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Este é um ambiente dedicado ao estudo da consciência em seus mais variados estágios de evolução e, principalmente, no estágio em que adquirimos a possibilidade de nos manifestar na forma humana. Por isso, decidimos dedicar nossa atual reencarnação para aprofundarmos o nosso autoconhecimento e ajudarmos outros irmãos que também necessitam de esclarecimento, e assim nos tornarmos cada vez mais conscientes de nós mesmos, de nossa bagagem evolutiva, adquirindo mais conhecimentos e experiências através dos quais possamos construir as “sinapses” capazes de nos “revelar” novas realidades, ou melhor, de nos revelar a verdadeira realidade, abandonando as ilusões a que estamos fixados por tanto tempo.
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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Em Busca da Verdade, Divaldo P. Franco, Joanna de Ângelis (Espírito), Capítulo 6 - O Ser Humano em Crise Existencial, O Ser Humano Pleno

EM BUSCA DA VERDADE

CAPÍTULO 6 - O SER HUMANO EM CRISE EXISTENCIAL

AS CONQUISTAS EXTERNAS
A GRANDE CRISE EXISTENCIAL
O SER HUMANO PLENO

As incomparáveis conquistas nas diversas áreas do conhecimento e do pensamento contemporâneo trouxeram bênçãos incontáveis para a vida em todas as suas expressões na Terra.

Os avanços da sociologia, por exemplo, ampliaram os horizontes da fraternidade, dos direitos humanos, ainda não respeitados conforme foram propostos, demonstrando a excelência da comunhão espiritual entre as criaturas.

Lamentavelmente, porém, as duas grandes guerras perversas que assinalaram o século XX, cujos efeitos dolorosos a sociedade atual ainda experimenta, facultaram demonstrações de primitivismo e de atraso moral das criaturas humanas, que parecem haver regredido em determinados segmentos ao período primevo da evolução, tal a crueldade que as caracterizou.

Um dos momentos excruciantes foi aquele que assinalou a explosão atômica sobre a cidade de Hiroshima, no Japão, no dia 6 de agosto de 1945, tornando-se a fronteira do passado em relação ao presente-futuro, com o surgimento do período denominado como pós-industrial ou pós-modernidade, conforme conceitos exarados muitos especialmente por Emile Durkhein, o filósofo francês da educação.

Essa fase, que se torna cada vez mais perturbadora nas mentes e nos comportamentos, responde pela perda emocional de valores de alto porte, que vêm reduzindo o ser humano à condição robótica.

De um lado, a evolução da ciência e da tecnologia, e do outro, o isolamento em relação ao grupo social, as mudanças drásticas a respeito da vida e do seu significado, diante dos mentirosos padrões elegidos como ideais para o bem-estar e a felicidade.

A extraordinária contribuição virtual facilitou a comunicação, a tomada de conhecimento de ocorrências on line, no mesmo momento em que vem acontecendo em toda a Terra, ao tempo que a soma de disparates e de estímulos à violência, ao ódio, ao racismo, ao crime, ao suicídio, às mudanças de conduta, aturde e domina internautas desavisados ou menos resistentes moralmente.

Relações amorosas suspeitas estabelecem-se, dando largas à fantasia e à ilusão, com a consequência de lares e de vidas que se estiolam através de personalidades psicopatas, destituídas de sentimento de elevação, que se utilizam do recurso para esconder-se, dando vazão às paixões soezes...

O culto ao corpo e ao prazer, o desvio das funções sexuais, a mentirosa vitória na telinha com os seus poucos e desvairados quinze minutos de fama, enlouquecem a juventude ansiosa e sem rumo, que busca o fácil através da venda ignóbil da inocência, antecipando as experiências humanas dolorosas no período juvenil, quando ainda não tem robustez para os enfrentamentos, fanando-lhes as esperanças de maneira insensível...

O tempo rápido, em razão da necessidade de a tudo participar, de estar a par das ocorrências, asfixiando a liberdade de pensamento e de movimentação, culmina em tormentosa ansiedade e frustração dolorosa, empurrando para o abismo da depressão ou da revolta as suas vítimas inermes.

A falta de comunicação verbal e escrita, de contato humano sem suspeição nem deslumbramento, facultando relacionamentos saudáveis, conduz as pessoas para os interesses egóicos sem nenhuma participação na convivência com os demais, como fruto espúrio dessa pós-modernidade doentia e sem significado psicológico.

Corpos belos trabalhados por excesso de musculação, sarados, e interiormente vazios de aspirações e de significado, dão lugar a condutas extravagantes, que elevam à glória equivocada e derrubam em ritmo acelerado aqueles que foram arrastados pelas fantasias dos seus apaniguados.

Com as exceções compreensíveis, vive-se o período no qual a sociedade encontra-se enlouquecida, buscando coisa nenhuma, em razão da transitoriedade das conquistas e do imediato vazio existencial, que envelhecem e envilecem com rapidez os seus adeptos apaixonados e embriagados pelo licor dos sentidos físicos...

As mudanças de humor contínuas e a debandada dos compromissos éticos, que dão sentido à vida, caracterizam com perfeição esta fase de incertezas.

