigo a sua taça de hidromel.

Se o simples bom senso humano não pode, jamais, fazer uma ideia pura e abstrata do absoluto, as tentativas da Filosofia, por sua vez, pouco ou mesmo nada tem conseguido. Quem se desse ao trabalho de catalogar as ideias acerca de Deus, do absoluto ou daquilo a que os filósofos chamam alma do mundo, ficaria pasmo da quantidade e variedade de sistemas que, desde a origem dos tempos históricos até os nossos dias, a despeito dos progressos científicos, se imaginaram por oferecer poucos raciocínios novos, e raramente razoáveis.

Dizia Goethe120 que os homens tratam Deus como se o Ente supremo, o Ser incompreensível, fosse a eles semelhante, pois de outro modo não diriam, o Senhor Deus, o nosso, o bom Deus.

Para eles e sobretudo para a gente beata, que o tem sempre nos lábios, Deus torna-se um simples vocábulo, uma expressão habitual, desligada de qualquer sentido. Entretanto, se estivessem compenetrados da grandeza de Deus, silenciariam e, respeitosamente, se abateriam de o vocalizar.

Wirchow não está com a verdade quando diz que o homem nada pode conceber do que está fora dele e que tudo que está fora do homem é transcendental.

O homem se retrata nos seus deuses – é ainda Schiller quem o diz.

A natureza de Deus, bem como a sua própria existência, está, em nosso século, no mesmo pé em que se encontrava ao alvorecer da Filosofia. Já se pode observar, no curso geral desta obra, que o nosso fim é, hoje, o mesmo que Xenófanes colimava, seiscentos anos antes da nossa era; isto é, opor uma convicção pura e racional aos dois erros capitais, que são o ateísmo absoluto e o antropomorfismo. Há muito tempo que este filósofo 121, fundador da escola de Eléa, protestou judiciosamente contra essas duas ilusões funestas. “Parece que os homens é que criaram os deuses, atribuindo-lhes as suas paixões, a sua voz, a sua fisionomia”122. Se os bois e os leões tivessem mãos, se soubessem pintar e trabalhar com as mãos, como fazem os homens, os cavalos utilizariam cavalos e os bois aproveitariam os bois para representar seus deuses, dando-lhes corpo idêntico ao seu. Ele refutou as superstições que consistiam em atribuir aos deuses a própria cor, como, por exemplo, a dos Etíopes que, em serem negros de nariz chato, assim representavam os seus deuses; os Trácios, que lhes emprestavam olhos azuis e cabelos ruivos, e os Medas e Persas, que não fugiam à regra.

Há um só Deus que a tudo mais supera,
Aos deuses não somente, como aos homens,
E que aos mortais em nada se assemelha,
Nem na forma exterior e nem na essência.

Clemente de Alexandria, que nos guardou estes versos, muito bem os caracteriza quando diz que Xenófanes aí predica a unidade e a espiritualidade divina. Onde encontrar num filósofo jônio, antes de Anaxágoras, um pensamento como este: “Sem fatigar-se, ele tudo dirige pela potência intelectual.”

Arístoto, Simplícius e Théofrasto conservaram-nos a estrutura da argumentação pela qual Xenófanes demonstrava que Deus não tivera princípio nem poderia ter nascido. Impossível – diz V. Cousin123 – não experimentar uma profunda, quase solene impressão, diante desses argumentos, quando se diz que eles representam, ao menos para a Grécia, a primeira tentativa do espírito humano para analisar sua fé e converter suas crenças em teorias.

É natural, acrescenta o filósofo eclético, quando temos a noção da vida e desta existência tão grandiosa e variada, da qual compartilhamos; quando consideramos a extensão deste mundo visível, a par da harmonia que nele reina e da beleza que reluz em todas as suas partes; quando nos detemos onde se detêm os nossos sentidos imaginativos; é natural, repetimos, concluir que os seres componentes deste mundo são os únicos que existem, que este grande todo, tão harmonioso e uno, é o verdadeiro objeto e a última aplicação do conceito de unidade e que, numa palavra, esse tudo é Deus. Exprima-se esta tirada em língua grega e aí teremos o panteísmo, que é a concepção do todo como Deus único. Por outro lado, quando descobrimos que a unidade aparente do todo não é senão uma harmonia que comporta variedade infinita, assemelhando-se a uma guerra e a uma revolução permanentes, então já não é natural destacar do mundo o conceito de unidade, que é indestrutível em nós, e, assim destacada do modelo imperfeito deste mundo visível, ligá-la a um ser invisível, tipo sagrado da unidade absoluta, além da qual nada mais há que conceber e investigar.

Estas duas soluções exclusivistas do problema fundamental sempre vieram à tona em todas as grandes épocas da história da Filosofia, alterada, é fato, com o progresso dos tempos, mas no fundo sempre idênticas, de modo a poder-se dizer que a história do seu perpétuo litígio com alternativas de predomínio de uma ou de outra foi, até o presente, a história mesma da Filosofia. E justamente por estarem no âmago do pensamento é que essas duas soluções se reproduzem constantemente, incapazes de se separarem e de se satisfazerem.

Pela documentação de Arístoto, vemos que a grande preocupação de Xenófanes era não identificar Deus com o mundo, sem, contudo, conceituá-lo uma abstração. A ideia de um ser infinito, fora do movimento, parecia-lhe uma ideia puramente negativa e, por isso, receava aplicá-la a Deus. Ao mesmo tempo, como pitagórico, repugnava-lhe fazer dele um ser finito, móbil e unicamente dotado de atributos mundanos. Simplícius lembrou dois versos do filósofo, nos quais parece admitir a imobilidade do primeiro princípio: – “Ele permanece imutável em si mesmo, não se desloca de um lugar para outro, de vez que é idêntico a si mesmo.” Xenófanes preocupou-se principalmente com o mundo exterior, mas, não estranho às especulações pitagóricas, soube entrever a inteligência, a harmonia e a unidade deste mundo, chamando Deus a essa unidade, tal como a entrevia e sentia, isto é: em relação íntima com o mundo, sem negar que fosse essencialmente distinta, mas tampouco afirmando que o fosse.

Todos os historiógrafos concordam em atribuir a Xenófanes a invenção do cepticismo universal, ao mesmo tempo que o acusam de panteísta. Valerá, talvez, frisar aqui a extravagância dessa forma de acusação, que começa por irrogar a um homem o seu ferrenho dogmatismo e acaba censurando-o por haver introduzido na Filosofia a doutrina da incompreensibilidade de todas as coisas. Sêxtus cita em apoio desta opinião um texto de Xenófanes:

“Nenhum homem soube nem saberá nada de certo a respeito dos deuses e de tudo quanto falo. E o que melhor fala nada sabe, e o que predomina em tudo é a opinião.”

O próprio filósofo, também ele, não se explica de um modo claro. Pois não diz tratar-se daqueles deuses aos quais sabemos que ele movia uma guerra encarniçada? O laço que o prendia às duas escolas de que fazia parte era o cepticismo e nessas escolas vigorava, com fórmula convencionada, que a crença nos deuses era extracientífica. Hoje estamos na mesma situação: há deuses humanos a desmascarar e um Deus verdadeiro a revelar.

