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sábado, 29 de dezembro de 2018

Filosofia Espírita, João Nunes Maia, Miramez (Espírito), Capítulo 45 - Princípio Inteligente

FILOSOFIA ESPÍRITA - VOLUME XII

CAPÍTULO 45 – PRINCÍPIO INTELIGENTE (0606/LE)

O princípio inteligente de que são dotados todos os animais é constituído, pela força do tempo, que preparou a forma animal para receber a vida mais aperfeiçoada, que é a alma e que vem de Deus, elaborada pelos impulsos do progresso, e canalizados pelos agentes mais próximos do Criador.

Esse princípio inteligente não entra no corpo do animal em formação, mecanicamente, no ato da concepção animal. Benfeitores espirituais estão dedicando seus esforços para esse trabalho espiritual em variados lugares onde, por vezes, o homem pela ganância do ouro, provoca mais nascimentos. E Deus consente que Seus anjos trabalhem dobrado para manter a vida acesa em todos os campos da Terra.

Essa luz que move todas as coisas é filha de Deus, que desce do Criador e vem se transformando de degrau a degrau, até se materializar; depois, vai subindo novamente, alcançando a espiritualização. Em vários viventes, onde se move o Espírito-grupo, essa alma ainda não se individualizou; ganha corpos e torna a voltar em corpos sucessivos quantas vezes forem necessárias, alcançando, assim, a sua personalidade. A "reencarnação" se processa em todos os reinos e em todas as coisas, pois é neste labor que o Espírito conquista a libertação espiritual.

Os agentes de Deus estão mais ligados aos homens, animais e coisas do que se pensa; tudo se move com as suas presenças, pela ordem do Soberano Senhor. A humanidade deve compreender e respeitar os valores espirituais, e enquanto isso não ocorrer, os homens lutarão com as agressões da própria natureza, e ela cobrará deles o desrespeito às leis naturais.

O desprendimento é a forma primeira a que se deve dedicar. Todo usurário acaba preso pelos seus pertences, sem desfrutar do que pensa ser útil à sua vida.

Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus. (Lucas, 12:21)

Os homens já despertos para as coisas espirituais devem entesourar os valores de vida eterna e serem ricos de moral, cultivando as virtudes todos os dias. Elas são sementes divinas, donde se entende que os seus frutos são alegria, amor e felicidade.

Tudo na vida se encadeia para a frente, começando em processo de agrupamento como uma massa divina, depois os elos vão se individualizando e tomando personalidade, buscando a razão; a inteligência surge e a liberdade cresce. Todos têm o mesmo direito de, algum dia, alcançar a luz própria.

O animal não foi feito para ser sempre animal; o princípio inteligente que o anima, no amanhã partirá para o reino humano, depois para o angélico e assim sucessivamente, até a plenitude da própria vida, onde o amor se faz dominar, e o coração se transforma em sol que alimenta a si mesmo, em todas as circunstâncias. Mas, mesmo assim, o comando central é de Deus, em toda a extensão do ninho cósmico.

A verdade é relativa para todos os seres; ela é revelada de acordo com a elevação das criaturas. Os homens que estagiam na Terra são ainda crianças, em se referindo aos mundos venturosos.

O princípio inteligente dos animais, por quantas vezes deixarem os corpos, passam por elaborações diferentes no mundo espiritual; para irem tomando posição cada vez mais enriquecida, de forma a ganhar qualidades ou despertar valores, até se apresentar nas primeiras reencarnações como ser humano. E daí, começa a vivenciar as suas vidas múltiplas, conquistando novos valores.

MAIA, J. N.; MIRAMEZ (Espírito). Filosofia Espírita. V. XII, cap. 45

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Filosofia Espírita, João Nunes Maia, Miramez (Espírito), Capítulo 29 - Instinto de Conservação

FILOSOFIA ESPÍRITA - VOLUME XII

CAPÍTULO 29 – INSTINTO DE CONSERVAÇÃO (0590/LE)

As árvores não têm um instinto de conservação como se opera nos animais, e mesmo nos homens; o "instinto" nelas é mais mecânico, no entanto, ele cresce no desenvolvimento das formas que, aos olhos humanos, é imperceptível.