Indiscutivelmente, o ser humano encontra-se em crise existencial.

A falta de identificação entre o ego e o Self produz a ausência de discernimento a respeito do existir e de como proceder, dando lugar à dominação da sombra ignorada em todos os comportamentos.

Por consequência, aumenta o número de infelizes e de infelicitadores com a sua patologia maldisfarçada.

Esta experiência individual e coletiva, no entanto, é indispensável ao amadurecimento e à evolução do ser humano, que se apartou de si mesmo, buscando fora a alegria que somente se encontra nele próprio. Ninguém pode proporcionar felicidade e bem-estar reais, porque essas emoções independem de circunstâncias externas, embora muitos pensem ao contrário. São sensações que se expressam como emoções e logo cedem lugar aos transtornos, às frustrações e amarguras quando o objeto ou pessoa propiciadora do prazer altera a sua conduta ou se desinteressa em continuar no que ora se lhe apresenta como tedioso.

Contribuindo de maneira habilmente proposital, a mídia cria ídolos e devora-os, a cada instante, exaltando o crime e os criminosos que se lhe tornam manchete contínua, exaurindo os clientes, especialmente através da televisão, nas repetições exorbitantes das cenas de horror, nos julgamentos arbitrários daqueles aos quais atribui a responsabilidade pela desgraça, no estímulo à justiça pelas próprias mãos, encorajando psicopatas adormecidos a se tornarem famosos pela utilização dos hórridos espetáculos exibidos...

O despudor agressivo que arrebata as multidões, especialmente acompanhando as cenas de deboche nos aplaudidos programas de degradação humana, para a conquista da fama pela imoralidade e do dinheiro pela perda da dignidade, favorece o surgimento de múmias morais, que são os seres destituídos de emoção e de sensibilidade que a tudo se submetem para atingir as metas estimuladas pelo mercado do sexo e da drogadição...

Naturalmente encontram-se incontáveis labores de elevação moral e dignificação da criatura humana, ainda insuficientes, no entanto, para conduzir a grande massa ao caminho do discernimento e da saúde real.

São esses nobres exemplos de fidelidade ao dever e de continuidade da ação edificante que contribuem para equilibrar a balança moral do planeta humano, com os braços distendidos para o socorro aos tombados, para a minimização do desespero dos fracassados, para a solidariedade junto aos abandonados pelo triunfo mentiroso.

Eles comprovam que o ser humano está fadado à ascensão e que o estágio inferior em que se compraz é transitório, por mais que dure, ensejando-lhe a experiência vivencial para a construção da sua individuação.

A conquista dessa individuação é como um parto. Todos os partos doem, mesmo aqueles denominados sem dor... Portanto, as dores íntimas e as faltas consideradas importantes, mas sem valor real, são o período de gestação para o parto da plenitude.

Inevitavelmente, o ser humano traz o mito do significado e mesmo incapaz de o identificar, momento chega em que a nuvem anestesiante do prazer desapareça ante o sol da realidade, ei-lo impulsionando para o avanço interno, a compreensão da mensagem do viver e do crescer psicologicamente.

As conquistas externas

O processo de evolução antropológica tem sido um extraordinário desafio da vida, produzindo mudanças nas formas e funções orgânicas, facultando o desenvolvimento das faculdades mentais até o momento em que alcançou a formidanda área da inteligência e dos sentimentos. Não é por outro motivo que o instinto, na sua inteireza, é já uma forma de inteligência embrionária, por criar os condicionamentos que, mais tarde, a razão irá ampliar até proporcionar a compreensão dos conceitos sutis e das abstrações...

Os impositivos para a sobrevivência desenvolveram os instintos agressivos que predominaram no ser humano por milênios e, quando ocorreu a conquista dos pródromos da razão e o seu estabelecimento no cerne do Espírito, aquelas heranças prosseguiram com forte domínio no comportamento. A libertação lenta do primarismo e a aspiração do belo e do nobre, o Geotropismo se vêm impondo, de forma que a consciência hoje pode administrar os impulsos violentos, orientando-os para as ações de edificação, sem traumas nem conflitos.

Nada obstante, o individualismo, esse filho dileto da conquista do materialismo, que se rebelou contra as imposições absurdas do religiosismo exterior, sem significados internos, expressa-se, na atualidade, como forma de uma incompleta autorrealização, impulsionando o indivíduo a ter, a destacar-se, a obter o que deseja de qualquer maneira, tornando-se consumista insaciável e inquieto.

Em face desse instalado pós-modernismo, à ciência atribuem-se valores e significados quase divinos, parecendo incorruptível e insuperável, ao tempo em que as referências pessoais nos relacionamentos que não se aprofundam, mantendo-se sempre na superficialidade, tornam as afeições descartáveis, como tudo quanto se compra na sede voraz de possuir.

Os afetos fazem-se ligeiros e amedrontados, oportunistas e descomprometidos, com medo, cada qual, de ser dominado pelo outro, evitando submeter-se, o que se caracteriza como pequenez, falta de personalidade, risco de perda, quando se estabelece a dependência...