Hoje ainda, como no tempo de Xenófanes, importa combater essas tendências do homem para tudo referir a si e para transportar as suas ideias imperfeitas ao domínio do Criador. A ciência iconociasta derruba as nossas imagens pueris. A Ciência, é verdade, não se ocupa diretamente com as nossas crenças; ninguém duvida tenha ela outros motivos de estudo menos incompreensíveis e mais positivos. Mas, por suas conquistas no plano físico e por seu espírito de análise, ela modifica, necessariamente, a nossa forma de ver e não mais podemos conciliar o caráter do espírito científico com essas encarnações de ideias pueris e indignas do absoluto. Nisso consiste, precisamente, a sua tendência geral. E aqui, como se dá em relação às causas finais, temos a tristeza de observar que um certo número de cientistas, reconhecendo os erros humanos, dos quais acabamos de assinalar alguns tipos, abandonaram ao mesmo tempo os erros e a crença, como se a ilusão e a incapacidade da nossa penúria implicassem a queda da causa primária, que elas mesmas desfiguraram!

Ao demais, pois que a oportunidade se apresenta, ajuntemos que este exagero de cepticismo não deve ser rigorosamente imputado a um deliberado propósito dos que caíram tão baixo, de vez que a isso foram compelidos por uma espécie de reação aos exageros da parte contrária. A principal força do ateísmo provém, indubitavelmente, dos excessos mesmos do Espiritualismo, a desafiarem uma inevitável quão legítima correção. Como têm tratado a Natureza os imprudentes espiritualistas? Admitiram uma eternidade inativa, uma criação espontânea do Universo: no vácuo infinito, uma vontade arbitrária estabelece a sucessão, a duração e a extensão. O mundo não radica no passado e aparece-nos como puro acidente. Mas, não é só: o espiritualismo exclusivista comporta concepções ainda mais temerárias, tais como a negação da matéria, que já entrevimos na primeira parte.

Berkley124 emitiu estas duas afirmações:

“Há verdades tão perto de nós e tão fáceis de alcançar, que basta abrir os olhos para as perceber. Entre as mais importantes, parece-me encontrar-se a de que a luminosa abóbada celeste, a Terra e quanto nela se contém, tudo, em suma, que compõe este Universo esplêndido não tem realidade fora do nosso espírito.” Confessemos que levar o paradoxo a esse ponto é provocar o excesso contrário, que não demora a rebatida violenta sob o prisma do ateísmo. Fanáticos outros há que não só acreditam firmemente nos mais clamorosos absurdos, como se presumem em relação direta com o próprio Deus e se conferem, por virtude dessa mesma graça, um privilégio de infalibilidade. Esses espíritos pecos imaginam, ingenuamente, que o fantasma que eles forjaram é o verdadeiro Deus, criador do céu e da Terra, e ao mínimo pretexto averbam doutoralmente, de ateus e ímpios, quantos com eles não comungam.

Em os ouvindo, é preciso acreditar nas suas pataratas, ou de tudo descrer. Não há meios-termos. Todo espírito que se não veste pelo seu figurino é anátema. Chegam mesmo a declarar que preferem o mais obstinado incrédulo ao crente que diverge das suas opiniões. Não sabem distinguir o formal do essencial. Se, por exemplo, escrevermos esta profissão de fé: “cremos de todo o coração na existência de Deus, mas não conhecemos o Ser misterioso, assim denominado e julgamos impossível que o homem consiga compreendê-lo” – estamos certo de que os zelotes da religião e da moral vão de pronto gritar – blasfêmia, iniquidade! – e interditar às suas ovelhas a leitura deste livro.

Não nos detivesse aqui um escrúpulo todo pessoal e poderíamos, assim, de antemão citar o título dos jornais e o nome dos escritores que nos vão increpar de blasfemo. Espíritos assim tacanhos encontramos em todas as confissões e em todos os dogmas: nos católicos e protestantes da Irlanda ou da Alemanha, como nos judeus ou nos muçulmanos do Cairo e de Constantinopla. Toda bandeira tem os seus imprudentes.

Todavia, a investigação imparcial da verdade exclui de seus domínios os exageros do fanatismo, tanto quanto os do cepticismo. Ela prossegue na sua tarefa laboriosa e fecunda e expõe sinceramente o ensinamento recolhido das suas descobertas sucessivas.

Dos progressos gerais da Ciência resulta, dizíamos, que a ideia comum acerca de Deus está atrasada e tornou-se até mesquinha e inaceitável, à face desses enormes progressos.

À medida que se amplia o conhecimento da Natureza, faz-se necessário desenvolver a concepção do seu Autor. São noções paralelas que participam, necessariamente, dos mesmos movimentos. Assim como nada existe de absoluto em nossos conhecimentos da criação, assim também, nada absoluto podemos idealizar sobre o Criador. E a Ciência, longe de destruir a velha ideia da existência de Deus, desenvolve-a e torna-a gradualmente menos indigna da majestade que lhe é apanágio.

Assim, não é mais um ser humano, não é mais uma personagem real que a inteligência atilada lobriga na cimeira da criação. Nossos mais altos conceitos de hierarquia, de soberania, de cetros e tronos perderam toda a capacidade de comparação; os mais nobres sentimentos de santidade, grandeza, poder, bondade e justiça abatem-se estéreis perante o ser desconhecido. Quando pronunciamos a palavra infinito, queremos nos referir a um atributo cujo caráter ignoramos totalmente. A soma integral dos nossos pensamentos é menos que zero no cômputo do absoluto. Comparados à realidade desse absoluto, estão dele mais infinitamente distantes do que estariam dos nossos os de um mísero peixe nas profundezas oceânicas. É nessa altura que as revelações da Ciência nos convidam a crer.

Dilatando-se a esfera de nossa contemplação e espalhando uma luz mais instrutiva sobre a composição geral do Universo, também avulta e aclara-se-nos o senso íntimo da divindade. Ora, ainda que a Ciência não nos houvera prestado outros serviços, ainda assim, enorme seria a sua influência, visto que, ensejando o desmoronamento dos velhos andaimes para substituí-los e entremostrar o edifício ideal da verdade, ela desloca o eixo do mundo e renova a superfície do terreno intelectual. É ao espírito científico que se aplica doravante o Renovabis faciem terrae.

Passando dos domínios dos seres criados para os do espírito puro, a noção de Deus sofre uma metamorfose correlata à noção das forças da Natureza. Estas forças não são mais elos materiais, nem mesmo fluídicos. Deus aparece-nos sob a ideia de um Espírito permanente e residente no âmago das coisas. Deixa de ser o soberano a governar das alturas celestes para ser a lei invisível dos fenômenos. Não habita um Paraíso povoado de anjos e de eleitos e, sim, a amplidão infinita, repleta da sua presença, ubiquidade imóvel, totalizada em cada ponto do Espaço, em cada instante do tempo, ou por melhor dizer, eternamente infinita e sobranceira a tempo, espaço e ordem de sucessão, qualquer passado e futuro existem para nós, seres sujeitos a tempo e medida, não para o Eterno. O espaço oferece-nos dimensões variadas e o infinito não. Não são afirmações metafísicas de cuja solidez possamos suspeitar, mas, antes, deduções inevitáveis e resultantes dos próprios dados da Ciência sobre a relatividade dos movimentos e a universalidade das leis.