Todos os reinos da natureza buscam o mais alto. Em toda a extensão do universo se nota essa força poderosa que a tudo arrasta, que a tudo comanda. O pensamento de Deus programa toda a vida no fluido cósmico, ou seja, no hálito divino, que se renova na sua circulação universal, em tudo penetrando, assegurando assim o bem-estar, a harmonia em todas as coisas. Essa programação de vida é assimilada por tudo o que existe, e essa assimilação é de acordo com o crescimento de quem respira. Do átomo até ao homem, e deste até aos anjos, a bênção é para todos, porém, cada um recebe o que precisa receber. Essa é a justiça, o amor.

Se queres pensar que as árvores têm instinto de conservação, podes pensá-lo; no entanto, deves observar que isso ocorre em dimensão diferente dos animais. Em tudo penetra a inteligência divina, comandando todos os elementos nos seus devidos lugares, para que haja ordem nas formas. Observa a química: quando os corpos se repelem ou se atraem, é o mecanismo da vida que se expande em todas as direções. Daí é que se parte para o crescimento em busca do que o homem possui e os anjos conquistaram. É nesse sentido que devemos respeitar tudo o que nos cerca, por ter saído do mesmo foco que nós outros.

O amor é tão grande, que tudo que existe e a que nos dedicamos, nos responde com o amor, nos responde com perfeita troca de elementos sutis à percepção comum. O amor é a semente divina que devemos semear, porque a colheita não pode ser, por justiça, a mesma de quem não se preocupou em plantar. Se os minerais, plantas e animais estão na nossa retaguarda, porque não ajudar esses reinos a subir a escada que já palmilhamos, se os que estão em nossa frente estão sempre nos dando as mãos? Se Deus é amor, o nosso dever é amar a Ele sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, para que a vida se expresse como luz nos nossos caminhos.

Cada planta é um laboratório divino, na divina seara do Senhor. Ela sabe selecionar os elementos que lhe possam sustentar a vida. Um pé de laranja não dá abacaxi, mesmo que estiverem juntos no mesmo campo e irrigados com a mesma água, soprados pelo mesmo ar e adubados pelo mesmo adubo. É o mecanismo do seu mundo oculto, é o comando de Deus pelos Seus recursos espirituais. Os agentes da vida maior estão espalhados em toda a criação, e eles entendem como se deve fazer e comandar, em nome do Criador, em se falando no crescimento das coisas. São poucos, mas esses tiraram a nota máxima na universidade da Terra, usando um corpo físico. A missão não é somente no mundo religioso, o mesmo ocorre com diversos trabalhos artísticos, e muitas descobertas científicas. Os missionários são diversos no mundo inteiro, operando em fatores diferentes, para ajudar ao progresso e sustentar, de certa forma, a existência de Deus e a presença dos Seus agentes de luz, nos caminhos dos homens.

MAIA, J. N.; MIRAMEZ (Espírito). Filosofia Espírita. V. XII, cap. 29

domingo, 16 de dezembro de 2018

Filosofia Espírita, João Nunes Maia, Miramez (Espírito), Capítulo 28 - A Divina Unidade

FILOSOFIA ESPÍRITA - VOLUME II

CAPÍTULO 28 – A DIVINA UNIDADE (0079/LE)

Deus é a Unidade Suprema. A sua vida é um mistério escondido nas dobras da eternidade, de modo que os espíritos, seus filhos, passam a compreender algumas das suas nuances, pelo processo de despertamento dos dons recebidos da grande fonte, desde a sua formação. Buscando a profundidade das coisas, vibrando no seio da divindade, Ela, em Deus, é una quando sai de seu campo de força, se podemos empregar este termo; a partir daí, se divide pelas condições do próprio ambiente, compreendendo que, no fundo, é a mesma essência, porém, tomando expressões variadas, com objetivos inúmeros, obediente ao comando da Suprema Inteligência. Quem pode dizer ou afirmar a quantidade de divisões da essência unificada no Criador? Ninguém sabe, pois as expressões desse fluído são incontáveis. Nele pulsa a vida na Terra e em todos os mundos, no espaço chamado vazio e em todas as dimensões espirituais, em um cinetismo indescritível.

Essa matéria primitiva, ou energia cósmica, como a queiramos chamar, desprendida da lúcida mente do Senhor, é o agente que atende a todos os reclamos da vida, que faz perceber toda a casa universal, como se estivesse presente em toda a parte. O homem na Terra pode deduzir essas transmutações, pelo que é feito e observado nos próprios laboratórios através das mudanças dos elementos, sendo a forja divina o próprio tempo; a lavoura e a pecuária nos dão uma ideia, e mesmo a vida humana nos fornece campo para essas deduções.