A tremenda confusão entre afetividade e interesse sexual, entre amor e compensações sentimentais, é responsável pelo desinteresse da convivência fraternal saudável, destituída de interesses subalternos, deixando-se a sombra dominar todos os espaços do ego, ao tempo em que não se abrem as possibilidades psicológicas do Self para a realidade.

As artes, que sempre têm expressado o estágio evolutivo, político, comportamental da sociedade, nestes dias conturbados, são agressivas e destituídas, em muitas áreas, de propostas elevadas de beleza, expressando apenas os conflitos, as aspirações doentias, a revolta e o desânimo dos seus portadores. A música, por exemplo, descendo do pedestal das musas, enveredou pela contracultura, pelos desvãos da ironia, da perversão moral, do deboche, da agressividade, do duplo sentido com destaque para o pejorativo, como se o ser humano devesse sempre reagir, mesmo quando pode agir, se deixasse tombar no vale do desespero, quando poderia aspirar pela alegria real de viver, modificando o status quo e contribuindo para o mundo melhor, onde é possível a vida expressar-se em harmonia e grandeza.

Impossibilitados de conduzir os povos, por se haverem perdido nas malhas da burocracia e nos interesses partidários, os governantes da Terra, aturdidos, demonstram não saber o que fazer nem como realizá-lo. Permitem a desorientação das massas, a sua revolta contínua, por esquecimento das responsabilidades não cumpridas e que foram apresentadas nos seus programas eleitoreiros, enganando o povo desorientado.

Surgem, então, revoltas, revoluções, amolentamento do caráter e perda da moral, com reações em cadeia, cada vez mais violentas e ameaçadoras, porque os limites da ordem e do respeito foram superados pela não fronteira da rebeldia.

Os esportes, que sempre constituíram oportunidades excelentes para catarses coletivas, competições saudáveis, alegrias e entusiasmo coletivo, transformaram-se em fontes mafiosas de domínio e de conquistas financeiras, construindo deuses frágeis que logo tombam do pedestal, tornando-se campo de batalha pelas torcidas ferozes que se digladiam com frequência em sucessivos espetáculos deprimentes que culminam com a morte de alguns dos seus fanáticos...

O desrespeito pelos valores internos do ser humano propõe a significação das suas conquistas exteriores, tornando-o avaro e pretensioso.

A falta de concentração das pessoas nas questões importantes do ser interior tem contribuído para a futilidade em triunfo e o desconhecimento da própria realidade, supondo ser a existência esse enganoso passeio fantástico pelo país da pressa dourada, em que tudo é de efêmera duração, impedindo a reflexão e o encontro com a consciência, com o Si-mesmo. Essa sombra teimosa consegue separá-las do eu divino que existe no íntimo e de que se constitui, sendo necessário transmudar esse material inferior num processo alquímico emocional, para realmente encontrar o significado existencial.

Ter em mente a presença da sombra, a fim de vencê-la, torna-se uma necessidade psicológica inadiável, como sucede nos contos de fadas, nos mitos ancestrais, facultando a liberação do ser oculto, misteriosamente transformado pela magia da ignorância (A bela e a fera, O príncipe sapo, Branca de neve, A bela adormecida, etc.)

Com essa consciência, fica muito claro que não adiantam as lutas externas, os combates inglórios contra os outros, a ânsia de superar os competidores, o afã de ultrapassar os demais, por insegurança pessoal, facultando-se encontrar e viver-se o sentido da vida. Ninguém pode viver de maneira saudável sem o culto interno da integração da fé religiosa com a razão, numa harmonia estimuladora ao prosseguimento dos embates inevitáveis do dia-a-dia, haurindo confiança nos momentos difíceis e renovando a coragem ante a ameaça do desânimo. Esse sentido da vida não pode ser desenhado pelos hábitos externos, mas construído de maneira subjetiva, idealista, interior, mediante o enriquecimento das aspirações que engrandecem a existência. É impossível, de maneira definitiva, viver-se sem o sentimento dos conceitos eternos, daqueles que dão dignidade à criatura humana, proporcionando-lhe ética e moralidade para ser fiel aos objetivos existenciais.

Com essa percepção, descobre-se que os conflitos, as aflições em torno das posses e o medo de perdê-las são fenômenos pessoais interiores da própria insegurança, levando a transtornos de comportamento e a distúrbios orgânicos repetitivos.

A legítima psicoterapia objetiva conduzir o indivíduo ao redescobrimento da sua realidade, da sua origem espiritual, da finalidade existencial, do seu futuro imortal, que se lhe transformam em alicerces de segurança para as lutas contínuas, evitando a projeção dos seus conflitos nos outros, assumindo a culpa e liberando-a do inconsciente em que jaz produzindo sombra e desar.

Quando Jesus enunciou que é necessário tomar a sua cruz e segui-lO, Ele propôs a conquista da autoconsciência, a definição para assumir as próprias responsabilidades, ao invés de permanecer-se divagando em torno de como encontrar o melhor processo para o equilíbrio, que não se expressa em formas exteriores ou mediante as fugas de transferência de responsabilidades, ou para os prazeres que se extinguem, por mais se prolonguem...