A ordem universal reinante na Natureza, a inteligência revelada na construção dos seres, a sabedoria espalhada em todo o conjunto, qual uma aurora luminosa e, sobretudo, a universidade do plano geral regida pela harmoniosa lei da perfectibilidade constante, apresenta-nos, já agora, a onipotência divina como sustentáculo invisível da Natureza, lei organizadora, força essencial, da qual derivam todas as forças físicas, como outras tantas manifestações particulares suas.

Podemos, assim, encarar Deus como um pensamento imanente, residente inatacável na essência mesma das coisas, sustentando e organizando, ele mesmo, as mais humildes criaturas, tanto quanto os mais vastos sistemas solares, de vez que as leis da Natureza não mais seriam concebíveis fora desse pensamento; antes, são dele eterna expressão.

Esta convicção, adquirimo-la no exame e análise dos fenômenos da Natureza. Para nós, Deus não está fora do mundo, nem a sua personalidade se confunde na ordem física das coisas. Ele é o pensamento incognoscível, do qual as leis diretivas do mundo representam uma forma de atividade.

Tentar a definição desse pensamento e explicar o seu processo operatório, pretender discutir seus atributos ou procurar os seus caracteres, resolver o abismo infinito na esperança de poder satisfazer nossa avidez de conhecimento, seria, ao nosso ver, empresa não apenas insensata, mas até ridícula. Um tal ensaio demonstraria que o seu autor não compreendera a distinção essencial que separa o infinito do finito. Entre estes dois termos há uma distância que ponte alguma poderia cobrir. Deus é, por sua natureza mesma, incognoscível e incompreensível para nós.

Não é preciso mergulhar no labirinto do desconhecido para chegarmos à certeza da existência de Deus. Em o fazer, talvez houvesse mesmo algum perigo, se se obstinassem a viver nas sombras de um mistério impenetrável. Certo, é já dificílimo inferir do Ser supremo a noção científica que aqui deixamos entrever. Os próprios espíritos mais ponderados experimentam áridos obstáculos para assim penetrar no desconhecido pelo conhecido, no invisível pelo visível, na lei pensada pela lei manifestada, na força original pela força sensível. E nós estamos tão intimamente convencidos do trabalho necessário ao intelecto humano para chegar à noção filosófica do Deus da Natureza, que nos abstivemos de profundar mais a sua concepção, temendo que uma forçada contensão de espírito pudesse empanar a própria ideia. Concepção só acessível, portanto, às almas que compreendem a importância e o interesse desses problemas, sonhando, nas horas de solitude, com a revolução de Deus pela ciência da Natureza e descendo ou elevando-se (em Astronomia é a mesma coisa) através do velário das aparências corpóreas, até à causa virtual que tudo movimenta em plano de ordem e harmonia, tudo dispondo consoante seu peso e medida.

Esta concepção do pensamento eterno poderá parecer racional (assim o esperamos) a quantos estejam habituados ao método das ciências positivas e não se tenham transviado nelas, a ponto de obliterar a noção de causa primária.

À progênie dos que mutuamente se incendiaram nos tempos de João Huss e de Miguel Cervet, a nossa concepção há de parecer herética. Eles nos inquinarão de panteísta, sem querer compreender que não identificamos a personalidade divina com as transformações da matéria. Hão de declarar que pretendemos que tudo é Deus e que todo o mundo se governa por si mesmo. Outros terão a fantasia de nos qualificar de ateu e corruptor da moral evangélica, incapazes, que são de compreender a adoração a outro Deus que não o seu.

Uma terceira categoria, ainda mais radicalista e exagerada, tratará de malfeitores a quantos se deixarem levar pela ideia acima formulada. Mas, aonde iríamos parar se houvéssemos de revidar a toda essa gente? Na realidade, toda essa atoarda só significa uma coisa: que estamos caminhando para a frente.

Nesta, como nas obras precedentes, os leitores poderão notar a voluntária ausência de nomenclaturas escolásticas. Houve quem nos chamasse dinamista e quem fosse além, dizendo-nos duo-dinamista. Reconhecem-nos, uns, tendências para o mais evidente animismo, enquanto outros nos rotulam de organicista. Eis, agora, o vitalismo, que nos convida a declarar francamente se a ele temos aderido. A maioria acusa-nos de ecletismo. Deixamos de parte os títulos de panteísta e teísta em contradição aos de materialista e ateu, que nos foram irrogados de campos opostos. A posição de um espírito que busca unicamente a verdade só pode ser a de um grande isolado. Ele expõe-se a ser tratado como protestante pelos católicos e como romancista pelos reformados; os cristãos tacham-no de herético e os filósofos averbam-no de cristão. Ao critério de cada qual, ele não pode deixar de pertencer a um sistema, a uma seita, a uma escola.

Ora, francamente declaramos; a ninguém pertencemos.

Por que nos privarmos de recolher o bom e combater o mau onde quer que os encontremos? Porque nos convidarem a respeitar o erro pela só razão de sua antiguidade? Porque pretender encerrar-nos num círculo de antemão preconcebido? Que significam barreiras, dogmas, bandeiras que tais? Ilusão e nada mais. Sistemas? – jamais. Apenas, e só apenas, independência absoluta na investigação e culto da verdade.

O que tem prejudicado a um grande número de espíritos é essa propensão ou essa condenação para encarrilar-se numa senda. Certo, há necessidade de seguir um método pessoal, apoiar-se em verdades tradicionalmente reconhecidas, conhecer o objeto positivo dos nossos estudos e trabalhar sem esmorecimentos na conquista do saber. Nós, porém, não nos revestimos de ouropéis fictícios, nem ocultamos o nosso céu sob uma bandeira. Estudamos pouco a pouco a Natureza, através de todas as suas formas, em todos os seus aspectos, exprimindo com sinceridade o resultado do nosso estudo, sem nos preocuparmos com as palavras em disputa de pontos e vírgulas. A andorinha que volta aos penates na estação própria singra livremente a amplidão do Espaço...

Que sucederia se a obrigássemos a torcer as asas, a baixar os olhos, a levar na pata um galhardete e a rebocar consigo uma fileira de balões?

A doutrina aqui professada pode considerar-se um ateísmo ontológico, o esforço do homem para conhecer o Ente absoluto. É uma forma necessária, imposta pelo teísmo racional. O argumento extraído da Teologia prova um Deus universal, autor de todas as coisas, e o argumento da Ontologia prova a infinidade de Deus. Não podemos admitir um sem outro, quaisquer que sejam as dificuldades para conciliar as respectivas conclusões. Essas dificuldades decorrem da grandeza do assunto e, ainda que não podendo ir além do alcance da nossa vista, não é razão para fechar os olhos ao que se torna evidente. Trocando o vocábulo panteísmo por teísmo, confessamos, com um pastor anglicano125, que o “teísmo” é, por toda parte, reconhecido como teologia da razão, razão que poderá ser impotente, mas, em definitiva, é a única que possuímos.