Existe uma escala periódica dos elementos que compõe as coisas, os elementos atômicos. Diminuídos ou acrescentados, muda-se a estrutura da matéria e, as vezes, a sua forma. Somente a matéria primitiva, certamente quem a criou, são imutáveis e escapam todas as pesquisas humanas e mesmo espirituais em nosso reino, ou por assim dizer, na faixa de vida em que vivemos.

Todos os estudiosos buscam com interesse a genealogia do espírito, de onde ele veio e para onde vai, na ância de saber o seu próprio destino. Até certo ponto não tiramos a razão deles, no entanto, é imperioso que reconheçamos que essa marcha é vagarosa. É uma subida lenta, a do saber, e deve obedecer, por lei, à evolução de cada criatura.

Certamente que o espírito nasceu da mesma fonte de onde saíram todas as coisas, porque tudo que sai de Deus é divino, com qualidades sublimadas a serem despertadas, e o tempo é o processo desse crescer. Se notarmos os feitos dos grandes homens, o seu amor por todas as coisas sem distinção, dá para entendermos que somos todos irmãos, pela unidade universal de toda a criação. Cada um e cada coisa vive em dimensão diferente, entretanto, carregam no centro da vida o próprio Criador, de maneira a ouvi-lo e senti-lo na sua vontade poderosa e santa. Tanto elemento material, como afirma O Livro dos Espíritos, como elemento inteligente do universo saíram do hálito divino e estão em processo de despertamento, pois tudo e todos somos filhos da Unidade Divina.

MAIA, J. N.; MIRAMEZ (Espírito). Filosofia Espírita. V. II, cap. 28

Nos Domínios da Mediunidade, Chico Xavier, André Luiz (Espírito), Capítulo 17 - Serviço de Passes

NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE

CAPÍTULO 17 – SERVIÇO DE PASSES

Atravessamos a porta e fomos defrontados por ambiente balsâmico e luminoso.

Um cavalheiro maduro e uma senhora respeitável recolhiam apontamentos em pequeno livro de notas, ladeados por entidades evidentemente vinculadas aos serviços de cura.

Indicando os dois médiuns, o Assistente informou:

– São os nossos irmãos Clara e Henrique, em tarefa de assistência, orientados pelos amigos que os dirigem.

– Como compreender a atmosfera radiante em que nos banhamos? – aventurou Hilário, curioso.

– Nesta sala – explicou Áulus, amigavelmente – se reúnem sublimadas emanações mentais da maioria de quantos se valem do socorro magnético, tomados de amor e confiança. Aqui possuímos uma espécie de altar interior, formado pelos pensamentos, preces e aspirações de quantos nos procuram trazendo o melhor de si mesmos.

Não dispúnhamos, todavia, de muito tempo para a conversação isolada.

Clara e Henrique, agora em prece, nimbavam-se de luz.

Dir-se-ia estavam quase desligados do corpo denso, porque se mostravam espiritualmente mais livres, em pleno contacto com os benfeitores presentes, embora por si mesmos não no pudessem avaliar.

Calmos e seguros, pareciam haurir forças revigorantes na intimidade de suas almas. Guardavam a ideia de que a oração lhes mantinha o espírito em comunicação com invisível e profundo manancial de energia silenciosa.

Ante a porta ainda cerrada, acotovelavam-se pessoas aflitas e bulhentas, esperando o término da preparação a que se confiavam.

Os dois médiuns, porém, afiguravam-se-nos espiritualmente distantes.

Absortos, em companhia das entidades irmãs, registravam-lhes as instruções, através dos recursos intuitivos.

Pelas irradiações da personalidade magnética de Henrique, reconhecia-se-lhe, de imediato, a superioridade sobre a companheira. Era ele, dentre os dois, o ponto dominante.

Por isso, decerto, ao seu lado se achava o orientador espiritual mais categorizado para a tarefa.

Áulus abraçou-o e no-lo apresentou, gentil.

O irmão Conrado, nosso novo amigo, enlaçou-nos acolhedor.

Anunciou que o serviço estaria à nossa disposição para os apontamentos que desejássemos.

E o nosso instrutor, colocando-nos à vontade, autorizou-nos dirigir a Conrado qualquer indagação que nos ocorresse.

Hilário, que nunca sopitava a própria espontaneidade, começou, como de hábito, a inquirição, perguntando respeitosamente:

– O amigo permanece frequentemente aqui?

– Sim, tomamos sob nossa responsabilidade os serviços assistenciais da instituição, em favor dos doentes, duas noites por semana.