A psique necessita de apoio transcendente para proporcionar elementos dignificadores, por intermédio da realidade em que todos se encontram mergulhados, elegendo aqueles que são mais compatíveis com as aspirações e as possibilidades, de execução.

Todos dependem de Deus, porque, afinal, estamos mergulhados em Deus, sendo necessário reconhecê-lO em nós, a fim de que O manifestemos por intermédio do comportamento emocional e das ações sociais, familiares, espirituais...

Quando indagaram a Jung se ele acreditava em Deus, respondeu com humildade e sabedoria, que não necessitava de crer, informando: - Eu sei, não preciso acreditar... Há uma contínua batalha para definir-se Deus e atribuir-Lhe exclusivamente caráter religioso, limitando-Lhe a grandeza, o que faculta àqueles que pensam e se libertaram das crenças ligeiras, negá-lO, porque a sua visão é mais ampla e abrangente do que a limitada proposição do fanatismo religioso. Se for considerado como a vida, por exemplo, passa a existir naquele que O imagina, porquanto a Sua realidade somente pode ser aceita pela consciência depois que se começa a concebê-lO.

Sem um valor maior, que mereça investimento, ninguém se arvora à luta, ao sacrifício, porque tudo superficial logo perde o sentido. É semelhante a determinados tipos de metas humanas, que são imediatas, como conseguir coisas, posses, amealhar fortuna, conviver com pessoas, e ao alcançá-los, terminando o objetivo, surgem as frustrações e os desencantos.

Há pais que se entregam à educação dos filhos, depositando neles todas as suas aspirações e também insatisfações, esperando compensação quando os mesmos adquiram a idade adulta. Quando essa ocorre, e os descendentes são convidados a seguir a própria existência, atormentam-se, acreditam-se abandonados, sofrem depressões, perdem o sentido existencial...

O significado da vida não é esse compromisso breve da existência. 

Mas o mesmo fenômeno ocorre com o trabalho, com a carreira profissional, com as aspirações políticas e culturais, artísticas e religiosas... Alcançado o patamar programado, a ausência de nível mais elevado conduz ao tédio, ao desinteresse, à perda de sentido da vida...

Isto porque a educação infantil é feita de ilusões que escravizam e se transformam em metas primordiais, tornando-se uma proposta neurótica e destituída de significado. Descobrir o destino e trabalhá-lo, programar essa fatalidade honorável e saudável é o objetivo da vida, aquele que proporciona saúde integral, porque não é conquistado de um para outro momento, não se reduz a encantos transitórios, não é monótono, apresentando-se sempre novo e situado um passo à frente.

A medida que a religião enfraqueceu nas famílias, o desinteresse pelo ser espiritual igualmente padeceu atrofia emocional, deixando-se que cada um eleja, quando oportuno, o seu conceito de vida e de espiritualidade, como se fosse crível permitir-se que alguém primeiro se contamine de alguma enfermidade para depois expor-se aos perigos que a mesma proporciona.

A criança deve sentir o valor da família, compreender o significado desse grupo social reduzido, a fim de poder conviver com aquela outra, a social e ampla, com idéias religiosas liberais e enriquecedoras, a fim de amadurecer psicologicamente com segurança e respeito pela existência.

Uma visão infantil bem trabalhada pelos pais e educadores permanecerá conduzindo-lhe a vida para toda a existência. Os diferentes símbolos de cada fase etária serão decodificados e transformados com naturalidade sem choques nem perdas, substituídos por outros mais oportunos e significativos, que abrirão espaço para o encontro com a realidade existencial desvestida de fantasmas e de bichos-papões.

Os mitos pessoais, as fantasias, os complexos e os sonhos não realizados quando se expressam naturalmente, são superados pelas conquistas do discernimento e da razão, da contribuição da psique, unindo as duas fissões numa só significação.

A grande crise existencial

Embora os conflitos que a fé religiosa produziu em muitas vidas, no passado, especialmente nos já longínquos dias da idade média, nos quais prevaleciam a ignorância, o temor e o absolutismo do poder clerical, o arquétipo espiritual tem sido uma necessidade para o desenvolvimento psicológico do ser. Lamentavelmente, personalidades psicopatas, na sua grande maioria, temerosas da vida e portadoras de conflitos refugiam-se nas doutrinas religiosas, como noutras áreas da sociedade, mas especialmente nas primeiras, ocultando os seus dramas e medos, ao tempo que, em nome da salvação, castram os valores intelectuais e a sensibilidade dos crentes, submetendo-os aos seus caprichos e insânia.

Proibem tudo quanto pode proporcionar-lhes alegria de viver, liberdade de pensamento, ampliação do sentido da vida, exaltando a experiência humana, porque se encontram conturbados e invejam os saudáveis. Condenam tudo quanto lhes constitui sofrimento, pela covardia que os caracteriza em relação ao autoenfrentamento, preferindo a sombra à plenitude do Self.

Toda religião, no seu significado profundo, objetiva religar a criatura ao seu Criador, o que representaria estabelecer o eixo pleno ego-Self, o ser aparente com o real, proporcionando-lhe condições de saúde e de paz.

