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Este é um ambiente dedicado ao estudo da consciência em seus mais variados estágios de evolução e, principalmente, no estágio em que adquirimos a possibilidade de nos manifestar na forma humana. Por isso, decidimos dedicar nossa atual reencarnação para aprofundarmos o nosso autoconhecimento e ajudarmos outros irmãos que também necessitam de esclarecimento, e assim nos tornarmos cada vez mais conscientes de nós mesmos, de nossa bagagem evolutiva, adquirindo mais conhecimentos e experiências através dos quais possamos construir as “sinapses” capazes de nos “revelar” novas realidades, ou melhor, de nos revelar a verdadeira realidade, abandonando as ilusões a que estamos fixados por tanto tempo.
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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Alquimia da Mente, Hermínio Correia de Miranda, Capítulo V - Consciente e Inconsciente - O Inconsciente, Território de Nossas Ignorâncias

ALQUIMIA DA MENTE

CAPÍTULO V - CONSCIENTE E INCONSCIENTE

O INCONSCIENTE, TERRITÓRIO DE NOSSAS IGNORÂNCIAS

Cabe a Freud o mérito indiscutível de ter percebido, desde o início de sua carreira científica, a extraordinária importância do inconsciente. Em carta ao amigo Wilhelm Fliess, ele escreveu a frase que Ronald W. Clark selecionou para epígrafe do capítulo 7 - The Birth of Psychoanalysis de seu livro e que assim dizia: "Consideram-me um monomaníaco, mas tenho a distinta sensação de haver tocado um dos grandes segredos da natureza." Se algum reparo deve ser posto nessa observação é o de que talvez nem o próprio Freud desconfiasse, pelo menos àquela altura, de que o segredo era ainda maior do que ele supunha.

É precisamente no livro de Clark, pesquisador meticuloso e escritor de prestígio internacional, que vamos encontrar uma visão retrospectiva não apenas do conceito de inconsciente como de sua utilização naquilo que Freud batizaria de psicanálise, ou seja, uma técnica destinada a analisar minuciosamente o psiquismo das pessoas afetadas por distúrbios de comportamento.

Segundo Clark, quinze séculos antes de Freud, santo Agostinho, nas suas Confissões, discorria sobre um mecanismo que colocava a lembrança de episódios ocorridos fora do alcance da memória, mas que poderia, de repente, trazê-los de volta ao consciente como que vindos de "algum desconhecido reservatório" (p. 115).

Freud, por sua vez, comentou com seu amigo Theodor Reik o pioneirismo de Paracelso, que elaborou um modelo clínico que muito se pareceria com o da psicanálise, ao propor o fortalecimento do ego, a fim de levá-lo ao domínio dos impulsos instintivos que se manifestavam sob forma de neuroses. "Exatamente o que pensava ele sobre isso, não sei" - comentava Freud -, "mas não há dúvida quanto à correção do seu raciocínio."

Em Leibnitz surge a primeira noção do limem, que seria uma espécie de portal da percepção, ideia que mais tarde produziria a expressão subliminar para identificar a atuação do pensamento em uma faixa pouco abaixo do nível normal de consciência. O próximo avanço caberia a Johann Friedrich Herbart, que formulou aspectos da futura doutrina psicanalítica como a repressão e o princípio do prazer, ao mesmo tempo em que propunha um modelo segundo o qual as percepções conscientes mais fortes empurravam para além dos limites da consciência imaginados por Leibnitz as mais fracas. Mais para o final da década de 60, no século X I X , Wilhelm Griesinger priorizava o estudo do inconsciente sobre o do consciente, na formulação de sua maneira de ver a psiquiatria.

Entre os filósofos naturalistas do século X I X , Clark destaca Garth Wilkinson, que identifica como médico swedenborguiano, e que entendia a utilização do inconsciente apenas em explorações de natureza literária e religiosa. Enquanto isso, Carl Gustav Carus aproximava-se ainda mais da futura doutrina freudiana, escrevendo, na abertura de seu Psyche que "a chave do conhecimento sobre a natureza da vida consciente da alma encontra-se nos domínios do inconsciente" (p. 115). Certamente Freud riscaria do texto a palavra alma, que não frequentava o seu dicionário pessoal de convicto materialista, a despeito de trabalhar a vida inteira com os enigmas do psiquismo. É certo, porém, que Carus antecipava, em cerca de meio século, um dos pontos fundamentais da psicanálise.