– Dos enfermos tão-somente encarnados?

– Não é bem assim. Atendemos aos necessitados de qualquer procedência.

– Conta com muitos cooperadores?

– Integramos um quadro de auxiliares, de acordo com a organização estabelecida pelos mentores da Esfera Superior.

– Quer dizer que, numa casa como esta, há colaboradores espirituais devidamente fichados, assim como ocorre a médicos e enfermeiros num hospital terrestre comum?

– Perfeitamente. Tanto entre os homens como entre nós, que ainda nos achamos longe da perfeição espiritual, o êxito do trabalho reclama experiência, horário, segurança e responsabilidade do servidor fiel aos compromissos assumidos. A Lei não pode menosprezar as linhas da lógica.

– E os médiuns? são invariavelmente os mesmos?

– Sim, contudo, em casos de impedimento justo, podem ser substituídos, embora nessas circunstâncias se verifiquem, inevitavelmente, pequenos prejuízos resultantes de natural desajuste.

Meu colega passeou o olhar inquieto pelos dois companheiros encarnados, em oração, e continuou:

– Preparam-se nossos amigos, à frente do trabalho, com o auxílio da prece?

– Sem dúvida. A oração é prodigioso banho de forças, tal a vigorosa corrente mental que atrai. Por ela, Clara e Henrique expulsam do próprio mundo interior os sombrios remanescentes da atividade comum que trazem do círculo diário de luta e sorvem do nosso plano as substâncias renovadoras de que se repletam, a fim de conseguirem operar com eficiência, a favor do próximo. Desse modo, ajudam e acabam por ser firmemente ajudados.

– Isso significa que não precisam recear a sua exaustão...

– De modo algum. Tanto quanto nós, não comparecem aqui com a pretensão de serem os senhores do benefício, mas sim na condição de beneficiários que recebem para dar. A oração, com o reconhecimento de nossa desvalia, coloca-nos na posição de simples elos de uma cadeia de socorro, cuja orientação reside no Alto. Somos nós aqui, neste recinto consagrado à missão evangélica, sob a inspiração de Jesus, algo semelhante à singela tomada elétrica, dando passagem à força que não nos pertence e que servirá na produção de energia e luz.

A explicação não podia ser mais clara.

E enquanto Hilário sorria satisfeito, Conrado afagou os ombros de Henrique, como a recordar-lhe o horário estabelecido, e o médium, apesar de não lhe assinalar o gesto no campo das sensações físicas, obedeceu, de pronto, encaminhando-se para a porta e descerrando-a aos sofredores.

Pequena multidão de encarnados e desencarnados aglomerou-se à entrada, todavia, companheiros da casa controlavam-lhes os movimentos.

Conrado entregou-se ao trabalho que lhe competia e, em razão disso, tornamos à intimidade do Assistente.

Ambos os médiuns atacaram a tarefa.

Enfermos de variada expressão entravam esperançosos e retiravam-se, depois de atendidos, com evidentes sinais de reconforto. Das mãos de Clara e Henrique irradiavam-se luminosas chispas, comunicando-lhes vigor e refazimento.

Na maioria dos casos, não precisavam tocar o corpo dos pacientes, de modo direto. Os recursos magnéticos, aplicados a reduzida distância, penetravam assim mesmo o “halo vital” ou a aura dos doentes, provocando modificações subitâneas.

Os passistas afiguravam-se-nos como duas pilhas humanas deitando raios de espécie múltipla, a lhes fluírem das mãos, depois de lhes percorrerem a cabeça, ao contacto do irmão Conrado e de seus colaboradores.

O quadro era efetivamente fascinador pelos jogos de luz que apresentava.

Hilário sondou o ambiente e, em seguida, indagou de nosso orientador:

– Por que motivo a energia transmitida pelos amigos espirituais circula primeiramente na cabeça dos médiuns?

– Ainda aqui – disse Áulus –, não podemos subestimar a importância da mente. O pensamento influi de maneira decisiva, na doação de princípios curadores. Sem a ideia iluminada pela fé e pela boa-vontade, o médium não conseguiria ligação com os Espíritos amigos que atuam sobre essas bases.

– Entretanto – ponderei –, há pessoas tão bem dotadas de força magnética perfeitamente despreocupadas do elemento moral!...