Ao invés disso, as mentes atormentadas e mal desenvolvidas, os Espíritos angustiados, autossupliciando-se, como se os seus corpos fossem os responsáveis pelos pensamentos e conflitos resultantes da fissão da psique no anjo e no demônio, com predominância desse último, em face das tendências tormentosas não vencidas, evitavam o mundo e o odiavam em conduta masoquista.

É natural que o desenvolvimento da sociedade e as conquistas da inteligência, a partir do período industrial, da revolução inevitável imposta pelo progresso, voltassem-se para combater esse parasitismo emocional e retrocesso cultural, abrindo portas a novas experiências e desmistificando as informações fantasistas das condenações infernais e das punições divinas.

Lentamente, mas com segurança, as filosofias do positivismo, do existencialismo e do niilismo encarregaram-se de apresentar o lado agradável da existência, as belezas que existem em tudo e em toda parte, as concessões formosas do prazer e do ter, as novas experiências do conhecimento, arrebatando as multidões.

Ao mesmo tempo, a ampliação dos conceitos em torno do universo e sua incomparável grandeza, afastou os antigos fregueses das religiões dos arraiais da fé para a convivência com outro tipo de realidade que desmentia suas afirmações, agora fáceis de ser comprovadas, dando lugar ao cepticismo, à crítica mordaz dos seus textos e dogmas, bem como ao inevitável abuso defluente dos excessos.

A hipocrisia religiosa não pôde suportar a realidade dos comportamentos humanos rompendo os limites que lhes foram impostos multimilenarmente, atirando-se com sede excessiva nos usos que se transformaram em abusos de consequências igualmente danosas.

Os avanços da ciência apoiada na tecnologia dignificou a vida, facultando uma visão otimista e encantadora da existência humana, aumentando o seu poder até chegar aos extremos de tornar-se onipotentes, de tal modo, que nada se faz sem o seu concurso, chegando-se mesmo a considerá-las os novos deuses do panteão cultural da atualidade.

A era industrial revolucionou todos os padrões de comportamento então vigentes, e o ser humano lentamente submeteu-se às máquinas que concebeu e criou, tornando-se-lhes servos obedientes.

A ganância de possuir mais ampliou o seu desempenho, fascinando os governos das nações poderosas que enlouqueceram pelo fascínio de mais conquistar, submetendo, lentamente, os demais povos à sua dominação arbitrária, disfarçada ou não, por meio das falsas ajudas aos países em desenvolvimento, explorando-os e escravizando-os, utilizando-se da política arbitrária e de mecanismos perversos de controle por intermédio das suas agências de espionagem e de corrupção, atingindo culminâncias de glórias e de recursos, quais ilhas fantásticas no meio de oceanos de miséria à sua volta. De igual maneira, com habilidade e sem escrúpulo, fomentaram as guerras de extermínio, em nome de suas raças prepotentes, decantadas como superiores pela cor da epiderme, pelo sangue, pela tradição...

O ser psicológico, porém, é livre, mesmo quando se encontra submetido a circunstâncias e situações indignas e escravistas. A sombra predomina na conduta, mas o Si-mesmo permanece orquestrado pela esperança e pelas aspirações de liberdade e de triunfo.

Pôde-se observar essa situação conflitiva nos campos de concentração de trabalhos forçados e de extermínio, quando judeus, colocados como kapos, para vigiarem seus irmãos de raça, apresentavam, não poucas vezes, mais crueldade do que a dos seus indignos comandantes.

Narra-se um desses momentos, quando um kapo luta tenazmente com um pai, para que esse lhe dê o filho para ser encaminhado à câmara de gás. No esforço desenvolvido pelo genitor da vítima, esse gritou-lhe: - Você não tem filho, para ter uma idéia do que é perder-se um de forma tão malvada? E ele respondeu, trêmulo: - Sim, é claro que tenho. Por isso sou obrigado a eleger cinco crianças para a câmara, conforme solicitaram-me, ou o meu filho irá no lugar vazio...

A sombra alucinada não tem dimensão da própria loucura e o ego torna-se de uma crueldade sem limite. 

Vale a pena recordar outro terrível momento de crueldade e infâmia no período em que a Polônia sofria o drama do holocausto, quando os sicários solicitaram a um rabino do gueto que selecionasse expressivo número de judeus para as câmaras de gás, e ele, ameaçado, optou pelo suicídio na difícil situação, não se tornando algoz dos seus irmãos. A outro, que o substituiu, foi feita a mesma absurda proposta, e ele viu-se na contingência de eleger os que seriam assassinados, constatando depois que fora ludibriado pelos agentes da crueldade...

Muito difíceis soluções em circunstâncias dessa natureza, quando o Self perde a dimensão da sua espiritualidade e deixa-se dominar pelo ego da sobrevivência física ao comando da sombra e dos arquétipos da esperança, da felicidade e do significado passadas aquelas horas intermináveis...

A perda do sentido espiritual e religioso produziu seres insensíveis, cruéis e sem nenhum compromisso com a vida e os valores transcendentais, resultando na situação deplorável da ausência de respeito por si mesmos, pelos demais e por tudo, incluindo a Natureza.