O grande livro da época, no entanto, foi A Filosofia do Inconsciente, de Eduard von Hartmann, que, no dizer de Clark, "deu início à estratificação do subterrâneo da mente" tarefa que, em alguns aspectos, seria retomada por Carl G. Jung, quarenta anos após.

Ao que tudo indica, estava mesmo "no ar" a doutrina do inconsciente. O livro de Hartmann transcendeu os círculos especializados, para alcançar uma classe muito mais ampla de leitores interessados. A Filosofia do Inconsciente teve êxito fulminante. Em 1882 já estava com nove edições em alemão e uma tradução francesa. Dois anos depois foi vertida para o inglês. O inconsciente, no dizer de Lancelot Law Whyte (apud Clark, pág.115), deixara de ser tema para discussão entre os profissionais, para se tornar um debate social, embutido na moda, competindo entre os que desejavam exibir cultura, com a grande conversação em torno de Richard Wagner e sua música revolucionária.

A essa altura, portanto, alguns dos conceitos fundamentais da psicanálise já se esboçavam com certa nitidez. Faltava apenas quem os coordenasse e os pusesse a trabalhar no âmbito de um modelo clínico desenhado para o consultório. Freud seria o arauto da nova era que prenunciava um profundo mergulho nos porões e bastidores da mente. Nem por isso, contudo, seria fácil a tarefa do jovem médico austríaco. Pelo contrário. Debater emocionantes temas científicos em sociedade é diferente de introduzir ideias tão renovadoras no contexto sempre conservador da ciência, por mais que ela se abra à pesquisa do que ainda permanece ignorado. Não é sem razão que Freud se queixa de ser tido como um monomaniaco. Era apenas o começo. Obstinada resistência, mesmo entre alguns de seus discípulos, encontraria a sua teoria predileta do pansexualismo, mas também a observação de que a histeria não era privilégio das mulheres provocou apaixonadas reações, como temos visto.

Seja como for, os elementos formadores da psicanálise pareciam ocupar o circuito de muitas mentes bem dotadas da época. Clark cita mais um, Theodor Lipps, cujos textos Freud conheceu e que escreveu isto, em 1883:

"Afirmamos não apenas a existência dos processos inconscientes além dos conscientes; postulamos mais, que os processos inconscientes constituem a base dos conscientes e os acompanham."

Frederick W. Myers, que saudou com entusiasmo os primeiros escritos de Freud acerca da histeria, criaria a expressão ser subliminal como espécie de sinônimo para o termo inconsciente. Começava a desenhar-se a ideia de que inconsciente seria mais que outro nome para o lado oculto do ser, com as características de outro eu dentro do eu. Ideia, aliás, nada estranha às formulações teóricas e experimentais de Jung, do médico francês, dr. Gustave Geley, e de outros, como ainda teremos oportunidade de ver.

Por essa época, o conceito de inconsciente começava também a ser adotado pela literatura, fenômeno que se ampliaria mais tarde quando a terminologia freudiana passou a ser sinal de status para escritores e poetas, que a introduziam nos seus contos, romances, ensaios e poemas.

Clark lembra o escritor inglês Samuel Butler que considerava memória e hábito como transmissíveis inconscientemente de geração em geração. Posteriormente, em Unconscivus Memory, sustentou a tese de que a memória seria apenas mais uma das propriedades da matéria e que "cada átomo conservava a memória de certos antecedentes" (p. 116).