– Sim – redarguiu o Assistente –, refere-se você aos hipnotizadores comuns, muita vez portadores de energia excepcional. Fazem belas demonstrações, impressionam, convencem, contudo, movimentam-se na esfera de puro fenômeno, sem aplicações edificantes no campo da espiritualidade. É imperioso não esquecer, André, que o potencial magnético é peculiar a todos, com expressões que se graduam ao infinito.

– Mas semelhantes profissionais podem igualmente curar! – frisou meu companheiro, completando-me as observações.

– Sim, podem curar, mas acidentalmente, quando o enfermo é credor de assistência espiritual imediata, com a intervenção de amigos que o favorecem. Fora disso, os que abusam dessa fonte de energia, explorando-a ao seu bel-prazer, quase sempre resvalam para a desmoralização de si mesmos, porque interferindo num campo de forças que lhes é desconhecido, guiados tão-somente pela vaidade ou pela ambição inferior, fatalmente encontram entidades que com eles se afinam, precipitando-se em difíceis situações que não vêm à baila comentar. Se não possuem um caráter elevado, suscetível de opor um dique à influenciação viciosa, acabam vampirizados por energias mais acentuadas que as deles, porquanto, se considerarmos o assunto apenas sob o ponto de vista da força, somos constrangidos a reconhecer que há imenso número de vigorosos hipnotizadores espirituais, nas linhas atormentadas da ignorância e da crueldade, de onde se originam os mais aflitivos processos de obsessão.

E, sorrindo, acrescentou:

– Recordemos a Natureza. A serpente é um dos maiores detentores de poder hipnótico.

– Então – disse Hilário –, para curar, serão indispensáveis certas atitudes do espírito...

– Indiscutivelmente não prescindimos do coração nobre e da mente pura, no exercício do amor, da humildade e da fé viva, para que os raios do poder divino encontrem acesso e passagem por nós, a benefício dos outros. Para a sustentação de um serviço metódico de cura, isso é indispensável.

– Entretanto, para o esforço desse tipo precisaremos de pessoas escolhidas, com a obrigação de efetuarem estudos especiais? 

– Importa ponderar – disse Áulus, convicto – que em qualquer setor de trabalho a ausência de estudo significa estagnação. Esse ou aquele cooperador que desistam de aprender, incorporando novos conhecimentos, condenam-se fatalmente às atividades de subnível, todavia, em se tratando do socorro magnético, tal qual é administrado aqui, convém lembrar que a tarefa é de solidariedade pura, com ardente desejo de ajudar, sob a invocação da prece. E toda oração, filha da sinceridade e do dever bem cumprido, com respeitabilidade moral e limpeza de sentimentos, permanece tocada de incomensurável poder. Analisada a questão nestes termos, todas as pessoas dignas e fervorosas, com o auxílio da prece, podem conquistar a simpatia de veneráveis magnetizadores do Plano Espiritual, que passam, assim, a mobilizá-las na extensão do bem. Não nos achamos à frente do hipnotismo espetacular, mas sim num gabinete de cura, em que os médiuns transmitem os benefícios que recolhem, sem a presunção de doá-los de si mesmos. É importante não esquecer essa verdade para deixarmos bem claro que, onde surjam a humildade e o amor, o amparo divino é seguro e imediato.

O ministério da cura, porém, a desdobrar-se eficiente e pacífico, reclamava-nos atenção.

Os doentes entravam dois a dois, sendo carinhosamente atendidos por Clara e Henrique, sob a providencial assistência de Conrado e seus colaboradores.

Obsidiados ganhavam ingresso no recinto, acompanhados de frios verdugos, no entanto, com o toque dos médiuns sobre a região cortical, depressa se desligavam, postando-se, porém, nas vizinhanças, como que à espera das vítimas, com a maioria das quais se reacomodavam, de pronto. Alinhando apontamentos, começamos a reparar que alguns enfermos não alcançavam a mais leve melhoria.

As irradiações magnéticas não lhes penetravam o veículo orgânico.

Registrando o fenômeno, a pergunta de Hilário não se fez esperar.

– Por quê?

– Falta-lhes o estado de confiança – esclareceu o orientador.

– Será, então, indispensável a fé para que registrem o socorro de que necessitam?