Esse desvario, num crescendo alucinado, proclama o prazer pessoal acima de todas e quaisquer circunstâncias, apelando mesmo para a morte, quando aparentemente surge qualquer ameaça ao seu ego exacerbado, que exige prazer até a exaustão.

Não é outro o fenômeno que diz respeito ao aborto provocado, como instrumento de libertação da responsabilidade e do trabalho, embora sabendo-se que a coabitação sexual, como é natural, leva à concepção que poderia ser evitada pelas pessoas egoístas que não desejam compromissos e se equivocam, pensando sempre no eu insensível, até o momento futuro da solidão e da amargura...

De igual maneira, o crime da eutanásia, quando o paciente não deseja experimentar o processo degenerativo, os fatores decorrentes das enfermidades, as situações purificadoras pelo sofrimento, exigindo a interrupção da própria existência, em terríveis atos suicidas assistidos, ou quando a família resolve pela interrupção da vida de um dos seus membros que lhe exaure os recursos com os procedimentos médicos de alto custo...

Ao lado desses terríveis algozes psicológicos da sociedade contemporânea, que sofre os efeitos dessas amargas decisões, o suicídio cresce em estatística, em razão do niilismo que tudo reduz à consumpção da vida pela morte.

Uma sociedade que mata fetos indefesos, idosos e enfermos irrecuperáveis e justifica-se, como pode tornar-se fraterna e solidária? Como quebrar esse gelo emocional de mulheres e de homens interessados apenas no momento fugaz pelo qual transitam, sem pensar na própria situação, logo mais?

Não seja de estranhar a tragédia do cotidiano, a crise existencial que toma conta dos indivíduos e da sociedade.

Uma nova religião psicológica, sem cultos nem dogmas lentamente surge, a partir da visão holística de Jung, que vivenciou experiências mediúnicas inumeráveis com a jovem prima Helena Preiswerk, na intimidade do lar, na personificação que o dominava uma que outra vez, revendo-se como alguém do século anterior.

O Espiritismo, por sua vez, doutrina profundamente positivista, fundamentada nas experiências psicológicas e transpessoais da imortalidade do ser, do seu triunfo sobre a morte, da multiplicidade das existências, respondendo pelo conhecimento arquivado no inconsciente coletivo, oferece as certezas para o avanço do ser que se é, sem dúvida o verdadeiro imago Dei, no rumo de Deus...

Com certeza, Aquele que está acima das descrições bíblicas, que somente dão uma pálida ideia arquetípica da Sua realidade, que supera a conceituação antropomórfica, abarcando o Universo como Causalidade e Fatalidade de tudo e de todos.

O autor da psicologia analítica afirmou com ênfase: - "Através da minha experiência, eu conheço um poder maior do que meu próprio ego. Deus — é o nome que dou a esse poder autônomo", portanto, fora dele e dominante nele.

Ora bem, para que a culpa apareça, torna-se necessária a presença de Deus na consciência, mesmo que sem dar-se conta, porque é através da Sua transcendência que o indivíduo possui o padrão interno do que é certo e do que é errado. Ei-lO, pois, ínsito no mais profundo abismo do Si-mesmo.

Na sua obra monumental, o Aion, ainda se refere o admirável mestre: - "Cristo é o homem interior a que se chega pelo caminho do autoconhecimento."

Esse Cristo ou estado crístico logrado por Jesus, na Sua condição de Médium de Deus, foi alcançado pelo apóstolo Paulo e por muitos discípulos que se Lhe entregaram em regime de totalidade, e ainda pode ser logrado quando se atinge o estado numinoso, tornando-se livre dos processos reencarnatórios, das injunções penosas do corpo, das circunstâncias impositivas da evolução.

Auxiliar, na conquista desse estado, é missão da psicoterapia profunda, trabalhando o ser integral, rompendo a concha grosseira em que a sombra muitas vezes se oculta, evitando ser identificada.

Dessa crise existencial que desestrutura o ser humano, transformado em máquina de prazer, que logo se desgasta e decompõe, surgirá uma nova proposta de humanização do ser que se erguerá dos descalabros para a valorização do divino que nele existe, dos sentimentos que engrandecem, que elevam moralmente e dão real significado existencial, trabalhando-o para que, na condição de célula social, ao transformar-se para melhor contribua para todo o conjunto.

Será, então, factível acreditar-se no mundo melhor, saudável e abençoado, onde seja possível amar e ser amado, construir para sempre sem medo e sem perda, conquistando o infinito que está ao alcance...

O ser humano pleno

Frederico Nietzsche, dominado por terrível pessimismo, atormentado por contínuas crises de depressão e amargura, concebeu o super-homem como aquele que poderia vencer o niilismo e com a sua sede de poder tudo conquistar. Esse verdadeiro arquétipo que predomina em muitos indivíduos, estimulando-os à conquista desse símbolo representado na personagem fictícia americana do Superman, é um sonho atormentado que não encontra respaldo nos conteúdos psicológicos e somente vige na imaginação.