O teísmo é a filosofia da religião, de todas as religiões, é o alvo da verdade. Preciso se nos faz pensar, ou deixar de pensar e raciocinar acerca de todos os problemas da criação. Podem as criaturas deter-se no símbolo; Igrejas e seitas podem lutar e tolher a meio caminho as consciências, apelando para Escrituras ou tentando fixar limites ao pensamento religioso, mas Deus, esse, não os tem fixado.

A razão humana, todavia, incoercível e inevitável no seu progredir, como no seu divino amor à liberdade, quebra todas as cadeias e vence todos os entraves.

Se, ao invés de tomar por objeto de estudo Deus, na Natureza, preferíssemos aqui apresentar Deus segundo os homens, competiria discutir, agora, a ideia que os filósofos contemporâneos
formularam, a respeito do Ente supremo. E seria, na verdade, um exame digno do maior interesse. Mas os limites sempre crescentes desta obra nos forçam a restringir a argumentação ao seu objetivo precípuo. Nosso dever, portanto, é aqui juntar simples mente o esboço das figuras em que se fixaram os nossos pensadores, para representar a personificação divina.

A opinião que proclama a identidade substancial de Deus com o mundo, e que recentemente tem tido uma revivescência favorável, não passa de panteísmo absoluto, na sua forma simples e íntegra. Quaisquer que sejam as palavras com que o expressem, um espírito judicioso jamais se iludiria. Se Deus e o mundo não são mais que um mesmo e único ser, Deus não existe.

Outra concepção baseada na precedente, porém, elevada a um grau de extrema sutileza, é a do Deus-ideal, a afirmar que Deus e o mundo são substancial, mas não logicamente idênticos. Deus seria, assim, a ideia do mundo, para que o mundo fosse a realidade de Deus. “Esse Deus que um filósofo nos inculca relegado em seu trono, em plenitude de eternidade silenciosa e vazia, não tem outra realidade que não a ideia, nem trono outro além do Espírito.” Deus, aí, separa-se do mundo, mediante uma operação intelectual do homem.

É um ideal criado pela lógica. Pensando em Deus, criamo-lo. Não existisse o homem e Deus tampouco existiria.

Assim, com esta hipótese, o Deus real, idêntico ao mundo, não é Deus e o Deus ideal, distinto do mundo, em realidade não existe.

É já de si, como vemos, uma teoria alambicada. A que goza agora de maior conceito, para uma certa categoria de espíritos convencidos de sua superioridade, é, porém, a que reverencia com a maior polidez o Deus vulgar, pessoal e humano, que venera os grandes princípios da Moral, da Filosofia e da Estética, declarando, todavia, que Deus, tal como o Bem, o Belo, a Verdade, ainda não existem, mas “estão à bica”. Kant, na Crítica da Razão Pura, demonstrou que o homem está invencivelmente disposto a supor reais os objetos de sua crença, sendo estes embora puramente subjetivos. Hegel retomou a grande máxima do velho Protágoras, que diz ser o homem a medida de todas as coisas, e ensinou que o indivíduo tende a erigir-se em princípio absoluto, reportando tudo a si, mostrando aos clarividentes Germanos, de olhar prevenido nesse sentido, a ideia a desenvolver-se no Universo. A escola a que nos referimos, atualmente representada por Vacherot, Renan, Taine, Scherer e talvez Saint-Beuve, ensina o desenvolvimento da ideia na Natureza, o futuro universal. O Universo caminha para a perfeição, à revelia de qualquer direção inteligente. Deus é um filósofo sem sabedoria, inferior mesmo ao herói de Sedan, visto que não se conhece a si mesmo e não tem existência pessoal. É simplesmente Divino; portanto, uma qualidade e não um ser. Nem há uma verdade absoluta, mas nuanças e metamorfoses. O pensador que contempla esse vago progresso é o mais ditoso e o mais santo dos homens. O Sr. Caro definiu bem esta religião, dizendo-a a alucinação do Divino ou o quietismo científico. A Ciência, porém, não admite semelhante quietismo, nem uma tal alucinação. É uma hipótese que se desvanece diante da crítica severa. Já evidenciamos: a tendência geral e progressiva do átomo para a mônada animada e desta para o homem, não se pode explicar sem a existência de um pensamento diretor e, em todos os casos, bem mais difícil de aceitar que o do próprio Deus.

Uma quarta escola é a que se intitula positivista e que resolveu – fato virgem – pela primeira vez, construir uma religião ateia, engendrando uma nova classificação dos conhecimentos humanos, fundada na observação pura e isenta de toda e qualquer investigação causal.

Mal grado ao seu sistema, algo vaidoso, de eliminação e negação, essa escola não prescindiu de cultuar um Deus; – a Humanidade – e cujo profeta é Augusto Comte. É um Deus que tem altares, culto, sacerdotes (tanto é verdade que os extremos se tocam), calendário, festividades. O orçamento é de antemão regulado, cabendo aos vigários seis mil e aos curas doze mil francos. O grão-sacerdote, que é no caso o Sr. Comte, tem sessenta mil francos, etc. Aqui, não há outro Deus senão a Humanidade.

Essas teorias, para os espíritos afeitos a especulações metafísicas, ainda guardam um aspecto compreensível. Outros há que, sublimados e quintessenciados, resolvem o panteísmo, numa espécie de vapor transparente, elevam a metáfora a um tal ponto que Deus deixa completamente de existir, para que só domine a sua metáfora transcendente.

“No cume das coisas, nos píncaros do éter luminoso e inacessível, pronuncia-se o axioma eterno e a repercussão prolongada desta fórmula criadora compõe, por suas ondulações inexauríveis, a imensidade do Universo. Todas as séries de coisas provêm dela, religadas pelos divinos anéis de áurea cadeia.” Certo, seria difícil imaginar como este misterioso axioma pode extrair de sua abstração o mundo real e como, ondeando no seu vácuo eterno, cria e aciona as leis gerais do mundo. Ao nosso ver, quando acusamos a teologia católica de haver tirado o mundo do nada, não adianta a troca, substituindo um milagre pelo outro.

A hipótese do axioma eterno é mais que panteísta, tem mais jus ao título de ateia, e podemos exorná-la com o qualificativo de ateísmo filosófico. Poderíamos, ainda, ajuntar-lhe aqui duas outras formas, quais as de teísmo cosmológico e ateísmo fisiológico.

O primeiro consiste em substituir as palavras do apóstolo pelo seguinte versículo: no princípio era o átomo, e o átomo era de si mesmo, e o átomo é o gerador do mundo. O segundo consiste em substituir a direção de uma causa inteligente por forças naturais inconscientes. Essas duas espécies de ateísmo, temo-las alternativamente evidenciado no curso desta obra e, com o haver feito justiça às suas pretensões, dispensamo-nos de as reconsiderar.