– Ah! sim. Em fotografia precisamos da chapa impressionável para deter a imagem, tanto quanto em eletricidade carecemos do fio sensível para a transmissão da luz. No terreno das vantagens espirituais, é imprescindível que o candidato apresente uma certa “tensão favorável”. Essa tensão decorre da fé. Certo, não nos reportamos ao fanatismo religioso ou à cegueira da ignorância, mas sim à atitude de segurança íntima, com reverência e submissão, diante das Leis Divinas, em cuja sabedoria e amor procuramos arrimo. Sem recolhimento e respeito na receptividade, não conseguimos fixar os recursos imponderáveis que funcionam em nosso favor, porque o escárnio e a dureza de coração podem ser comparados a espessas camadas do gelo sobre o templo da alma.

A lição fora simples e bela.

Hilário calou-se, talvez para refletir sobre ela, em silêncio.

Sem descurar dos nossos objetivos de estudo, Áulus considerou a conveniência de nosso contacto direto com o serviço em ação. Seria interessante para nós a auscultação de algum dos casos em foco.

Para isso, aproximou-se de idosa matrona que acabava de entrar, à cata de auxilio e, com permissão de Conrado, convidou-nos a examiná-la com cuidado possível.

A senhora, aguardando o concurso de Clara, sustentava-se dificilmente de pé, com o ventre volumoso e o semblante dolorido.

– Observem o fígado!

Utilizamo-nos dos recursos ao nosso alcance passamos a analisar.

Realmente, o órgão mencionado demonstrava a dilatação característica das pessoas que sofrem de insuficiência cardíaca. As células hepáticas pareceram-me vasta colmeia, trabalhando sob enorme perturbação. A vesícula congestionada impeliu-me a imediata inspeção do intestino. A bile comprimida atingira os vasos e assaltava o sangue. O colédoco interdito facilitava o diagnóstico. Ligeiro exame da conjuntiva ocular confirmava-me a impressão.

A icterícia mostrava-se insofismável.

Após ouvir-me, Conrado reafirmou:

– Sim, é uma icterícia complicada. Nasceu de terrível acesso de cólera, em que nossa amiga se envolveu no reduto doméstico. Rendendo-se, desarvorada, à irritação, adquiriu renitente hepatite, da qual a icterícia é a consequência.

– E como será socorrida?

Conrado, impondo a destra sobre a fronte da médium, comunicou-lhe radiosa corrente de forças e inspirou-a a movimentar as mãos sobre a doente, desde a cabeça até o fígado enfermo.

Notamos que o córtex encefálico se revestiu de substância luminosa que, descendo em fios tenuíssimos, alcançou o campo visceral.

A senhora exibiu inequívoca expressão de alívio, na expressão fisionômica, retirando-se visivelmente satisfeita, depois de prometer que voltaria ao tratamento.

Hilário fixou os olhos interrogadores no Assistente que nos acompanhava, solícito, e indagou:

– Nossa irmã estará curada?

– Isso é impossível – acentuou Áulus, paternal –; temos aí órgãos e vasos comprometidos. O tempo não pode ser desprezado na solução.

– E em que bases se articula semelhante processo de curar?

– O passe é uma transfusão de energias, alterando o campo celular. Vocês sabem que na própria ciência humana de hoje o átomo não é mais o tijolo indivisível da matéria... que, antes dele, encontram-se as linhas de força, aglutinando os princípios subatômicos, e que, antes desses princípios, surge a vida mental determinante... Tudo é espírito no santuário da Natureza. Renovemos o pensamento e tudo se modificará conosco. Na assistência magnética, os recursos espirituais se entrosam entre a emissão e a recepção, ajudando a criatura necessitada para que ela ajude a si mesma. A mente reanimada reergue as vidas microscópicas que a servem, no templo do corpo, edificando valiosas reconstruções. O passe, como reconhecemos, é importante contribuição para quem saiba recebê-lo, com o respeito e a confiança que o valorizam.

– E pode, acaso, ser dispensado a distância?

– Sim, desde que haja sintonia entre aquele que o administra e aquele que o recebe. Nesse caso, diversos companheiros espirituais se ajustam no trabalho do auxílio, favorecendo a realização, e a prece silenciosa será o melhor veículo da força curadora.

O serviço, em torno, prosseguia intenso.

Áulus considerou que a nossa presença talvez sobrecarregasse as preocupações de Conrado, e que não seria lícito permanecer junto dele por mais tempo, já que havíamos recolhido os apontamentos rápidos que nos propúnhamos obter e, à vista disso, despedimo-nos do supervisor, buscando o salão central para a continuidade de nossas abençoadas lições.

XAVIER, F. C.; ANDRÉ LUIZ (Espírito). Serviço de Passes. In: Nos Domínios da Mediunidade, cap. 17