Ao conceber esse protótipo, Nietzsche não imaginou o modelo ariano como ideal, que, de certo modo, detestava, mas um alguém que superasse o homem morto, do Assim falava Zaratustra, que talvez não suportasse os imensos conflitos gerados à sua volta. Por algum tempo, esse conceito gerou incompreensão em torno do autor, quando sua irmã, aquela que conviveu com ele nos últimos tempos, ofereceu a Hitler uma bengala que lhe havia pertencido, deixando transparecer simpatia do filósofo pelo nazismo...

Idealizar-se um super-homem é tentativa frustrada de desprezar-se o homem e todas as potências que se lhe encontram em germe.

Porque o seu processo de experiências é realizado por etapas caracterizadas por incertezas e dificuldades, aspira-se, inconscientemente, à possibilidade mitológica de tornar-se alguém inacessível aos fenômenos dos sofrimentos, das angústias e da morte, conforme a concepção em voga em torno do Super man.

A conquista dessa robustez e grandeza moral somente é possível pela inversão de valores, que se apresentam no mundo exterior como portadores de poder e de glória, estando adormecidos no Si-mesmo, que deve ser conquistado com decisão, em processos vigorosos de reflexão e de ação iluminativa, de forma que nenhuma sombra consiga predominar na aquisição da plenitude.

A conquista de humanidade conseguida pelo psiquismo após os bilhões de anos de modificações e estruturações, transformações e adaptações, faculta, neste período da inteligência e da razão, a fantástica conquista do pensamento, essa força dinâmica do Universo que o sustenta e revigora incessantemente.

Não foi sem sentido psicológico profundo que o astrofísico inglês Sir James Jeans declarou: O universo parece mais um pensamento do que uma máquina, coroando-se com a declaração do nobre Eddington informando que: A matéria-prima do universo é o espírito.

Por isso mesmo, quando o ser humano autoexamina-se, percebe-se como um todo com possibilidades especiais independentes de qualquer outra condição externa, mas ao abrir os olhos dá-se conta do meio ambiente, das cricunstâncias e das imposições sociais, tornando-se parte do conjunto, embora mantendo alguma independência. Surgem-lhe, então, as necessidades de autoafirmação, de autorrealização, buscando a integração no conjunto sem perder a sua identidade, a sua individualidade, o Si-mesmo.

Logo se lhe manifestam as ambições pelo poder, pelo ter, que o estimulam à luta, impulsionando-o a vencer os obstáculos que se interpõem na marcha, tentando dificultar-lhe a conquista dos seus objetivos.

A insistência de que dá mostra fortalece-o, auxiliando-o a definir os rumos do progresso, para logo depois, à medida que amadurece psicologicamente, dar-se conta de que essas conquistas do ego são interessantes, proporcionadoras de comodidade, de prazeres, porém insuficientes para sua plenificação.

Amadurecido, sem tormento de frustrações, mas por análise das ocorrências e das posses, descobre outra ordem de valores interiores, de aspirações mais significativas, de sentido mais lógico e grandioso para a existência, passando a aspirar pela plenitude, esse estado de samadi, preservando a dinâmica de intérmino crescimento.

Considerando-se que o processo de evolução é infinito, quanto mais consciente se encontra o ser humano, a mais aspira e melhores anelos trabalham-lhe o íntimo, porque a sua concepção da realidade é abrangente e compensadora.

Quem anda num vale tem limitada a visão, nada obstante a beleza da paisagem. A esforço, começando a ascensão montanha acima, amplia-se-lhe o horizonte observado, apesar de permanecerem distantes os contornos dos montes e dos abismos... No entanto, quando atinge o acume, sente-se triunfante e pequeno ante a grandeza do que abarca visual e emocionalmente, não se contentando somente em observar, mas em ser também parte significativa desse conjunto, que não existia para ele até o momento em que pôde contemplar...

O observador existe quando detecta o que antes não tinha vida para ele, que, por sua vez, passa a ser observado pelo que observa.

No pandemônio dos conflitos existenciais, o ser humano apequena-se e parece consumido pelas situações psicológicas em que se vê envolvido, como alguém num vale em sombras, sem perspectivas mais amplas que lhe facultem os horizontes de infinita alegria e de bem-estar.

Os tormentos cegam a razão, o egoísmo limita os passos, estreitando as aspirações que pretendem abarcar tudo, sem possibilidade de fruí-lo, o que é lamentável, tornando o possuidor possuído pela posse possuidora...

Quando se liberta dos tentáculos que arrastam tudo de maneira constritora para o centro do ego, respira o oxigênio saudável da alegria inefável por estar livre das conjunturas tormentosas do ter e do temer perder, do ser admirado pelo que possui, não pelo que é, de ser visto como triunfador de fora, no que é admirado, mas raramente amado... Livre de qualquer tipo de dependência factual do cotidiano das coisas, pode voar pela imaginação e pelos sentidos em qualquer direção, sem medo nem ansiedade, porque se encontra pleno.