Por fim, vejamos o ateísmo absoluto, que se afirma quadradamente, sem pestanejar, e vai até à blasfêmia. Eis um exemplo:

“A análise metafísica reduziu a nada o velho dogma. Reduzindo Deus a entidade incondicionada, demonstrou-o impossível; provou que os seus atributos são os mesmos do nosso ser... Com que direito me viriam agora dizer – seja santo porque eu o sou? Mentiroso! – dir-lhe-ia eu – Deus imbecil, teu reino findou, procura outras vítimas entre os animais... Se é que Satã existe, o Satã és tu. Outrora, podias triunfar, mas hoje, eis-te destronado. Teu nome, que foi, por tanto tempo, a última palavra do sábio, a sanção do juiz, a força do príncipe, a esperança do pobre, o refúgio do pecador repeso, esse nome intransmissível, inalienável, de agora em diante está fadado ao desprezo, ao anátema, ao apupo dos homens.

“Porque Deus é asneira e covardia, hipocrisia e mentira, miséria e tirania; é, em suma, o mal. Enquanto a Humanidade se prosternar diante de um altar, a Humanidade será réproba. Retira-te de mim, pois hoje, curado do teu temor e feito sábio, eu juro, de mãos levantadas para o céu, que não passas de carrasco da minha razão, espectro da minha consciência!”126.

Esta cólera nada tem de científica, salvo, talvez, do ponto de vista médico, em relação aos cuidados que reclama a alienação mental. Presumimos que os nossos argumentos fizeram justiça a essa negação absoluta de pensamentos, na Natureza.

De resto, a que se reduz a negação materialista? Buscando o âmago das coisas, percebemos logo que essas negações não podem ser tão absolutamente negativas quanto o pretendem. O insensato não o será jamais impunemente e não é tão fácil, quanto possa parecer, uma convicção profunda no ateísmo. Na maioria dos casos, o que ocorre é o deslocamento da questão e nada mais. Em vez de chamar Deus à direção das forças que regem o mundo, os convencidos de ateísmo deixam de o nomear e, em vez de atribuir a um ser inteligente a inteligência dessas forças, outorgam-na à própria matéria. Removem, assim, mas não resolvem o problema, pois os fatos continuam irrevogáveis. Negam a Deus, mas não podem negar a força. Apenas, em lugar de proclamarem a soberania dessa força, consideram-na escrava da matéria inerte. Nisto reside todo o nó da questão, nó que ainda não foi desatado pelos materialistas nem pelos espiritualistas, visto que a observação direta da retina humana não vai até lá. A diferença principal que os divide no discrime está em que os primeiros não explicam a criação, nem o plano, nem a conservação da Natureza, enquanto que os segundos o fazem plausivelmente. Consideradas como duas hipóteses, as duas doutrinas contrárias não se equivalem e todo o homem sincero há de inclinar-se sempre para a que admite um Criador. Porque esta é, não só mais completa, como mais franca.

Todas as propriedades instintivas ou intelectuais que os nossos adversários não podem deixar de atribuir à matéria para explicar a ação desta, sua tendência progressiva, seu método seletivo, desde a formação do vegetal humilde à formação de um cérebro humano, são atributos que eles extraem do ignoto que nós denominamos Deus e que eles homenageiam chamando-lhe matéria. Mas, em abstraírem do mundo a ideia de ordem, verdade, beleza, perfeição, harmonia espiritual e corporal, eles arrebatam ao mundo a sua alma e a sua vida. Nós, porém, não vemos a vantagem de substituir um ser vivo por um cadáver. Seu Universo assemelha-se aos enforcados, com os quais fizemos experiências elétricas, há algum tempo. Eles como que ressuscitavam, aparentemente, graças à aplicação da eletricidade ao sistema nervoso, que lhes movimentava todo o corpo.

Gesticulavam, agitavam braços e pernas, como quem acordasse; abriam os olhos e a boca num perfeito simulacro de vida... Ora, fazendo circular no organismo universal as forças pelas quais substituem a genuína vida, os ateus hodiernos oferecem-nos um simulacro, no qual estão obrigados a simular a vida que abstraem. Sob este aspecto, é uma questão de palavras. Para nós, um cadáver é sempre cadáver, mesmo que esteja eletrizado. Emprestando à matéria atributos só cabíveis à força suprema, eles reduzem o Universo a um estado lastimoso. Se Deus deixasse de existir um momento, toda a vida universal ficaria suspensa. Seria curioso ver como esses bravos materialistas ressuscitariam e fariam circular uma vida factícia no corpo colossal de que somos, eles e nós, ínfimos parasitas.

Depois de haver visualizado a ordem universal, chegamos a confessar, levados por uma evidência irresistível, que, para uma criatura racional, é o cúmulo do contra-senso supor que exista a razão. Parece-nos absurdo integral a crença de que o espírito pudesse surgir no cérebro humano e manifestar-se nas leis do Universo, se não existisse de toda a eternidade. Nem sempre há que desdenhar os teólogos e neste lanço o pregador da Notre-Dame de Paris parece-nos aplicar o seu talento na defesa da verdade. A força cega, diz o Padre Félix, produzindo a harmonia cósmica e levando-a aos últimos desdobros, até o aparecimento do ser pensante... Mas, santo Deus! – que vamos fazer da nossa razão se doravante nos forçam a admitir uma tal reviravolta de ideias e perversão de linguagem? Como admitir uma força ininteligente dando o que não tem, nem pode ter, isto é – inteligência? Como poderiam tais forças, ininteligentes e cegas, arrastando-se umas por outras, entrosando-se num mecanismo incompreensível, chegar a produzir, ao termo de elaborações espontâneas, o pensamento, tal como a flor que desabrocha e se balança na ponta do hastil?

Pois quê! Será possível que o vosso critério filosófico possa tomar a sério a hipótese ridiculamente metafísica da preexistência de uma ordem universal, sem que houvesse um pensamento para concebê-la, uma inteligência para compreendê-la, um olhar para contemplá-la e uma alma para amá-la? Pois quê! Será essa Natureza, assim cega, inconsciente, escravizada, sem olhos de ver nem coração de amar, que vai, num silêncio eterno, tecendo a malha divina de tudo o que existe? Temo-la então, a cega Natureza originando sem o querer, nem saber, uma harmonia, até que finalmente, da base ao cimo do cosmos, como filho da cega fatalidade, surja o homem para ouvir a harmonia que não fez, e tomar conhecimento dessa ordem que não procede dele, porque lhe precede!

No mínimo, há no Universo a razão espiritual dos que se elevaram à descoberta das leis que o regem e estas, por sua vez, existem, realmente. Se assim não fora, todo o edifício da razão humana ruiria pela base. Os processos de indução, que nos levam da análise à síntese, devem ter, com efeito, objetivos reais de aplicação, sem o que só podemos raciocinar no vácuo. Generalizar uma lei parcialmente observada, acreditar simplesmente que o Sol se levantará amanhã porque se levantou ontem; ou que o trigo semeado neste outono germinará antes do inverno e será colhido no próximo verão; traduzir os fatos naturais em fórmulas matemáticas, é supor que a Natureza subordina-se a uma ordem racional e que o relógio marcará a hora acorde com a construção do relojoeiro.