Embora a proposta de Butler possa acolher duas leituras diferentes e até opostas, vejo nela aspectos que merecem consideração especial. Se, com uma daquelas leituras, o escritor britânico parece alinhar-se com os materialistas convictos que entendem o pensamento como uma segregação do cérebro e, portanto, explicável em termos de fisiologia nervosa, com a outra ele estaria antecipando, num impulso de intuição, um conteúdo psíquico nas células, ou, no mínimo, "terminais" de um psiquismo cósmico generalizado. De minha parte, devo confessar minhas simpatias pela ideia, já que o psiquismo humano, como um todo, comanda a vastíssima comunidade celular, como regente de uma afinada orquestra. Parece-me difícil, senão impraticável, realizar essa proeza sem que alguma forma de psiquismo esteja presente em cada uma das células que vivem intensamente suas trocas e funções dentro do edifício biológico, recebendo ordens e expedindo sinais, em estreito e permanente intercâmbio com o "comando central". Convém lembrar que estamos falando da hipótese de existir uma faculdade mnemônica na célula, não de uma função consciente, o que faz enorme diferença. Os animais, por exemplo, dispõem de evidente função psíquica, embora inconsciente.

Lê-se, aliás, em A Evolução Anímica, do pensador francês Gabriel Delanne, a proposta de uma "memória orgânica", que ele caracteriza como "inconsciente fisiológico", em contraste com a "memória psíquica" (p. 136 e seg.). Trabalhando articuladamente, ambas inconscientes, teriam "um território comum da alma e do corpo". Juntas, seriam responsáveis pelo gerenciamento dos instintos.

Sem recorrer a casos extraordinários - escreve Delanne, à página 140 -, encontramos em nossos atos diuturnos séries complexas e bem determinadas, isto é, cujos começos e fins são fixos, e cujos meios, diferentes uns dos outros, se sucedem em ordem constante, como seja no subir ou descer uma escada, depois de um longo hábito. A memória psicológica ignora o número de degraus e a memória fisiológica conhece-o, à sua maneira, tanto quanto a divisão dos andares, a distribuição dos patamares e pormenores outros, de sorte a jamais se enganar.

Esse automatismo, aliás, tem sido reconhecido como fator de libertação, uma vez que libera os complexos mecanismos psíquicos para funções mais nobres. Por isso, Annie Besant condena enfaticamente, em seu estudo sobre o consciente, certos praticantes da ioga que, após longo e penoso treinamento, conseguem interferir no sistema, revertendo o automatismo de certas funções biológicas para trazê-las de volta ao controle consciente da vontade. É o caso, por exemplo, daqueles que modificam os batimentos cardíacos, o ritmo respiratório, o movimento peristáltico e outros procedimentos biológicos, automatizados a duras penas, no correr de um tempo cuja extensão mal podemos estimar.

Como vimos, Besant alinha-se entre os que identificam um claro componente psíquico na célula, como se pode ler mais de uma vez em A Study in Consciouness. Isto, por exemplo:

"É preciso lembrar que assim como o sistema solar constitui campo evolutivo para todas as consciências que o integram, há, dentro dele, áreas menores servindo como campos menores."

E acrescenta: "O homem é o microcosmos do universo e seu corpo serve de campo evolutivo para miríades de consciências menos evolvidas do que a sua própria" (p. 115).

E mais adiante, à página 119:

"Cada célula no corpo é composta de miríades de minúsculas vidas, cada uma delas com a sua consciência germinal."

Trata-se, no entender da autora, de uma consciência que começa, no seu poético dizer, a "madrugar", ou seja, a emitir seus primeiros tímidos clarões de um sol que ainda não surgiu na linha do horizonte. Essas diminutas partículas de consciência, que Besant caracteriza como "mónadas", provêm do "oceano de consciência" em que se contém o universo. É o que também entende Teilhard de Chardin, para o qual a vida constitui "imensa ramificação do psiquismo que se busca através das formas". Ou Bergson, que considera a vida manifestação do "élan vital", incumbido de "pensar a matéria".

A decifração dos persistentes enigmas que ainda bloqueiam o acesso ao melhor entendimento do ser humano tem de passar, necessariamente, pelo território do inconsciente. E lá que se ocultam muitas de nossas ignorâncias, dado que assim se chama aquilo que ainda não conhecemos.


MIRANDA, Hermínio Correia de, Consciente e Inconsciente: O inconsciente, território de nossas ignorâncias. In: Alquimia da Mente, cap. 5, ítem 2 e 5.