A aventura existencial é toda uma saga, e a moderna psicologia analítica, avançando com o progresso da Humanidade, oferece os recursos hábeis para as conquistas interiores valiosas, sem bengalas de sustentação, mas com reforços de lucidez e autoconhecimento para que seja alcançada a vitória sobre as injunções da caminhada orgânica.

E provável que esse avanço e tais conquistas não sejam conseguidos de uma só vez, mas paulatinamente, mesmo porque aquele que salta do vale abruptamente no topo do monte, usando veículo aéreo, sente a diferença atmosférica, o ar rarefeito, acostumando-se muito lentamente para poder beneficiar-se.

Psicologicamente, as mudanças interiores são também oxigenadas pelas experiências conseguidas nas fases anteriores, nos passos iniciais de sustentação das futuras conquistas, arregimentando recursos para mais audaciosos logros.

Despojar-se dos instrumentos de que o ego se vem utilizando para manter-se, de um para outro momento, causa-lhe transtorno inevitável, razão pela qual a integração com o Self deve dar-se naturalmente, de tal forma que haja equilíbrio, um perfeito estado de individuação.

Há pessoas que aspiram ao sacrifício, ao holocausto, num êxtase de fé religiosa para acercar-se mais de Deus. 

Não é de crer-se que Deus assim o deseje, pois sendo a Sua a mensagem de amor, o autoamor faz parte da Sua agenda de evolução para todos.

Ocorrendo de forma não buscada, constitui oportunidade de sublimação, em que o ego cede lugar ao elemento divino nele existente. No entanto, o sacrifício pode ser visto como o abandonar das coisas, dos apegos que tanto agradam, trocando-os pela espiritualização libertadora, e o holocausto refere-se ao desprezo pelas paixões inferiores, pelos vícios que dão prazer, pelas pequenezes a que muitos se aferram, tornando-se de valor incontestável e grandioso.

Em uma página rica de sabedoria, Allan Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XVII, item 3, faz um retrato psicológico de O homem de bem, que traduz com perfeição a conquista do ser pleno.

Diz o Codificador do Espiritismo:

O verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza. Se ele interroga a consciência sobre seus próprios atos, a si mesmo perguntará se violou essa lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia, se despregou voluntariamente alguma ocasião de ser útil, se ninguém tem qualquer queixa dele; enfim, se fez a outrem tudo o que desejara lhe fiassem.

Deposita fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria. Sabe que sem a Sua permissão nada acontece e se Lhe submete à vontade em todas as coisas.

Tem fé no futuro, razão porque coloca os bens espirituais acima dos bens temporais.

Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções são provas ou expiações e as aceita sem murmurar. 

Possuindo o sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem, sem esperar paga alguma, retribui o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte e sacrifica sempre seus interesses à justiça.

Encontra satisfação nos benefícios que espalha, nos serviços que presta, no fazer ditosos os outros, nas lágrimas que enxuga, nas consolações que prodigaliza aos aflitos. Seu primeiro impulso é para pensar nos outros, antes de pensar em si, é para cuidar dos interesses dos outros antes do próprio interesse. O egoísta, ao contrário, calcula os proventos e as perdas decorrentes de toda ação generosa...

...O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças, nem de crenças, porque em todos os homens vê irmãos seus...

...Não alimenta ódio, nem rancor, nem desejo de vingança; a exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas e só dos benefícios se lembra, por saber que perdoado lhe será conforme houver perdoado.

È indulgente para as fraquezas alheias, porque sabe que também necessita de indulgência e tem presente esta sentença do Cristo:—Atire-lhe a primeira pedra aquele que se achar sem pecado.

Não se compraz em rebuscar os defeitos alheios, tampouco em evidenciá-los. Se a isso se vê obrigado, procura sempre o bem que possa atenuar o mal.

Estuda suas próprias imperfeições e trabalha incessantemente em combatê-las. Todos os esforços emprega para poder dizer, no dia seguinte, que alguma coisa traz em si de melhor do que na véspera.

Não procura dar valor ao seu espírito, nem aos seus talentos, a expensas de outrem; aproveita, ao revés, todas as ocasiões para fazer ressaltar o que seja proveitoso aos outros...

... Usa, mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, porque sabe que ê um depósito de que terá de prestar contas e que o mais prejudicial emprego que lhe pode dar é o de aplicá-lo à satisfação de suas paixões...

...Finalmente, o homem de bem respeita todos os direitos que aos seus semelhantes dão as leis da Natureza, como quer que sejam respeitados os seus... (52a . edição da FEB.)

Raramente se pode desenhar um ser humano pleno, conforme o notável educador lionês o fez, como notável psicólogo não acadêmico, mas Espírito incomum que conseguiu a individuação, tornando a sua existência um mundo luminoso para todos quantos se lhe acercaram, permanecendo a claridade dos seus ensinamentos como diretriz de libertação de consciências e de perfeita identificação dos mitos na realidade do ser, assim como o perfeito equilíbrio na vivência de inúmeros arquétipos, proporcionando sabedoria e paz.

FRANCO, D. P.; JOANNA DE ÂNGELIS (Espírito). O ser humano em crise existencial: O ser humano pleno. In: Em Busca da Verdade, cap. 5