O próprio processo de indução científica é um silogismo transportado dos domínios humanos aos da Natureza, reduz-se a este tipo fundamental; o mundo é regido por uma ordem racional; ora, a sucessão ou generalização de uns tantos fatos observados torna a entrar na ordem racional e, portanto, essa sucessão ou generalização existe.

Se o homem às vezes se engana nas aplicações desse processo, é que ele não se limita às aplicações imediatas, ou não tem uma base suficiente de observações diretas. Todas as ciências e sínteses indutivas do homem repousam na convicção de que a Natureza está subordinada a um plano racional.

A organização maravilhosa do mundo não vos obriga a confessar a existência do Ser supremo? Por nossa parte, muita vez temos perguntado, como se pode recusar tão obstinadamente essa existência? Quais as vantagens do ateísmo? Em que pode ele preterir o teísmo? Que pode a Humanidade lucrar com o renegar, doravante, a crença em Deus? Qual é o melhor homem: o que crê, ou o que não crê? Será, então, um ato de fraqueza o sermos lógicos com a nossa consciência?

Falta grave, o senso comum? É possível que esses espíritos fortes, galgando o céu por uma escada de paradoxos, acreditem estar bem alto... Enganam-se, porém, redondamente, com essa ilusão comparável àquela antiga prova maçônica, que era percorrer o iniciado uma escada de cento e cinquenta degraus descendentes, de sorte que, ao fim do percurso, no momento de atirar-se ao vácuo, apenas tocava o solo. Não, senhores, vossa escalada não é mais terrível do que essa e apenas pode acarretar maus resultados para os homens de vistas curtas, incapazes de perceber o vosso erro e até considerando-vos as fênix da Ciência. Fosse agradável a vossa ilusão, consoladoras as vossas doutrinas; capazes, as vossas ideias, de estimular a emulação da Humanidade pensante para elevar-se a um ideal supremo, e talvez se pudesse perdoar-vos a terapêutica. Mas, com franqueza: – em que vos parece funesta, à inteligência humana, a crença em Deus? Onde e como verificastes que o conhecimento da verdade pode enfermar o cérebro? Despojando a Humanidade do seu tesouro mais precioso, banindo do Universo a vida, rechaçando da Natureza o espírito, não admitindo mais que a matéria cega e forças zanagas, privais a família humana de ter paternidade e o mundo de ter um princípio e uma finalidade. Gênio e virtude, reflexos de um esplendor maior, eclipsam-se convosco e o mundo moral, tanto quanto o físico, não serão mais que um caos imenso, digno da noite primitiva de Epícuro.

Mas, ainda bem que o ateísmo absoluto só pode ser uma loucura nominal e o espírito mais negativista não pode, realmente, atribuir à matéria senão o que pertence ao espírito, criando assim um deus-matéria, à sua imagem e semelhança. Assim, temos visto que, desde o panteísmo místico ao mais rigoroso ateísmo, os erros humanos a respeito da personalidade divina não puderam, senão, velar, ou desnaturar a revelação do Universo, sem aniquilá-la. Nosso Deus da Natureza permanece inatacável, no seio mesmo da Natureza, força intrínseca e universal governando cada átomo, formando organismos e mundos, princípio e fim das criações que passam, luz incriada a brilhar no mundo invisível e para a qual, oscilantes, se dirigem as almas, como a agulha imantada, que não mais repousa enquanto não se encontra identificada com o plano do polo magnético.

* * *

Acercando-nos do fim deste livro, detenhamo-nos um instante por bem nos compenetrar das verdades adquiridas em nossa argumentação, guardando a legítima impressão deste arrazoado científico. Vigem hoje no mundo dois grandes erros, tão vivazes e profundos como nos tempos mais obscuros da História, isto é, nas épocas recuadas em que a inteligência humana ainda não podia formular nenhuma concepção exata da Natureza.

Esses dois erros, por nós combatidos paralelamente, são: de um lado o ateísmo, que nega a existência do espírito; e do outro a superstição religiosa, que concebeu um “Deusinho” semelhante a ela e fez do Universo uma lanterna mágica, para uso e gozo da Humanidade.

Como esses dois erros igualmente funestos – posto que à primeira vista pareçam inócuos e seja o segundo essencialmente orgulhoso – procuram agora apoiar-se em princípios sólidos da Ciência contemporânea, impusemo-nos o dever de mostrar que eles não podem reivindicar tais princípios em seu favor; que jazem fatalmente isolados da ciência positiva e desarticulam-se ao primeiro embate, qual castelo de cartas, enquanto – ideia central – continua em linha reta o espiritualismo científico.

Resumamos nossa argumentação. Constatamos, de começo, locando o problema, que o essencial consiste em distinguir força e matéria, e examinar se é a matéria que rege a força ou, ao invés, se é esta que governa aquela. As afirmativas materialistas, decalcadas na primeira das premissas, pareceram-nos desde logo puramente arbitrárias, como simples petições de princípios, fáceis de desmascarar.

Nosso exame do papel da força, na Natureza começou pela perspectiva das grandezas celestes. Vimos que na imensidade do Espaço os mundos obedecem a uma lei matemática e que é à execução dessa lei que devemos a harmonia dos movimentos celestes, a fecundidade dos astros, a manutenência dos seres em cada mundo, a vida e a beleza do Universo, em suma. A matéria inerte não se nos figurou capaz de compreender e aplicar o cálculo infinitesimal, e então concluímos que a ordem numérica da organização astronômica é devida a um Espírito, indubitavelmente superior ao dos astrônomos que descobriram a fórmula dessas leis. As contraditas que nos opõem refutam-se de si mesmas, por suas respectivas puerilidades.

O exame das leis que presidem às combinações químicas, do papel da álgebra e da geometria no microcosmo, das forças que regem os fenômenos do mundo inorgânico e ordenam as viagens atômicas, das harmonias reveladas nas vibrações luminosas, como nas cônicas, e do primeiro surto da força orgânica no reino vegetal, nos demonstrou que na Terra, como no céu, uma inteligência desconhecida tudo ordena e se traduz em beleza e grandeza máximas.

O estabelecimento da verdadeira teoria das relações entre a força e a matéria tem, por epígrafe, a velha divisa dos Pitagóricos – Os números regem o mundo.

Penetrando, então, nos domínios da vida, a primeira perspectiva que nos dominou foi a da unidade que abrange todos os seres. Sua substância pareceu-nos, muita vez, não lhes pertencer como propriamente deles e transitar, constante, de uns a outros, sendo o ar o veículo da organização vital do planeta. Os processos de respiração e alimentação nos demonstraram a solidariedade existente entre os animais e as plantas. O corpo humano apresenta-se-nos em transformação constante. O grande fenômeno da circulação da matéria estabeleceu que a existência de uma força central, constituindo a vida em cada ser, faz-se absolutamente necessária para explicar a permanência do organismo, o equilíbrio das funções vitais, a própria existência, enfim. Essa força orgânica só é transmissível pela geração.

O quadro das últimas conquistas da Química orgânica continuou afirmando a força, qual a estabelecera a Fisiologia.

Remontando, então, para além da vida atual, para a origem dos seres, a causa espiritualista revelou num crescendo a sua necessidade e veridicidade. Comparamos com a nova a velha hipótese materialista e achamos que não são mais que uma e única hipótese, aliás, insuficientes.

A mesma perquirição nos levou ao problema, não resolvido, das gerações espontâneas. O ponto essencial da questão está no havermos constatado que, mesmo na hipótese da organização autônoma da matéria, a teologia natural não é atingida e a força diretiva continua a impor-se como absolutamente necessária. Vimos, ao demais, que não são os mestres que opõem teorias contrárias à admissão de um Deus, e sim os discípulos inexperientes, de vez que a lei tanto impera na transformação e progressão das espécies, como na sua criação separada. E quanto ao homem em si mesmo, vemos que o seu posto característico na criação afirma-se, menos pelos índices anatômicos que por seu valor intelectual, tendo-se em vista a sua racionalidade e os progressos que é capaz de realizar.

Esse estudo geral da vida terrestre tem por epígrafe a proposição fundamental da obra de Arístoto: A alma é a causa eficiente e o princípio organizador dos corpos vivos.

Mas, é, sobretudo, no próprio homem que temos reconhecido mais evidente e inatacável soberania da força. Nosso exame do cérebro revelou, desde logo, a ilusão dos metafísicos que desdenham o laboratório e a dissecação, pretendendo limitar a Natureza a uma simples definição. Esse exame serviu para estabelecer as relações do cérebro com o pensamento, e mostrou que a sua composição, forma, volume e peso, estão longe de ser estranhos à alma. A ação do espírito sobre o cérebro ressaltou, íntegra, da fisiologia para afirmar-se no seu real valor. As hipóteses que resultaram na conceituação do pensamento como secreção de substância cerebral, ou como dinamismo nervoso, só conseguiram notabilizar-se pela sua inanidade. A presença da alma evidenciou-se até nos fenômenos de loucura. O gênio apareceu-nos como a faculdade máxima de pensar.

Depois, a personalidade humana veio afirmar-se no seu valor. Temos visto que existimos, realmente, que não somos apenas a qualidade variável da substância cerebral.

A alma afirmou sua unidade e personalidade. A contradição entre essa unidade e a multiplicidade dos movimentos cerebrais, sobretudo entre a identidade permanente da alma e a troca incessante das partes constitutivas do cérebro, reduziu a hipótese materialista a extrema pentiria. Em vão tentaram detê-la. Temos analisado a nulidade de suas explicações, à face dos grandes feitos afirmativos de uma consciência em nós.

Por fim, para aniquilar até os fundamentos a singular e triste pretensão de ser o homem governado pela matéria, discutimos, socorrendo-nos de fatos e exemplos, se poderia admitir-se não fossem a vontade e a individualidade mais que ilusão, e que a consciência e o julgamento dependessem da alimentação.

Os exemplos históricos de homens enérgicos, dotados de grande força de vontade, de fortes expressões de caráter, de perseverança e de virtudes, desmentiram essas últimas objeções do materialismo contemporâneo e mostraram que as faculdades intelectuais e morais nada têm a ver com a Química, e que o espírito reside num mundo distinto do material, superior às vicissitudes e movimentos transitórios do mundo físico.

Nossa alma não permitiu que a dignidade humana, a liberdade, os sagrados princípios do belo, do bom, do verdadeiro, fossem envolvidos no caos da hipótese materialista.

Esta declaração dos direitos da alma tem por epígrafe a proposição do doutor angélico: a alma conforma o corpo e nele se contém em ato e em potência.

As três grandes divisões que vimos de resumir tiveram por complemento natural as nossas considerações sobre a destinação dos seres e das coisas. Comentamos o erro e o ridículo dos que tudo ligam ao homem, bem como o seu oposto, que nega a existência de um plano na Natureza. As leis organizadoras da vida, a maravilhosa construção dos órgãos e dos sentidos, nos revelam uma causa inteligente na instalação da vida planetária. A hipótese da formação dos seres vivos sob a ação de uma força universal instintiva, e da transformação das espécies, longe de anularem a idéia do Criador, deixaram intactas a sua onipotência e sabedoria.

E assim, o plano da Natureza foi anunciado pela construção dos seres vivos.

Mais eloquentemente ainda, foi esse plano afirmado pelas provas do instinto no reino animal. A criação, aí, nos surgiu magnificamente completada por leis assecuratórias da sua duração e grandeza. Mas, ao mesmo tempo que a presença de Deus se manifestava mais imponente aos nossos olhos, o problema geral da finalidade do mundo surgia mais vasto e temeroso. Sentimos, então, a insignificância comparativa e assim fomos levados, naturalmente, pela diretriz do arrazoado, a retomar a ideia dominante do nosso ponto de partida, isto é, demonstrar conjuntamente o erro do ateísmo e da superstição religiosa.

Este exame da causalidade final teve por epígrafe o título da obra do grande físico e filósofo Ested – O Espírito na Natureza.

A força espiritual que vive na essência das coisas e governa o Universo em suas partículas infinitesimais revelou-se assim, sucessivamente, nos mundos sideral, inorgânico, vegetal, animal, pensante. Esperamos que o observador de boa fé, desprevenido do espírito de sistema, se contentará com esta exposição dos últimos resultados da Ciência contemporânea, confirmativos da soberania da força e da passividade da matéria.

Temos íntima convicção de que a ideia de Deus se apresentou a seus olhos maior e mais pura que toda e qualquer imagem simbólica e dogmática, e que a criação universal, misteriosa filha
do mesmo pensamento, lhe surgiu mais ampla e mais bela.

O Universo desdobra-se na sua realidade, como a manifestação de uma ideia una, de um plano único e de uma só vontade. Possa este quadro da vida eterna da natureza de Deus afastar o leitor dos erros grosseiros que o materialismo espalha por toda parte, robustecendo-lhe o intelecto no culto puro da Verdade. Possam os nossos espíritos se compenetrarem, cada vez mais, do Belo manifestado na Natureza e santificarem-se no Bem, com o apreciarem mais completamente a unidade da obra divina, fazendo uma ideia mais justa do nosso destino espiritual, conhecendo a nossa categoria na Terra em relação ao conjunto dos mundos e sabendo, finalmente, que a nossa grandeza está em nos elevarmos constantemente na posse e pela posse dos bens imperecíveis, que são apanágio da inteligência.

* * *

Uma tarde de verão, deixara eu as flóreas vertentes de Sainte-Adresse, deliciosa vila litorânea recortada em colinas, para galgar as grimpas do cabo Heve, que ao poente lhe demoram. Quando, de sua base contemplamos os cabeços desses penhascos, acreditamos estar vendo colossos de granito avermelhados pelo sol, quais gigantes imóveis que assistissem, petrificados, aos bramidos do oceano que vem morrer a seus pés. No seu isolamento, esses maciços enormes e inacessíveis pelo lado do mar parecem talhados para dominar o soberbo panorama. A seu lado, fronteando o oceano, o homem sente-se tão insignificante que acaba perdendo de vista a própria existência e confundindo-se com a vida abstrata, que paira acima dos bramidos oceânicos.

Sempre a subir, cheguei ao plano superior, onde ficam os semáforos que avisam, longe, aos navios o movimento horário das vagas costeiras, onde os faróis se acendem à boca da noite, quais estrelas permanentes na amplidão das trevas. O Sol, glorioso, ainda se pendurava rubro das nuvens incendidas, posto que já oculto para o Havre e para as planuras que bordam o estuário do Sena. Ao alto, o céu azul me coroava com a sua pureza. Em baixo, a mata, fervilhante de insetos, exalava em ondas o seu perfume. Caminhei até à escarpa, ao fundo da qual se mostram os abismos. Do cairel da rocha em vertical, o olhar domina a imensidão dos mares, desdobrados à esquerda, de sueste a nordeste. Mergulhando-o perpendicularmente, ele se perde na profundeza de massas verdes, rochedos e brenhas escuras – tapete rústico estendido a trezentos pés abaixo dos contrafortes dessa muralha. O gemido das vagas mal nos chega nestas alturas, nosso ouvido apenas percebe um rumor uniforme, que o vento gradua de intensidade. É um silêncio que canta, longe do mar.

– A Natureza estava atenta ao derradeiro adeus, que o príncipe da luz enviava ao mundo, antes que descesse do seu trono para sumir-se no horizonte líquido. Calma e concentrada, ela assistia à prece universal dos seres, pois que eles a fazem – a santa prece do reconhecimento – ao receberem os últimos olhares do Sol. E todos, desde a flébil e solitária medusa e a estrela-do-mar policroma, até os gafanhotos saltitantes e os alcíones de neve; todos lhe agradecem piedosamente. Era, então, um como incenso a subir das vagas e dos montes, parecendo que os ruídos temperados da plaga, a brisa que soprava do continente, a atmosfera embalsamada, a luz palescente na serenidade do céu azul, o refrigério crepuscular e tudo o mais vinha, naquele sítio, consciência de vida, comungando contrita e amorosamente da adoração universal.

Mentalmente, nesse holocausto da Terra, eu sentia as recíprocas atrações dos mundos; não apenas as que alternativamente afastam e aproximam nosso orbe do foco solar, como as de todos os astros que gravitam na imensidão dos céus. Acima de minha cabeça desdobravam-se as sublimes harmonias e as gigantescas translações dos corpos celestes! A Terra era qual átomo flutuante no infinito! Deste átomo, porém, a todos os sóis do espaço, àqueles cuja luz leva milhões de anos para chegar até nós, aos que jazem desconhecidos para além da nossa visibilidade, eu sentia um laço invisível abrangendo, num só halo vivificante, todos os universos e todas as almas. E a prece celestial, grandiosa, imensurável, tinha a sua repercussão, a sua estrofe, a sua representação visível naquela vida terrena que palpitava em torno de mim, no rugido do mar, no perfume das selvas, no canto das aves, na melodia confusa dos insetos, no conjunto emocionante do cenário e, sobretudo, na luminosa tonalidade daquele extraordinário crepúsculo!

Fitava-o embevecido, sim... mas sentia-me tão pequeno no meio de tantas graças e grandezas, que acabei por entristecer-me. Senti como que esvanecer-se a minha personalidade diante da imensidade da Natureza. Não me tardou a impressão de já não poder falar, nem pensar.

– O vasto mar fugia para o infinito. – Eu não mais existia, meus olhos se velavam... E, como as faces se me inundavam de pranto, sem que me pudesse explicar porque chorava, ajoelhei-me e, prosternado ante o céu, confundi minha fronte com as ervas... – o mar fugia sempre e os seres continuavam em prece.

E o Sol, fonte dessa luz e dessa vida, espiou uma última vez lá da faixa marinha do horizonte, como que satisfeito com aquela homenagem que nem um ser ousara recusar-lhe... E assim, contente da jornada, mergulhou orgulhoso no hemisfério de outros povos.

Fez, então, grande silêncio em toda a Natureza. Nuvens de ouro e púrpura evolaram-se às paragens reais e ocultaram os últimos timbres avermelhados. A sombra descia do alto. As ondas adormeceram, porque o vento abrandara. Os pequeninos seres alados adormeceram também e Vésper, núncia da noite, começou a luciluzir no éter.

“Ó misterioso Incógnito! – exclamei – grande, imenso Ser, que somos nós, pois? Supremo autor da harmonia, quem és tu, se tão grandiosa é a tua obra? Pobres mitos humanos os que supõem conhecer-te – ó Deus! Átomos, nada mais que átomos, como somos ínfimos! E como tu és grande! Quem, pois, ousou nomear-te pela primeira vez?

“Que orgulhoso insensato pretendeu definir-te, ó Deus! – ó meu Deus, todo poder e ternura, imensidade sublime e inconcebível!”

“E, como qualificar os que vos têm negado, que em vós não crêem, que vivem fora do vosso pensamento e jamais sentiram vossa presença – ó Pai da Natureza!”

“Amo-te! amo-te! Causa suprema e desconhecida, Ser que palavra alguma pode traduzir, eu vos amo, divino Princípio! mas... sou tão pequenino, que não sei se me ouvireis, se me entendereis.”

Como estes pensamentos se precipitavam fora de mim, para fundirem-se na afirmação grandiosa de toda a Natureza, as nuvens se esgarçaram no poente e a radiação áurea das regiões iluminadas inundou a montanha.

“Sim! tu me ouves, ó Criador! tu que dás a beleza e o perfume à florinha silvestre! A voz do oceano não abafa a minha voz e meu pensamento a ti se eleva, ó Deus! com a prece coletiva.”

Do todo do Cabo, minha vista se estendia ao Sul como ao Ocidente, na planície como sobre o mar. Voltando-me, lobriguei as cidades humanas, meio adormecidas nas plagas. No Havre as ruas comerciais se iluminavam e além, na margem oposta, Trouville acendia o seu parque de diversões.

E enquanto a Natureza se mostrava reconhecida ao seu Autor com o saudar a missão de um dos seus astros fiéis; enquanto todos os seres lhe enviavam suas preces e o rugido dos mares misturava-se ao vento, em ação de graças ao termo de um belo dia; enquanto a obra criada, unânime e recolhida, se oferecera ao Criador, a criatura imortal e responsável – ser privilegiado da Criação, expoente do pensamento – o Homem, vivia à margem, indiferente a tantos esplendores, sem olhos de ver nem ouvidos de ouvir, parecendo ignorar essa harmonia universal, em cujo seio deveria encontrar a sua felicidade e a sua glória.


FLAMMARION, C. Quinta Parte: Deus. In: Deus na Natureza, cap. 5